Educação e inclusão na sociedade do conhecimento
Jorge Werthein *
Uma visão realista do papel da informação e do conhecimento nos atuais processos produtivos leva a crer que nem uma nem outro conduzem necessariamente à igualdade social. Isso implica considerar que as novas tecnologias da informação, embora representem avanços em diversas áreas, também conduzem a formas inéditas de exclusão social.
Percebe-se, de um lado, o avanço da tecnologia, o desenvolvimento de recursos cada vez mais sofisticados. De outro, verifica-se mais uma forma de disparidade social: a exclusão da sociedade do conhecimento, caracterizada pela distância entre os que dominam as novas tecnologias e aqueles que mal as compreendem ou até as desconhecem.
Os países também vivem de modo desigual o ingresso na sociedade do conhecimento. O exemplo mais evidente disso é a Internet, que conseguiu interconectar, em poucos anos, milhões de pessoas nos lugares mais remotos do mundo. Contudo, o acesso à rede é desigualmente distribuído: 75% dos usuários vivem nos países industrializados (14% da população mundial). Enquanto nos EUA eles são 54% da população total, na América Latina e no Caribe, apenas 3,2%. Outra disparidade está no interior dos países: a maioria dos usuários da rede vive em zonas urbanas, possuem melhor escolaridade e condição socioeconômica, são jovens e, na grande maioria, do sexo masculino (na América Latina, eles são 66%).
No Brasil, o IBGE contou mais de 32 milhões de usuários da Internet. A maioria é do sexo masculino (16,2 milhões), tem média de idade de 28 anos, 10,7 anos de estudo e rendimento médio mensal familiar per capita de R$ 1 mil. O perfil de quem não utiliza a rede é claramente distinto e, por isso mesmo, merece atenção: mais de 37 anos de idade, entre 5 e 6 anos de tempo de estudo e rendimento médio mensal de R$ 300,00.
Investir em educação está no ponto de partida para reverter a situação de quase letargia em que a América Latina se encontra se comparada aos países mais desenvolvidos científica e tecnologicamente. A incorporação do ensino de ciências ao currículo desde o ensino fundamental, de comprovado impacto em vários países, é um exemplo de iniciativa recomendável.
No âmbito da tecnologia, há, em todo o globo, iniciativas voltadas para a redução da crescente lacuna digital, como o desenvolvimento de software livre e de computadores de baixo custo. A revolução tecnológica, porém, não pode ser reduzida a mera incorporação ou acúmulo de maior número de máquinas e sistemas de informação e comunicação. A inovação deve ter caráter social (sustentada com políticas educativas e culturais, de desenvolvimento social, de emprego etc.).
Cabe salientar que somente a educação garantirá que as novas tecnologias da informação e da comunicação promovam qualidade de vida ao maior número possível de cidadãos. Nisto deve consistir a base da sociedade do conhecimento: a possibilidade e a capacidade de adquirir e processar informações e transformá-las em conhecimento útil.
* Jorge Werthein é doutor em Educação pela Universidade Stanford (EUA) e Diretor Executivo da Rede de Informação Tecnológica Latino-Americana – RITLA. jwerthein@ritla.net.
|