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UPDATE artigo SET Conteudo = 'A literatura da América Latina tem sido um espaço de construção de identidades culturais e de reflexão sobre a história do continente. Estudiosos da produção literária hispano-americana, por sua vez, vêm ao encontro dos escritores e poetas ao reclamar para a análise e crítica a necessidade um ponto de vista americanista que supere os desajustes da aplicação de conceitos europeus a realidades às quais são estranhos (Josef, 1989). Neste artigo expomos de forma sucinta dois vetores da obra (ficcional e não ficcional) do escritor cubano Alejo Carpentier (Havana, 1904 -Paris, 1980): a afirmação da particularidade da cultura latino-americana e a utopia de uma cultura universal. O objetivo do artigo é mostrar como o autor reconcilia esses dois aparentemente contraditórios, cujo conteúdo remete a preocupações da Antropologia. Nessa medida, seus textos -como, de resto, os de outros escritores interessam não só aos amantes e estudiosos de literatura, mas também aos cientistas sociais, especialmente no que toca à compreensão da formação de ideologias e à construção de identidades. A Antropologia moderna tende a ser cética quanto à existência de universais de cultura, tema que deixou de ter prioridade nas investigações desde que foram amplamente aceitos os pressupostos da diversidade das culturas, no plural, e do relativismo, segundo o qual nenhuma delas se institui como ponto de referência privilegiado a partir do qual se olham as demais. Isto não diminui a relevância da discussão das idéias do escritor, instigando, ao contrário, a tentativa de esclarecer como a "americanidade" vai de par com sua crença na possibilidade de uma cultura que seja a de todos os homens. O argumento desenvolvido nas páginas seguintes é de que o americanismo convive em sua obra com a utopia humanista de uma cultura universal, concebida como recuperação de uma unidade perdida, anterior à separação de povos, religiões e línguas. A crença numa natureza humana universal, que não é apenas a de uma espécie biológica entre outras e no Homem como valor supremo, remete às convicções socialistas do autor. Ao postular a possibilidade de restauração da unidade cultural perdida, ele acrescenta à utopia socialista (que também fala de um futuro de homens iguais) uma dimensão propriamente cultural. A América mestiça figura como antevisão da viabilidade dessa nova cultura universal, situada no ponto de junção entre o passado mítico e o futuro. O argumento foi esquematizado em quatro proposições, colhidas em seus textos, que comentamos a seguir. 1 - a cultura e a sociedade modernas, representadas paradigmaticamente pela Europa ocidental, vivem uma crise que anuncia o encerramento de seu ciclo e que está patente nos impasses das artes e enfraquecimento das forças criativas, bem como na incapacidade de cumprir as promessas da revolução burguesa, de emancipação e dignificação de todos os homens; 2- as culturas "bárbaras", mestiças e transculturadas, como as da América Latina, não só são legítimas, como podem levar oxigênio à cultura européia e uma ampla transculturação é necessária; 3- a unidade fundamental dos elementos primordiais de cultura - um tesouro guardado entre povos primitivos ou nos remanescentes de primitivismo dentro da civilização-garante a viabilidade das transculturações; 4-a busca desses elementos primordiais é uma iniciação e exige mudança de perspectiva sobre o real, com o abandono da crença na linearidade do tempo. Carpentier é identificado como membro das vanguardas que se empenharam na atualização das artes na América Latina. Nos anos 1920, escrevia em revistas de arte e cultura em Havana, organizava concertos de música contemporânea e participava do Movimento Minorista, que aliava preocupações políticas às de renovação cultural. Em 1928, deixou o país fugindo à perseguição política do ditador Gerardo Machado e viveu até 1939 em Paris. No seu retorno à América rompeu com o surrealismo e começou a dar forma às idéias propriamente americanistas. Como outros modernistas da América Latina, teve papel importante no aggiornamento artístico do continente, fazendo a crítica das correntes que considerava superadas, crítica que atinge, nos anos 1970, o romance "nativista" "regionalista" e "costumbrista", não poupando seu primeiro livro, Ecué - Ya - Ó. Seu compromisso declarado, que ele conclama outros escritores a assumir, é o de inscrever a literatura e a arte latino-americanas no cenário mundial das artes modernas. O desafio do escritor latino-americano é fazer uma literatura universal, superando o particularismo e a invisibilidade de sua cultura e de suas línguas. 1 – O Olhar crítico sobre a civilização Vários personagens dos romances de Carpentier são artistas cujas carreiras estão temporariamente frustradas e que se angustiam com o sentimento de esterilidade. Seus sonhos de criação são abandonados, ao menos por algum tempo, como ocorre com Vera e Enrique, protagonistas de A Sagração da primavera, e com o músico de Los passos perdidos. Em luta com os problemas estéticos de sua época, com as circunstâncias políticas ou com a tentação de ceder às exigências do mercado, eles podem representar a crise da arte e cultura modernas, de que trata insistentemente a obra do escritor. Enrique personagem de A Sagração da primavera cujas viagens entre a América e Europa reproduzem as do próprio Carpentier, chega a Paris em 1928, já iniciado na arte moderna. Espera encontrar ali o rompimento com o subjetivismo romântico e com o “culto à geometria” de que falavam os manifestos vanguardistas lidos em Cuba. Para sua surpresa, os movimentos artísticos sucediam-se em velocidade de era industrial e os tema românticos faziam seu retorno no surrealismo. Ao procurar nas lições de Le Corbusier ( Enrique era estudante de Arquitetura, como o fora Carpentier ) o meio de compatibilizar o moderno com a ecologia do Caribe, nova surpresa: não há aceitação pacífica do racionalismo corbusiano na capital francesa. Que possibilidades teria então em seu meio, “tão marcado pelo exagero, pelo floreado e barroco” (A Sagração da primavera, p.69) a proposta do arquiteto? Mas a decepção com a Europa ocidental completa-se com a ascensão do nazismo, que transforma o berço do Aufklärung em campo de concentração e faz vitoriosas as teses de pureza de raça. A palavra liberdade, que os artistas vinham gritando, soa inócua naqueles anos em que toda liberdade era brutalmente negada.Enrique é, além do mais, vítima da indefinição que o acompanha até a redentora participação na batalha final da Revolução Cubana. Não tem convicções políticas firmes, só uma "abstrata aspiração de justiça", e vê a si mesmo como “eu indeciso, eu, o deslocado, o sem casta", o "Homem Vazio, sem vontade nem rumo o" (A sagração da primavera, p.72 e 101 ). O músico frustrado de Los pasos perdidos é outra personificação do homem moderno. Abandona suas aspirações artísticas pela rentabilidade financeira do cinema publicitário, mas não consegue superar o vácuo dentro de si; só a viagem iniciática aos confins do tempo, na Amazônia, permite a recuperação de seus poderes criativos. Na selva, tendo passado pelas provas da natureza, privado de livros, de papel e lápis, suas idéias musicais fluem. Numa viagem de regresso mais radical que a de Enrique ao voltar à pátria, ele vai aos dias do Gênesis e assiste ao próprio nascimento da Música na voz de um feiticeiro indígena. Moderno, na obra de Carpentier, entedia-se com as sucessivas revoluções estéticas e suas soluções definitivas, não tem identificação profunda com nenhuma corrente intelectual, vende às vezes sua alma ao demônio da clientela endinheirada e vê seus sonhos de criação desmoronarem. As interrogações do escritor -e de seus personagens -sobre a identidade da América Latina e a tentativa de encontrar-lhe um lugar na cultura universal não se fazem acompanhar do enaltecimento da civilização, mas da denúncia da falsificação dos ideais humanísticos. No pequeno conto Semejante a la noche ( Guerra del tiempo ), um jovem miceniano acode ao chamado de Agamenon para libertar Helena, separa-se da família antes de embarcar na armada espanhola para as Índias Ocidentais, prepara-se para o desembarque na Normandia. Ele crê na justiça das guerras travadas em nome da Razão, do verdadeiro Deus e da civilização - guerras e conquistas que resumem a história nada edificante do Ocidente. Em seu último romance El arpa y la sombra, para desmascar a capa religiosa de que se cobriu a história da América, situa o leitor diante de um Colombo humanizado que faz seu exame de consciência à beira da morte. O móvel da novela, como ele mesmo explica, foram os textos de Paul Claudel e Leon Bloy santificando o descobridor e o processo de beatificação levado à Sagrada Congregação de Ritos nos papados de Pio IX e Leão XIII. Como um herói moderno, o Colombo de Carpentier dialoga com suas culpas e autojustificações, admitindo para si mesmo que nada foi senão um embusteiro. Desconfiado do saber escolástico que não admite a experiência e manipulador do pretexto de propagação da fé para obter apoio dos reis, confessa que seus verdadeiros impulsos foram a cobiça de ouro e a paixão de tudo saber. Racional e ambicioso, mas apresentando-se como portador de Cristo, Colombo personifica o grande embuste do Ocidente. Segundo Irlemar Chiampi ( 1978 ) a Obra de Oswald Spengler uma referência importante para os intelectuais hispano-americanos e instrumentou as ideologias americanistas. O filósofo questiona a centralidade do Ocidente nas histórias até então praticadas e propõe uma revolução copernicana que englobe sem posição privilegiada todas as culturas: as da índia, China, Egito e México por ele nomeadas (Spengler, 1959:193). Sua crítica ao racionalismo e aos métodos dos que não incorporam a imaginação e a intuição são outros elementos que podem ter tido ressonância entre intelectuais americanistas, além da idéia de encerramento do ciclo da cultura do Ocidente. Mas Carpentier não opõe simplesmente uma Europa racionalista e moderna a uma América Latina tradicional, lembrando que a primeira tem se entregado a irracionalismos (como o do nazismo e voltado para as místicas orientais e saberes antigos na busca de algo que perdeu De certa forma, não é o espírito racional que falta na América, mas este que por sua limitação, não comporta os tucanos e ciclones do Novo Mundo (El recurso Del método, p. 22). El siglo de las luces apresenta claramente a decepção com o humanismo na Europa. A esperada "vitória total do Homem-sobre-si mesmo” (p.1 03) abortou numa revolução que não conseguiu universalizar-se (foi apenas francesa), violou seguidamente os artigos da Declaração de Direitos Humanos que ela mesmo promulgara, transformou a arte em propaganda e fez de homens notáveis servos que não hesitavam em obedecer quaisquer ordens. Assim, aspectos do pensamento de Spengler, da crítica marxista à sociedade burguesa e especialmente à frustração dos ideais de liberdade e igualdade bem como a atração generalizada dos modernistas pelo "primitivo", somam-se na obra de Carpentier para retratar criticamente a civilização. Contudo, ele é mais contundente ao tratar o tema do tempo, mostrando que a progressão linear contínua, contabilizada, é apenas uma concepção possível de temporalidade. Não só declarou a necessidade de inventar novas temporalidades, com tentou fazê-lo recorrendo ao tempo circular, como se verá no final. 2 – A América Latina transculturada Vera, a bailarina russa de A Sagração da primavera, almeja montar em Cuba a encenação do balé homônimo de Stranvinsky tal como as experiências vanguardistas européias não tinham conseguido. A partitura permanece, para ela, o marco da música moderna – os “33 minutos que comoveram o mundo da música” ( A Sagração da primavera, p. 257 ) – porque o argumento, inspirado nos rituais da Rússia pagã, realiza o retorno às fontes primitivas ( ritos tribais pré-cristãos ) que daria novo alento à música e às artes. Ouvindo sua proposta para o balé, Enrique cita Engels: Somente os bárbaros são capazes de rejuvenescer um mundo que sofre em virtude de uma civilização agonizante ( A Sagração da primavera, p. 293 ) Deslocando o trecho de seu contexto original ( Engels refere-se à decadência inevitável do Império Romano, onde o Estado se tornara opressor e escravagista, precipitada pela invasão das tribos germânicas ) pra dar-lhe sentido no plano da discussão sobre o rumo das artes no século XX. As idéias de “civilização agonizante “ e de revitalização pelas mãos dos “bárbaros”, aqui expostas pelos personagens da A Sagração da Primavera, são retomadas pelo escritor em outros textos. É na visão que Carpentier tem da América e da diferença entre Novo e Velho Mundo que se encontram os elementos para entender a transposição, para a clave da cultura, do trecho de Engels sobre os bárbaros. O escritor figura entre os renovadores da narrativa ficcional latino-americana e entre os propulsores de uma crítica à altura dessa mudança. Seu prólogo a El reino de este mundo, considerado um manifesto da nova literatura, colocou no vocabulário estilístico a fórmula real maravilhoso americano, que como assinala ( Chiampi., 1978 ), sinalizou com propriedade o rompimento com a narrativa realista de matriz européia. Uma outra expressão, barroquismo tropical, aparece na sua voz como na de seus personagens para designar tanto um estilo artístico quanto o caráter dos povos latino-americanos e as paisagens do continente. Ambas sintetizam sua percepção das particularidades da realidade latino-americana. Em 1948, Carpentier publica na revista Cubana Carteles as crônicas Visión de América narrando suas impressões de uma viagem à Grande Savana, na fronteira entre o Brasil e a Venezuela. As crônicas, semente de Los pasos perdidos, comunicam seu assombro diante de uma paisagem excepcional, concluindo que “em América, lo fantástico se hacia realidad” ( Crônicas, p. 181 ). Tudo ali é monumental demais para a escala humana, tudo é virgem e único demais para ser aprendido com o vocabulário que dispomos. Só referências a uma outra dimensão podem capturar essa natureza que é quase sobre-natureza, a paisagem do Gênesis. A imaginação européia, diz o autor, está aquém do que ali se vê. As crônicas e o romance El reino de este mundo são produzidos no contexto da ruptura de Carpentier com o surrealismo, explicada por ele mesmo nos anos 70 ( V. Literatura do maravilhoso ), e exibem uma tomada de posição americanista. O prólogo ao romance ironiza a busca de “maravilhoso” na literatura e nas artes plásticas européias das primeiras décadas do século XX: “... a fuerza de querer suscitar lo maravilhoso a todo trance, los taumaturgos se hacen burócrats”, acusa o autor ( El reino de este mundo, p. 8 ). A imaginação européia contemporânea mostra-se impotente diante da natureza americana e sua “obscena promiscuidad”, suas “metamorfosis simbiosis”. Falta-lhe a fé que animara Cervantes, Marco Pólo e mesmo os iotocentistas Hugo e Van Gogh, razão pela qual ela não dará, contemporaneamente, nenhuma “revelación privilegiada de la realidad”. A Europa sofre, portanto, de perda de alguma dimensão da realidade, que seus artistas tentam sanar com técnicas ampliadoras de consciência d buscas interiorizadas no inconsciente. Em contrapartida, toda a história da América nada é “sino uma crônica de lo-real maravilloso’( id.ibid., p. 13 ). Mas o que dá à América esta “dramática singularidad de los acontecimentos”? A resposta, dispersa nos romances, crônicas e ensaios, é em última análise a mestiçagem, as transculturações e a permanência de culturas tradicionais, afro-americanas e ameríndias. Assim sendo, pode-se dizer que sua estética modernista, suas idéias sobre literatura e artes, bem como seu debate com as vanguardas européias, estão montados sobre um argumento de fundo etnológico. A América é ímpar pela vasta mestiçagem de povos, excepcionalidade das paisagens ( elas também mestiças, simbióticas ), riqueza de mitologias e a “presencia fáustica del índio y Del negro”( El reino de este mundo, p. 12 ). A mestiçagem avaliada negativamente em multas teorias da raça começou a ser legitimada na América, por alguns intelectuais, no momento em que o arianismo ganhava força política na Europa. A defesa das misturas raciais e simbioses de cultura é fruto da proximidade intelectual do romancista com o antropólogo Fernando Ortiz, que introduziu o conceito de transculturação e cuja obra é avaliada hoje como um manifesto contra a discriminação racial e pela consolidação de uma sociedade mestiça (V. Le Riverend in Ortiz, 1991). Transculturação segundo Ortiz, é o processo no qual diferentes culturas, ao se encontrarem, sofrem mudanças; todas dão e recebem algo, produzindo uma síntese original, uma “ terceira cultura". Rejeitando o termo aculturação, que supõe a expectativa de que o outro venha a identificar-se com o observador (a saber, o europeu ), Ortiz avança o conceito salientando que o fenômeno para o qual aponta se revela por inteiro em Cuba e na América: da transculturação dos primitivos ciboneyes imposta pelos agricultores taínos a mais recente, de portugueses, chineses, franceses, passando pela dos espanhóis e africanos quando da conquista e colonização, toda a história cubana pode ser compreendida mediante a observação de culturações cumulativas. Só em Cuba, diz o autor, processaram-se transculturações dessa magnitude num lapso de tempo curto: o que a Europa experimentou ao longo de milênios, Cuba viu em quatro séculos (Ortiz, 1991 :86-90). Ecoando diretamente Ortiz, Carpentier fala das razões da originalidade americana: História diferente desde o começo, já que esta terra americana foi o teatro do mais sensacional encontro étnico registrado nos anais do planeta, encontro do índio, do negro, do europeu de tez mais ou menos clara, destinados, no futuro, a misturar-se, entremisturar-se, estabelecer simbioses de culturas, de crenças, de artes populares, na mais tremenda mestiçagem jamais vista....(Literatura do maravilhoso, p.36 ) Sua formulação do real maravilhoso americano, como o demonstra a maioria dos exemplos que fornece, remete à idéia de transculturação: o império napoleônico no reinado negro do Haiti, a igreja positivista no Brasil, uma escola rousseauísta numa república latino-americana, um cantador que entoa a gesta de Carlos Magno na Amazônia e a própria Revolução Cubana, uma revolução socialista “no país cuja situação era a menos propícia para isso”( Literatura do maravilhoso, p. 129 ). O barroquismo tropical. Igualmente característico da América, é a outra face da mestiçagem, pois “toda simbiose, toda mestiçagem engendra um barroquismo”( Literatura do Maravilhoso, p. 121 ). Ademais, Carpentier entende barroco não como estilo histórico, mas como um espírito, força criadora que se manifesta no período áureo de uma cultura ou civilização. Á exceção da sinonímia entre cultura e civilização, evoca-se aí o organicismo de Splenger, especialmente quanto à recorrência de um mesmo espírito em certa fase do ciclo de desenvolvimento de qualquer cultura. O barroco está sempre em posição de vanguarda e “costuma expandir-se no momento máximo de uma civilização ou quando nascer uma nova ordem na sociedade”, diz o escritor cubano ( Literatura do maravilhoso, p 119 ), situando a América Latina numa fase de desabrochar de sua cultura. Em lugar das delimitações ordenadas e equilibradas, os latino-americanos realizam junções que, no ponto de vista europeu, são ilegítimas. O argumento fica claro nas observações de Carpentier sobre a arquitetura das cidades antigas da América, com Havana, onde se percebe o mesmo “estilo sin estilo” ( “La ciudad de lãs columnas”, p. 21 ). A variedade de colunas em Havana é um verdadeiro passeio pela história da arquitetura ocidental, mas o caos aparente deu origem a uma cidade que na verdade é mais razoável que aquelas imaginadas pela ciência urbanística moderna. O barroquismo é decorrência da mestiçagem de estilos, uma transformação por sucessivas adições em que os originais são deformados. ...por suerte, fue mestiza – como México o el Alto Peru. Y como todo mestizaje, por proceso de simbiosis, de adición, de mezcla, engendra un barroquismo, el barroquismo cubano consistió en acumular, collecionar, multiplicar, columnas y columnatas...(...)Espírito barroco, legítimamente antilano, mestizo de cuanto se transculturizó en estas isias del Mediterráneo americano, que se tradujo en un irreverente y desacompasado rejuego de entablamientos clássicos...( La ciudad de las columnas, p.91, 94-5 ). Revendo positivamente a mestiçagem a adotando a perspectiva da transculturação. Carpentier reabilita a “impureza”- racial, cultural, artística: “O americanismo desalojou o purismo do nosso continente; além disso, hoje qualquer purismo é impossível para nós “( Literatura do maravilhoso, p.73 ) 3 – A Unidade dos elementos fundamentais de cultura Trabalhando em Havana com alunos oriundos de meios populares que recrutava para sua Academia, Vera concebe finalmente a verdadeira encenação de A Sagração da primavera. Ao convida-los a improvisar sobre a música de Stravinsky, que nunca tinham ouvido, Vera percebe que sua relutância se deve às tentativas de “traduzir’a percussão do compositor russo nos toques de tambor de seus rituais. Quando abandonam-se à música e deixam-se derrubar “por uma força superior, invisível”( A Sagração da primavera, p. 276 ), isto é, quando são possuídos não por um orixá da santeria, mas pelo próprio deus da dança, chegam perto da perfeição. Sua montagem do balé apaga as referências à Rússia, assim como a qualquer outro cenário histórico, geográfico ou cultural, pois sua meta é uma arte musical e coreográfica universal, calcada em princípios elementares de cultura, aqueles inscritos na própria natureza humana. O espetáculo serve-se, é verdade, das danças tradicionais dos ritos religiosos afro-cubanos, mas o recurso ao folclore repousa precisamente na crença de Vera em seu valor ecumênico – dado pela permanência de primitivismo – que irmana os povos apesar das diferenças lingüísticas e divergências históricas. A estética de Vera supõe uma concepção antropológica que em muito repercute a do próprio Carpentier. O mais simples e despojado é mais elementar e universal. Sobre esta camada compartilhada erguem-se as vestimentas multivariadas das raças e culturas, mas não é de particularismos culturais que a arte deve falar. A do século XX visa o homem que está por detrás das roupas culturais, que não é um animal nem um selvagem; sua natureza já é cultural, comporta idéias básicas sobre amor, morte, renascimento, fecundação, sagrado. A percepção da unidade subterrânea dos elementares de cultura é mais fácil em Cuba, o lugar das grandes transculturações de que falava F. Ortiz. Ali, Vera é levada a concluir pela revelação de raras identidades entre isto e aquilo, chegando a perguntar-se se, em suma, se o corpus da cultura não seria uno e universal, descansando umas poucas noções primordiais que eram de uma compreensão comum a todos os homens (A sagração da primavera, p.298). A apologia de valores infraculturais ou transculturais é uma resposta ao americanista e socialista Carpentier às divisões políticas, ideológicas e raciais que cindiram o planeta, resposta resumida em sua afirmação da unidade fundamental dos mitos. O mesmo princípio universalista está na base de sua proposta literária quando sustenta que o escritor moderno da América Latina deve ser o “Cronista das Índias” que retira o continente do limbo da história, como fizeram Colombo, Cortés e Montesquieu. Tal empreendimento envolve a reinvenção do idioma espanhol pela aceitação da impureza das línguas, invadidas por americanismos, tecnisismos da psicanálise, marxismo e cinema. Se o romancista latino-americano não tem a angústia da invenção original ( está mergulhado numa realidade ímpar ), ele sofre, em contrapartida, da angústia do particularismo de sua linguagem, curada pela busca de um estilo tão ímpar quanto a América – o estilo de quem não tem estilo ou “terceiro estilo”, que lembra imediatamente a “terceira cultura”, transculturada pela busca de um estilo tão ímpar quanto a América – o estilo de quem não tem estilo ou “terceiro estilo”, que lembra imediatamente a “terceira cultura”, transculturada, de Ortiz. A inscrição da América mestiça na cultura universal deve diluir, finalmente, o particular americano, como se diluirão todos os particulares. 4- O tempo circular A utópica cultura universal retoma elementares tão antigos que nenhum calendário pode localizar. Eles antecedem à contagem do tempo, situam-se no “sem tempo”dos mitos, nos dias de Gênesis e do Popol Vuh. Os povos primitivos, sem história, sem calendários para a contagem linear do tempo, estão mais próximos dessa aurora da cultura, o ponto da fuga na direção do qual parte o herói de Los pasos perdidos. Seu retorno à terra natal, na América Latina, é vivido com “la casi penosa sensación de que el tiempo se hubiera "revertido”( p.7 ), tempo pessoal de sua biografia, reencontro com a língua materna, mas também tempo histórico e mitológico do Homem e da Terra. Músico que invejava nos maestros sua condição de “Mediadores de Transcurso”e nos compositores a soberba de ter “derechos de propriedad sobre el tiempo”, ele descobre em sua viagem à Amazônia, que pode viver sem o relógio de pulso (pp. 18 e 111 ). Embrenhando-se na floresta em busca de um instrumento musical primitivo, que era sua missão recolher para um museu, ele retrocede no tempo à medida que penetra no "vasto misterio de los grandes barroquismos telúricos" (p.126) - navegando até uma passagem secreta. Na primeira aldeia indígena visitada, percebe quão absurda era a noção evolucionista de primitivismo, aplicada a homens que eram "absolutamente dueños de su cultura" (p.173). O padre que o acompanha reza uma missa na aldeia, projetando o herói no século XV, na Idade Média dos descobridores. A chegada ao território de .uma tribo nômade levanta em sua consciência uma dúvida terrível: seriam homens aqueles seres que comem vermes e nada plantam? Mas é entre eles que assiste ao Nascimento da Música na voz de um feiticeiro. Ruma adiante pelas Grandes Mesetas e, na contagem regressiva do tempo, alcança "el mundo del Gênesis, al fin dei Cuarto Dia de la Creación. Si retrocediéramos un poco más, ilegaríamos adonde comenzara la terrible soledad del Creador -la tristeza sideral de los tiempos sin incienso y sin alabanzas, cuando la tierra era desordenada y vacía, y las tinieblas estaban sobre la haz del abismo" (p.185). Mais tarde, quando o esboço de uma composição musical germina em sua imaginação, percebe que recebera uma lição daqueles homens de cuja humanidade chegara a duvidar e sobre quem se julgara superior. Viajando para trás encontra a essência de sua arte e o gesto inicial da criação, que julgava perdidos. Desse tempo circular em que o primitivo e o futuro utópico se tocam, a obra de Carpentier extrai sua proposta de uma cultura universal para a modernidade. ' WHERE Titulo = 'AMERICANIDADE E CULTURA UNIVERSAL NA OBRA DE ALEJO CARPENTIER'; UPDATE artigo SET Conteudo = ' Legitimidade e radiografia da crise Roberto Amaral Para além da crise política na qual todos estamos enredados, vivemos grave crise institucional, mais profunda e mais ameaçadora, alimentada dia a dia, faz anos, eleição após eleição, governo após governo, legislatura após legislatura, pelo crescente distanciamento entre cidadania e política, voto e representação. Uma de suas manifestações é o perigoso desencanto do cidadão com respeito a suas instituições, nas quais não mais confia, com as quais não mais se identifica, porque nelas não pode identificar o instrumento adequado da solução de seus problemas, dos problemas individuais e coletivos, dos problemas da sociedade e do país. A reiterada dissociação entre a vontade eleitoral e a ação de seus representantes eleitos rompe o nexo entre o cidadão e o dirigente político, cada vez mais distanciado de seu próprio eleitorado, seja pelos interesses que passa a representar após a eleição (os interesses dos financiadores de campanha, os interesses econômicos, políticos ou corporativos do segmento social que representa), seja pela conduta muitas vezes questionável que passa a adotar no exercício do mandato. Esta crise da representação é também uma das conseqüências da anarquia partidária, elemento decisivo na desmoralização do processo eleitoral. Isso também desorganiza a vontade eleitoral e confunde a cidadania. Daí o voto por interesse. Não está em questão, ainda, a democracia, como regime pelo qual optou a sociedade brasileira, mas é inegável o desencanto geral em face da forma como ela está sendo gerida. Em outras palavras, afirmamos que o modelo brasileiro de democracia representativa está exaurido, como exaurido está o sistema de partidos, como falido está o processo eleitoral, ineficiente e trôpego, ensejador de manipulações e distorções, como a fraude e a compra de votos. A essa crise de representatividade, soma-se grave crise ética decorrente de perigosas relações entre os poderes da República. Essa crise não é de agora, mas agora está mais aguda na visão da opinião pública, escandalizada pela imprensa. O Congresso e os partidos, surpreendidos pela crise por eles mesmo cevada, descobrem na reforma política, que sempre rejeitaram, a tábua de salvação para todos os males da República. E dizem que esses males serão purgados porque as campanhas eleitorais serão financiadas pelo dinheiro público, porque será exigida a fidelidade partidária, porque agora será implantado o sistema de votação por listas. Mantidas as estruturas carcomidas! Ora, pensar que esta crise, que diz respeito à funcionalidade das instituições da República, e tem raiz na crise constituinte de que tanto fala Paulo Bonavides, pode ser resolvida com a troca de alguns Ministros e a aprovação, às carreiras, da chamada reforma política que dormita no Congresso é, no mínimo, irresponsabilidade. Nenhum dos nossos graves problemas será resolvido por decreto ou lei, porque não se fazem partidos por decreto, nem por decreto se restitui a legitimidade do Congresso. Principalmente de um Congresso que sempre desfrutou de imagem muito pouco favorável e que agora tem membros seus acusados de graves desvios de conduta. Não há modelo de democracia representativa sem sistema de partidos, e a grande falência a ser anunciada é a falência da ordem partidária. Pois, no geral, os atuais são partidos sem vida orgânica, sem fidelidade programática, sem princípios ideológicos diferenciadores, de sorte que a cada dia mais se difunde junto à cidadania a certeza de que todos são iguais, os partidos, os políticos, as lideranças, ou seja, ninguém é confiável. É a este sentimento, de profunda frustração e tristeza cívica, que leva o espetáculo degradante das denúncias e confissões envolvendo parlamentares e políticos no plano nacional e em quase todo o país. Em nosso regime, a eleição do presidente da República é plebiscitária (o que é natural no sistema de dois turnos), desvinculada da formação das bancadas, embora a renovação do mandato presidencial e dos legislativos se dê no mesmo processo. Daí resulta, sempre, que a base partidária que elege o presidente raramente consegue estabelecer maioria no Congresso, donde a necessidade de negociações na Câmara e no Senado. Mas negociações que não se fazem a partir de programas de governo, pois se desenvolvem no varejo, com parlamentares individualmente e não com as direções partidárias (pois essas nada mais lideram) e no casuísmo das votações, ensejando toda a sorte de práticas heterodoxas que aqui e acolá estouram na forma de escândalo. É exatamente à revelação pública dessas práticas que estamos assistindo presentemente. Qual é a agenda da vida pública brasileira de hoje, quais aqueles temas candentes que dividem a opinião publica, que põem em confronto os partidos? Qual o debate que agita o Congresso? Quais as polêmicas que dominam os jornais? Não, não há discussão política. Há negociações entre representantes do Executivo e parlamentares, para assegurar o controle do Congresso. Do lado de fora, isto é, dentro do mundo real, um eleitorado perplexo a se perguntar o que foi feito de seu voto. Esse vazio, em nosso sub-Continente, tem provocado traumas institucionais, dos quais, felizmente, ainda estamos distantes. Mas isso não deve significar que a insatisfação permaneça indefinidamente congelada. Não existem como fatos isolados representação e institucionalidade. Uma alimenta a outra, como vasos comunicantes. Dito de outra forma: os vícios de uma, inevitavelmente vão contaminar o conjunto. O epicentro da crise está na relação viciada entre Executivo e Legislativo, dado que a representação política neste país entrou em colapso. A democracia convive com bons e maus governantes, mas não sobrevive à desmoralização das instituições. Um Congresso desmoralizado é Congresso que não se impõe ao respeito da sociedade. Nem o merece. Falece sem serventia. Com essas considerações queremos afirmar que não iremos a lugar nenhum se não enfrentarmos a crise política na sua raiz: a depredação do modelo constitucional de 1988, incapaz de resolver a crise da democracia representativa e do presidencialismo. Trata-se de ordem constitucional descaracterizada pelas inumeráveis reformas impostas pelo Congresso ordinário, uma das quais foi a introdução da funesta emenda permissiva da reeleição do presidente da República, governadores e prefeitos, ao arrepio da tradição republicana e de toda a estrutura constitucional sobrevivente. Emenda, aliás, que teve sua aprovação acoimada de graves vícios jamais apurados. Urge revogá-la, tanto quanto o instituto das Medidas Provisórias, mostrengo parlamentarista numa estrutura presidencialista, que transforma o Executivo no principal poder legiferante da República e reduz ainda mais as atividades de um Congresso pouco cioso da defesa de suas atribuições. ' WHERE Titulo = 'Legitimidade e radiografia da crise'; UPDATE artigo SET Conteudo = '

Política como ideal

 

 

Sérgio Sérvulo da Cunha

 

 

1. O homem pode se enganar a respeito do que seja melhor, mas quer sempre o melhor para si e sua família, e a fim de consegui-lo está disposto a grandes sacrifícios. Alguns homens querem o melhor para si mesmos e suas famílias, mesmo que isso represente o pior para os demais. Outros, porém, têm a noção de que vivem em sociedade. Querem portanto o melhor para si mesmos, para suas famílias e para a sociedade. 

 

Há homens que não têm família. Mas é impossível pensar o homem sem a sociedade, mesmo que nem sempre tenha lugar dentro dela. A política poderia funcionar melhor, mas começa a funcionar bem quando os homens têm seus lugares dentro da sociedade.

 

Erra aquele que, embora desejando o melhor para si mesmo e para sua família, não busca melhorar a sociedade. Alguns, ao contrário, para isso estão dispostos a grandes sacrifícios, e nessa luta se dignificam. Em política esse é o marco mais tradicional e abrangente, que os separa dos conservadores.

 

2. Quem luta pelo melhor para a sociedade não pode cometer esse engano: imaginar que existe a sociedade ideal, e querer chegar hoje na linha do horizonte de amanhã. O caminho de amanhã só se abre depois de aberto o caminho de hoje, e em cada passo está toda a caminhada. O homem de esquerda é um homem do ideal, mas não é um idealista. Sabe que o melhor é fruto do trabalho; ele é, por isso, um homem da história, da realidade e do trabalho. 

 

3. Independentemente do seu grau de instrução, cabe a cada homem decidir o que é melhor para si mesmo. Se for sábio, compreenderá que está sujeito a errro, que deve reavaliar constantemente suas opiniões, que precisa do seu senso crítico não só com relação à sociedade mas principalmente com relação a si mesmo, que deve resguardar-se quanto à própria subjetividade, e que lhe é útil aprender com a experiência dos outros.

 

É adequado aconselhar-se com quem entende das coisas, mas age mal quem deixa a cargo de outrem decidir sobre o que é melhor para si mesmo (já disse o filósofo que, quem faz isso, não pode se queixar depois de ser esmagado como um verme). E a ninguém, por mais esclarecido que seja, é permitido decidir o que é melhor para outrem, ainda que este se encontre a ponto de cometer um erro grave. Primeiro porque, mesmo sendo acurada sua decisão, não estaria fazendo bem àquele; segundo porque estaria pondo, sobre as próprias costas, um fardo que não lhe pertence. A solidariedade, a disponibilidade, são seus limites quanto ao bem do outro.

 

Embora nada nos garanta que sua decisão seja a melhor, cabe a cada família decidir sobre o que é melhor para si mesma. E cabe igualmente, à sociedade, decidir sobre o que é melhor para si mesma. À base dessas discriminações encontra-se o princípio democrático, que assim se enuncia: legitimadas para tomar as decisões que lhes dizem respeito são as pessoas a quem elas afetam (“quod omnes tangit, ab omnibus approbetur”).

 

4. Como se percebe, o princípio democrático nada tem a ver com a eficiência. Se não fosse assim, os mais instruídos deveriam tutelar os menos instruídos. E o governante, em cujas mãos se enfeixaria o comando da sociedade, seria o mais instruído e eficiente de todos.

 

Eficiência é noção moderna, ligada ao desempenho dos maquinismos e à hegemonia do econômico; a cada dia que passa mais exigimos das pessoas, dos serviços, das rotinas, o mesmo nível de eficiência que se espera – e geralmente se obtém – de uma aeronave durante o vôo.  

 

Podemos dizer que um assaltante é eficiente na medida em que obtém êxito, e o mesmo do político que se elegeu comprando votos, do profissional que frauda licitações, do jornalista que vende notícias mentirosas, do milagre econômico que bóia na censura, do regime que garante a ordem suprimindo o habeas corpus e impondo a tortura. No avesso de seus aparentes êxitos, porém, há sempre muitas vítimas.

 

Só é socialmente eficiente a ação que a curto e longo prazo produz os melhores resultados, no contexto dos fatores e interesses envolvidos, como se verificaria num paralelogramo de forças ou num quadro de equilíbrio. O mensageiro que chegou depressa mas atropelou alguém no caminho, compara-se ao executivo que pagou, com seu divórcio, a ansiada promoção. 

 

Eis um fato: o esportista que se dopou tem vantagem sobre aquele que concorreu honestamente. Isto não significa: a) que o homem honesto não tem chance de prevalecer sobre o desonesto; b) que o homem honesto deve abandonar a competição. O que desejo assinalar é o seguinte: a) à base da decisão pela eficiência há sempre uma opção valorativa, que coincide com a finalidade social da ação; b) a maioria dos participantes de um jogo tem interesse na existência de regras iguais para todos, sem as quais a tendência de qualquer disputa seria descambar para a fraude e a violência.

 

Há, no gosto popular, uma simpatia pelo homem ladino, pelo esperto mitificado na figura de Pedro Malasarte. Mas o político de esquerda tem o apoio da maioria ao lutar pelo estabelecimento de regras claras, que permitam a vitória do melhor e a realização do interesse comum.

 

5. A começar de sua extensão à prática social, desenrola-se o arco semântico do termo democracia, dificultando a percepção de sua raiz. Diz-se, por exemplo, que só há democracia quando, além da eleição do governante, há oportunidade de participação no governo. Diz-se ainda que uma pessoa é democrática quando não impõe sua vontade, quando reconhece e respeita os demais, quando é aberta ao diálogo e considera natural o dissenso, quando – sendo encarregada de decidir com relação ao grupo – ouve a opinião dos seus membros. Esse arco semântico é extremamente elástico. Castoriadis, por exemplo, afirma que “a democracia é o regime explicitamente fundado sobre a doxa, a opinião, a confrontação das opiniões, a formação de uma opinião comum. Aí a refutação das opiniões de outrem é mais do que permitida e legítima, ela é a própria respiração da vida pública.” E Piaget sustenta que a descoberta da democracia, pela criança, ocorre no momento em que, deixando de acreditar na eternidade e transcendência das regras, ela percebe que pode mudá-las.

 

Vê-se que a democracia é inseparável do liberalismo. Sendo cada homem senhor dos seus próprios fins, a sociedade ideal é aquela que garanta, a todo ser humano, a persecução dos seus fins sem intercorrência dos demais. Donde a questão básica do Direito: o que é possível exigir dos indivíduos sem ofensa à sua singularidade (isto é, à capacidade de determinação e persecução dos seus próprios fins)? 

 

O liberalismo é forte corrente moderna de pensamento e ação, ligada tanto ao iluminismo quanto  à resistência contra a intolerância religiosa e a opressão política. Comparadas com a sociedade moderna, as sociedades do passado, com poucas exceções, aparecem como essencialmente monolíticas sob os aspectos étnico, nacional, religioso, cultural. No ocidente, após a inquisição e as guerras religiosas, a lenta introdução de um princípio de tolerância, que avança desde a simples aceitação das diferenças até a postulação do pluralismo, mostra-se não apenas como  inevitável, mas como algo desejável.

 

A sociedade liberal é neutra quanto a ações que traduzem opções pessoais lícitas (inócuas com relação a outrem). A adoção do liberalismo, porém, não representa o abandono de todo projeto de justiça social: significa a valorização da dignidade da pessoa humana, com a conseqüente renúncia à utilização do governo como instrumento de imposição de uma determinada concepção de vida.         

  

6. Cada um costuma decidir, com relativa ligeireza, sobre o que é melhor para si mesmo, e o primeiro impulso nos leva a agir da mesma forma quando se trata de decidir sobre o que é melhor para a sociedade. Esse porém é um complexo processo de decisão, que oferece uma série de dificuldades.

 

Na democracia o sujeito das decisões é o povo. Assim, quanto maior o número das pessoas politizadas, que compreendem a importância de sua participação política, melhor. Entretanto, para haver democracia não é preciso que todos participem das decisões fundamentais, ou que todos sejam obrigados a participar das decisões fundamentais: essencial é que possuam iguais oportunidades de participar, e que não sejam desestimulados de participar. Tampouco é necessária a participação de todos em todas as decisões, se quem decide foi previamente autorizado por todos, e está sujeito ao controle por parte de todos. 

 

Muitos confundem o princípio democrático com a regra da maioria, mas esta é apenas um expediente para a tomada de decisões. Na democracia pode haver decisão tomada por um só, decisão tomada por alguns, decisão tomada por muitos e decisão tomada por todos. O importante é que todos tenham decidido sobre quais sejam esses casos.

 

Chegamos assim à principal dificuldade, consistente no falseamento das formas democráticas por parte de quem possui grande influência, basicamente o poder econômico.  Se o entendermos, à semelhança de outros poderes – tais o poder ideológico, o poder das comunicações, o poder que advém da profissão, da instrução, da posse de um “status” – como algo inseparável da vida em sociedade, a solução parece consistir em limitar sua influência ao razoável.

 

Alguém dirá que o poder econômico não se deixa limitar, e chegados a este ponto apresentam-se algumas questões relevantes que pomos entre parênteses (se a infra-estrutura econômica determina a superestrutura da sociedade; se há um modo socialista de produção; se é possível subordinar o capitalismo aos interesses da democracia; etc.). Voltamos portanto ao início do texto, à situação daquele homem que, desejando o melhor para si mesmo, para sua família e para a sociedade, quer participar ativamente da política. Foi para ele que escrevi este artigo, certo de que todos os caminhos dependem dele, de sua energia e de sua indestrutível esperança.

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Venezuela: um país em transformação

 

João Pedro Stédile*

 

Caros amigos e amigas,

 

Estou lhes escrevendo desde as planícies bolivarianas do estado de Barinas, no centro da Venezuela. Estou aqui fazendo um "recorrido", como eles dizem, para conhecer o processo de reforma agrária na Venezuela. Estou impressionado. Muito impressionado. Afinal, como diz o provérbio oriental,

 

"Os olhos enxergam mil vezes mais do que os ouvidos". A Venezuela teve um passado glorioso no século XIX com as heróicas lutas pela independência lideradas por Simon Bolívar e Ezequiel Zamora e que tiverem como auxiliar um bravo combatente brasileiro que chegou ao "rango" de general: o general Abreu de Lima, de Pernambuco, que gera muito orgulho em seu estado natal e no país até hoje, embora nós brasileiros ainda lamentavelmente nem conheçamos sua história.

 

No entanto, o século XX reservou uma verdadeira tragédia econômica e social para a Venezuela. Seu território está deitado em cima de um imenso lençol de petróleo. E a civilização estadunidense, construída em cima da energia do petróleo, praticamente transformou o país em sua colônia para garantir o abastecimento de sua principal fonte de energia. Houve uma "santa aliança" entre uma minoria da oligarquia local, que se apoderou do Estado e dos recursos do petróleo, se locupletou, enquanto, do outro lado, a força política-econômica-ideológica e militar do império do norte os mantinha intactos. Hoje a Venezuela é responsável pelo abastecimento de 25% de todo petróleo consumido nos Estados Unidos. 

 

Resultado: 80% da população imersa na pobreza absoluta enquanto 2% viviam "nababescamente". Apenas 8% da população sobreviveu no meio rural, pois a agricultura foi completamente marginalizada. E o país passou a comprar 88% de todos os alimentos no exterior.

 

Esse foi o contexto histórico em que finalmente, a partir de 1998, com a vitória eleitoral de um jovem e impetuoso coronel, banido das formas armadas, se iniciou a mudança. E eles ingressaram no século XXI com uma nova perspectiva: a Venezuela deixou de ser colônia estadunidense e passou a ser a REPÚBLICA BOLIVARIANA DO POVO DA VENEZUELA.

 

No início parecia se tratar de mais um desses "milicos" populistas enganadores, que muitas vezes chegaram ao poder em nosso continente. A oligarquia local perdeu as eleições mas tentou manter a mesma equipe econômica do governo perdedor. (Já viram esse filme em outros países? ).

 

Porém, essa tentativa de cooptação durou seis meses apenas. O jovem coronel Chávez parece que não estava brincando em serviço: tratou logo de mudar as instituições. Convocou uma constituinte que alterou  todas as leis do país e abriu espaço para a participação popular. O povo acreditou e passou a se mobilizar e participar desse governo que, pouco a pouco, foi se transformando num governo popular e revolucionário. E foi incorporando também cada vez mais os sentimentos anti-imperialistas e independentistas de Simon Bolívar.

 

Eu havia passado por aqui em 2001 para um seminário sobre os desafios da humanidade, mas não percebi grandes mudanças. Na volta não pude contar muita coisa aos meus companheiros e companheiras da Via Campesina Brasil. Agora, percebo que o processo estava em gestação. De volta à Venezuela vejo enormes mudanças. No governo, no povo, no processo, no jeito de se fazer as mudanças. Só não mudaram as elites, as oligarquias, agarradas feito carrapatos parasitas a seus privilégios, tentando impedir as mudanças de qualquer maneira.

 

O presidente Chávez passou por seis plebiscitos, um referendo e duas eleições. Ganhou todas.  E, mesmo assim, chamam-no de ditador ou déspota. E alguns comparsas da burguesia brasileira repetem o mesmo discurso.

 

Mas o que está mudando mesmo?

 

Mudou o sentido da política para o povo. O povo está se conscientizando e participando ativamente de todas as decisões do Estado e do governo. E esse é o caminho principal: fazer com que as massas participem da vida do país. 

 

Mudou o sentido da economia. Ainda mais aqui, que tem uma dependência de 80% do petróleo. Pois bem, os bilhões de dólares do petróleo que antes eram usados por apenas 8% da população para se locupletar em luxo e extravagâncias, agora financiam a universalização dos serviços públicos de saúde e educação a toda população. Agora, servem para a distribuição de renda, garantindo alimentos a preços de custo, educação gratuita, construção de moradias populares, distribuição de terra.

 

Mudou também na sua política externa, agora exercida com altivez e um claro sentido de independência ao imperialismo.

 

Com isso, até o papel das forças armadas mudou. Fiquei impressionado com o grau de politização de jovens tenentes, majores e capitães, que não mais vivem em quartéis, mas assumem ativamente a administração de projetos sociais, como a construção de estradas, pontes, a adminsitração de mercados populares... Deram sentido a sua farda.

 

Vi agora soldados armados, mas amados pelo povo (como cantou Geraldo Vandré) ajudando na ocupação da fazenda Malquinesa, recém desapropriada dos seus 8.600 hectares totalmente improdutivos, embora representassem os melhores solos do país, na planície Barinenha.

 

Vi  jovens pobres, entusiasmados, pois agora podem estudar não apenas o primário e o secundário, mas se inscreverem em qualquer curso universitário. Vi o presidente anunciar a abertura de 20 mil vagas para estudantes de medicina, a se iniciar nesse ano letivo.  Vi o presidente participar de um programa de televisão, durante sete horas, em que se discutem todos os problemas do país, com uma transparência impressionante.

 

Vi um generoso processo de reforma agrária, que expropria todas as terras que estejam griladas por grandes fazendeiros que não conseguirem comprovar sua origem.  Mesmo assim, respeita todas as propriedades que sejam produtivas.  Mas determina a desapropriação de todos os latifúndios, independente do tamanho.  A constituição diz claramente que a sociedade venezuelana visa eliminar o latifúndio.  Vi  a oligarquia rosnar como cão fedorento, apontando essa lei, aprovada por mais de 80% dos deputados, referendada pela ampla maioria da população, como uma afronta ao direito de propriedade.

 

Vi pelas ruas e bibliotecas populares o Estado distribuir mais de um milhão de exemplares de vários títulos da literatura universal, como "Os miseráveis", de Victor Hugo,  Dom Quixote...

 

Vi um povo mobilizadíssimo e consciente em defesa de seus interesses e lutando por verdadeiras transformações econômicas e sociais.  

 

Vi o presidente da República denunciar em uma rede de televisão que havia uma empresa de petróleo de propriedade do Estado Venezuelano operando 15 mil postos de gasolina e três refinarias dentro dos Estados Unidos durante 35 anos; e que nesses 35 anos, antes do Governo Bolivariano, nenhum centavo havia sido remetido para a Venezuela. E que finalmente agora, depois de várias intervenções, pela primeira vez em apenas oito meses, a nova diretoria remeteu para o país 500 milhões de dólares de lucro líquido. Imaginem o que roubaram em 35 anos!  E o presidente anunciava que esse dinheiro não previsto no orçamento seria utilizado para investimentos sociais com as camadas mais pobres da população.

 

É certo, no entanto, que eles enfrentam enormes desafios. Muitas barreiras, como essa de livrar-se da dependência da compra de alimentos. Como o desafio de remontar uma estrutura produtiva no país que use os recursos do petróleo para outros investimentos produtivos, gerando trabalho para todos.  Dizem eles que o maior desafio é construir um novo modelo econômico, que rompa com a dependência do petróleo e do império financeiro.  E que se encaminhe para o socialismo.  Chamam isso de processo de construção de um modelo de desenvolvimento endógeno, local, venezuelano.

 

Vi muitas mudanças que estão melhorando a vida do povo pobre da Venezuela. Vi homens e mulheres caminharem com orgulho e dignidade, de cabeça erguida.

 

Vi que a América Latina tem saída. Basta que tenhamos um povo consciente, organizado e mobilizado.  E um governo compromissado com seu povo e não com o capital.

 

Meninos/as, juro que vi tudo isso!

 

 * dirigente da Via Campesina Brasil

 

 

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A propósito de la convención de la diversidad cultural


Lillian Álvarez Navarrete
Rebelión

En las próximas horas será sometida a votación en la XXXIII Asamblea General de la UNESCO la Convención para la protección de la diversidad de los contenidos culturales y de las expresiones artísticas. 1 Esta causa no ha contado hasta ahora con un instrumento internacional de carácter vinculante como el Convenio sobre Diversidad Biológica 2, y  sólo existe la Declaración Universal de la UNESCO sobre la diversidad cultural, 3 adoptada en 2001. En los últimos años, junto a las voces que se alzan para proteger la biodiversidad del planeta, puesta en peligro por la acción irresponsable del ser humano, han ido multiplicándose aquellas que subrayan la necesidad inaplazable de defender la supervivencia del inmenso y rico mosaico de culturas que ha construido nuestra especie.
 
Con los acuerdos del GATT, en 1947, comenzó un proceso de impulso al libre comercio que en los últimos años se ha acelerado de manera impresionante. Con el tiempo, los acuerdos de libre comercio de mercancías fueron resultando insuficientes y se extendieron a la esfera de los servicios hasta abarcar aspectos de la Propiedad Intelectual. En 1995, entró en vigor el Acuerdo sobre los ADPIC (Aspectos de Propiedad Intelectual relacionados con el Comercio) de obligatorio cumplimiento para todos los países miembros de la OMC.

La introducción del tema de la Propiedad Intelectual en los acuerdos de comercio internacional fue propuesta por los Estados Unidos con el objetivo de proteger las inversiones y el llamado libre comercio, sin tener en cuenta consecuencias sociales o culturales.

Tras el Acuerdo de los ADPIC, comenzaron a incluirse apartados de Propiedad Intelectual en los tratados de libre comercio (tanto multilaterales como bilaterales) que refuerzan aún más los niveles de protección exigidos por aquellos y comprometen de una manera más rigurosa las soberanías nacionales en función de intereses empresariales.

Diversidad biológica vs. acuerdos de comercio
La aplicación de los acuerdos de libre comercio y del Acuerdo sobre los ADPIC, ha creado, como era de esperar, no pocas contradicciones. En estos momentos en los que se discute la adopción de la Convención para la protección de la diversidad de los contenidos culturales y de las expresiones artísticas, sería útil recordar un análisis de la destacada ecologista Vandana Shiva4sobre cómo el Acuerdo sobre los ADPIC constituyen un enorme obstáculo frente a las obligaciones adquiridas por los Estados firmantes del Convenio sobre Diversidad Biológica (CDB).

Por el CDB los Estados se obligaron a la conservación de la diversidad biológica, al uso sostenible de sus componentes y al reparto justo y equitativo de los beneficios que se deriven de la utilización de los recursos genéticos mediante un acceso correcto a los mismos y a la transferencia apropiada de las tecnologías pertinentes. Sin embargo, el Acuerdo sobre los ADPIC obstaculizan el cumplimiento de tales obligaciones al exigir a los gobiernos que protejan estos usos mediante un sistema de Propiedad Intelectual basado en monopolios privados exclusivos, donde no es posible la redistribución de los beneficios por la utilización de la biodiversidad, su conservación y uso sostenible.

Si por una parte el CDB reconoce el principio de la soberanía de los Estados sobre sus recursos biológicos y genéticos y su derecho y deber de adoptar regímenes de propiedad que protejan la biodiversidad, por la otra, el Acuerdo sobre los ADPIC, al exigir la armonización de legislaciones nacionales a fin de crear un sistema global de derechos, debilitan la soberanía de los Estados para crear y desarrollar sus propios sistemas de protección.

El CDB exige también a los firmantes que protejan y fomenten los derechos de las comunidades, de los agricultores y los pueblos indígenas con respecto a la utilización de sus recursos biológicos y exige la salvaguardia de los conocimientos tradicionales. El Acuerdo sobre los ADPIC, basado en sistemas de patentes exclusivamente occidentales, carece de fórmulas para reconocer esta sabiduría ancestral; niega, de hecho, la existencia de derechos colectivos, e ignora la acumulación de conocimientos empíricos que son fruto de miles de años dedicados, por ejemplo, al cultivo de variedades vegetales criollas y a su mejoramiento. De esta manera, reconoce sólo el derecho de los obtentores que logran variedades transgénicas y no el de los agricultores que obtienen variedades convencionales. Así no se protege la creación ni la biodiversidad de estos pueblos, sino que se favorece el saqueo de sus culturas y sus riquezas naturales.

Vandana Shiva opina que para eliminar estas contradicciones y dar la protección necesaria al medio ambiente y a las necesidades de la población debe considerarse el CDB como una norma superior y que la revisión de los Acuerdos sobre los ADPIC debería garantizar los cambios necesarios para que concuerden con el CDB. Lamentablemente, ante la existencia de conflictos entre ambas normas, el balance favorece sin dudas, en la práctica, a la aplicación de los acuerdos comerciales.

Esta no es una opinión aislada. En junio de 2002, el Consejo de los ADPIC recibió una comunicación en la que un grupo de países5expresaba que "el Acuerdo sobre los ADPIC y el CDB deberían respaldarse mutuamente y promover el uso sostenible de los recursos."6 Este documento proponía la introducción de una serie de modificaciones en el Acuerdo sobre los ADPIC a fin de eliminar las contradicciones con los objetivos del CDB.

La propia Comisión de Derechos Humanos de la ONU, que en tantos temas se ha caracterizado por su parcialidad, se pronunció a través de la Resolución de la Subcomisión de Derechos Humanos 2000/7 acerca de la existencia de contradicciones reales o potenciales entre la aplicación del Acuerdo sobre los ADPIC y la realización de los derechos económicos, sociales y culturales. En esta Resolución, se asegura que este Acuerdo no refleja adecuadamente el carácter fundamental y la indivisibilidad de los derechos humanos, incluidos el derecho de toda persona a disfrutar de los beneficios del progreso científico y de sus aplicaciones, el derecho a la salud, a la alimentación y a la libre determinación, y que existen contradicciones aparentes entre el régimen de derechos de propiedad intelectual consagrado en el Acuerdo sobre los ADPIC, por una parte, y el derecho internacional relativo a los derechos humanos, por otra.

La Resolución recuerda a todos los gobiernos la primacía de las obligaciones en relación con los derechos humanos sobre las políticas y acuerdos económicos y solicita tengan en cuenta las obligaciones y principios de derechos humanos al formular las políticas económicas. Solicita además a la Organización Mundial del Comercio (OMC) en general y al Consejo de los ADPIC en particular, que durante el examen en curso de este Acuerdo se tomen en consideración las obligaciones vigentes de los Estados en virtud de los instrumentos internacionales de derechos humanos y que se analice, por parte de los Relatores Especiales sobre la mundialización, las consecuencias de la aplicación del Acuerdo sobre los ADPIC sobre los derechos humanos


Diversidad cultural vs. acuerdos de comercio
 
A partir de las contradicciones surgidas respecto al acceso a los medicamentos, se abrió la discusión acerca de qué se consideraba prioritario: si el derecho a la salud o los compromisos económicos y comerciales. Fueron necesarios dos años de debate para que se reconociera finalmente que un derecho tan sagrado como la salud era de mayor relevancia y prioridad. Aún cuando en la práctica este principio espera de una efectiva aplicación, nos encontramos ante otro dilema similar, esta vez con respecto a la supervivencia de la diversidad cultural: ¿que es lo prioritario? ¿el derecho del ser humano a su identidad, a su fisonomía cultural, a sus raíces, a su memoria o los intereses comerciales e inversionistas de las transnacionales?

La aplicación de las leyes del mercado y la llamada globalización, afectan sin duda alguna la diversidad cultural. El desarrollo tecnológico y en especial de las comunicaciones, que debieran facilitar el acceso al patrimonio espiritual de la humanidad en toda su riqueza, ha colocado hoy a muchas culturas en peligro de ser aniquiladas. Por otra parte, la difusión de una pseudocultura estandarizada, inauténtica, fabricada en los centros hegemónicos de poder cultural para consumidores pasivos, es un peligro para cualquier intento de crecimiento y emancipación humanos.

El régimen de Propiedad Intelectual, que debería tener como objetivo principal proteger la creación y ofrecer una recompensa justa a los autores, se aleja cada vez más de este propósito para convertirse en instrumento de otros titulares no creativos, vinculados directamente a la inversión en estas esferas. Ya en alianza con los acuerdos de libre comercio, este sistema reafirma los desequilibrios que se generan por la acción del mercado y atenta contra la difusión y conservación de la diversidad de las culturas.

Debemos tener presente la experiencia del CDB para evitar que la historia se repita. Si analizamos los contenidos del Acuerdo sobre los ADPIC y los del Anteproyecto de Convención para la protección de la diversidad de los contenidos culturales y de las expresiones artísticas, podemos prever graves conflictos en su ejecución y se avecinan batallas en las que habrá que defender contra viento y marea la primacía de los derechos humanos (en este caso de los derechos culturales) por sobre políticas y acuerdos comerciales.

El régimen actual de Propiedad Intelectual retribuye económicamente sólo en función de la aceptación o no en el mercado, y éste se encuentra cerrado a la participación natural y legítima de todas las culturas por la acción de la publicidad y la concentración de los medios de comunicación y las industrias culturales en manos de las transnacionales. Estos monopolios del entretenimiento son verdaderas maquinarias de homogeneización: copan todos los circuitos de distribución y legitimación para imponer sus subproductos; acorralan en guetos a las opciones alternativas o las utilizan mediatizándolas; arruinan la diversidad e instauran el monocultivo cultural.

También en el plano cultural encontramos contradicciones similares a las ya anotadas con respecto a la biodiversidad y los conocimientos tradicionales. El régimen actual de propiedad intelectual parte de una concepción occidental de autor y obra que no se corresponde con las formas en que se crean y difunden las expresiones artísticas en muchas partes del mundo, en las que estos procesos son colectivos y, entre otras cosas, resulta imposible precisar el papel específico de un autor individual. Tal es el caso de gran parte de la creación del llamado Tercer Mundo. A partir de esta imposición surge ya el irrespeto a la diversidad cultural, presente al emplearse normas concebidas para formas de creación y transmisión cultural distintas. La aplicación de estos regímenes favorecen el saqueo y la apropiación ilegítima de las expresiones tradicionales y otros resultados creativos por parte de empresas extranjeras sin que las comunidades de donde provienen reciban beneficio alguno.

El libre comercio entre desiguales ha generado un flujo de bienes y servicios culturales absolutamente desigual. Aunque el caso más dramático es, por supuesto, el de los países subdesarrollados, condenados a ser siempre consumidores masivos de cultura enlatada, con desastrosas consecuencias para sus identidades, algo similar ocurre también en países desarrollados que se han convertido en colonias culturales de los EE.UU. El orden actual del comercio mundial no expresa en lo absoluto la diversidad cultural del planeta.
 
El Acuerdo sobre los ADPIC han obligado a los todos los países miembros de la OMC a un reforzamiento de sus legislaciones de propiedad intelectual que no está en correspondencia con sus niveles de desarrollo, exigiéndoles además la inversión de cuantiosos recursos económicos y humanos para velar por el cumplimiento de estas normas. Especialmente triste resultan los gastos en que incurren los países subdesarrollados en estas acciones mientras postergan otras mucho más necesarias y de mayor trascendencia cultural, como, por ejemplo, el debido fomento y amparo de sus expresiones nacionales.
 
Ha habido fuertes cuestionamientos sobre el papel que desempeña actualmente el sistema de propiedad intelectual y en específico sobre el de la OMPI. Argentina y Brasil presentaron una propuesta para establecer un programa para el desarrollo en el Trigésimo primer período de sesiones de la Asamblea General de la OMPI en Ginebra, celebrado en septiembre de 2004, donde se expresa que, como miembro del sistema de las Naciones Unidas, esta organización debe guiarse por los amplios objetivos de desarrollo que se han fijado, y que estas preocupaciones deberían ocupar un lugar esencial en sus actividades, y no limitarse a promover la protección de la propiedad intelectual como un fin en sí misma ni a la armonización a toda costa de las legislaciones sin tener en cuenta las diferencias entre países, los intereses de los consumidores y del público en general. Por otra parte, personalidades del mundo cultural y científico también se han manifestado en diversos foros en el mismo sentido. 7

El sometimiento de las obras creativas a regímenes de apropiación cada vez más restrictivos, reforzado por los nuevos retos que imponen los avances tecnológicos, marca una tendencia que exige tomar medidas de inmediato; pues cada vez más la creación será vista y tratada como un negocio.

El reconocimiento de la índole especifica de los bienes y servicios culturales, los objetivos de cooperación para el desarrollo, el trato preferente a los países subdesarrollados, el deber de los Estados de tomar medidas para que los ciudadanos accedan a la diversidad cultural de todo el mundo y para proteger y promover sus creaciones nacionales, chocan con los controles exclusivos que sobre estas “mercancías” ejercen las transnacionales. Contra este muro chocan hoy las débiles políticas culturales de los Estados de los países del Tercer Mundo.

Si la cultura se limita a lo que pueda prosperar en el mercado, resulta obvio que sólo sobrevivirán las manifestaciones culturales que sean competitivas como mercancías sin que importe su calidad ni los valores que puedan difundir. Por otra parte, sin el apoyo del Estado, las expresiones culturales incapaces de generar ganancias, están condenadas a desaparecer o a sobrevivir a duras penas en la marginalidad ante el dominio de las transnacionales.


La discusión de hoy
 
El texto del Anteproyecto que hoy se discute –y que ya fue aprobado por la Comisión de Cultura de la XXXIII Conferencia General con sólo dos votos en contra: Estados Unidos e Israel- establece una serie de principios y de posibles medidas a aplicar por los Estados, que chocan con los intereses del poder hegemónico expresados en el Acuerdo sobre los ADPIC y otros tratados multilaterales o bilaterales de libre comercio. Como ya dijimos, esto augura dificultades a la hora de su ratificación y aplicación.

En el curso de las discusiones, salieron a relucir los posibles conflictos y, como punto clave, la relación de la Convención con otros instrumentos normativos. En el Anteproyecto de julio 20048 aparecían dos opciones contrapuestas:

 Opción A

1. Ninguna disposición de la presente Convención podrá ser interpretada de tal manera que afecte los derechos y obligaciones que tengan los Estados Partes en virtud de otros instrumentos internacionales relativos a los derechos de propiedad intelectual de los que sean Partes.

2. Las disposiciones de la presente Convención no afectarán a los derechos y obligaciones de cualquier Estado Parte que emanen de cualquier instrumento internacional existente, salvo cuando el ejercicio de esos derechos y obligaciones cause serios perjuicios o constituya una amenaza para la diversidad de las expresiones culturales.

Opción B

Ninguna disposición de la presente Convención afectará a los derechos y obligaciones que tengan los Estados Partes en virtud de otros instrumentos internacionales.

Por supuesto, la opción A.2, que reconocía a la Convención un rango superior o de supremacía, era la más favorable para sus objetivos, aún cuando limitaba esta superioridad al caso en el que se causaren "serios perjuicios” o la situación constituyera “una amenaza para la diversidad de las expresiones culturales", o sea, en una situación límite. Las opciones A.1 y B, eran francamente inaceptables.

Los ministerios de cultura de los 63 países miembros de la Red Internacional sobre Políticas Culturales, redes de artistas y de pequeñas y medianas productoras culturales agrupadas en las Coaliciones para la Diversidad Cultural, lograron introducir algunos puntos de vista para fortalecer la real protección de la diversidad y la exclusión de la cultura de las negociaciones comerciales. Sin embargo, en los debates no hubo acuerdo 9 y surgió la propuesta de buscar otra formulación que evitara “la instauración de una jerarquía entre los instrumentos internacionales” y, en cambio, permitiera “una complementariedad entre los mismos”.

En el texto consolidado que presentó el presidente de la reunión intergubernamental de expertos como apéndice 2 de fecha 29 de abril de 2005, 10 se asume como propuesta un texto moderado cuya efectividad, de ser aprobado tal y como está, es difícil de anticipar, si se tiene en cuenta, además, la oposición de los Estados Unidos, máximo exportador de productos y servicios culturales y el mayor impulsor de los tratados de libre comercio:

Artículo 20 - Relación con otros instrumentos

 
1. La presente Convención no modificará los derechos y obligaciones de las Partes que emanen de otros acuerdos internacionales. Ningún otro acuerdo internacional modificará los derechos y obligaciones de las Partes establecidos en virtud de la presente Convención.

2. Cuando interpreten y apliquen otros instrumentos internacionales o contraigan otras obligaciones en el plano internacional, las Partes tendrán en cuenta los objetivos y principios de la presente Convención.

Posición de los EE.UU.
 
Anualmente, el Representante de Comercio de los EE.UU., de acuerdo a lo establecido en la Ley Ómnibus de Comercio y Competitividad de 1988, que enmienda la Ley Comercial de 1974, redacta el denominado “Informe Especial 301” en el que se evalúa, clasifica, advierte y presiona al resto de los países del mundo en función de la protección que brinda a la Propiedad Intelectual a través de las legislaciones y el actuar de sus instituciones nacionales. Una vez "identificados" aquellos países que no reaccionan a las advertencias, pueden ser objeto de sanciones en su comercio bilateral con los Estados Unidos si no introducen cambios para atender sus inquietudes.”11

Estos Informes se han convertido en instrumento de burdo chantaje e injerencismo respecto a los países deudores y dependientes del Tercer Mundo.

Los mismos intereses que están detrás de estas presiones actúan en los diversos foros y estuvieron presentes también en estas discusiones de París, utilizando todas las vías posibles para que las normas e instrumentos internacionales que les protegen mantengan su vigencia y supremacía. Y, sin dudas, no cesarán en sus intentos.


El 5 de octubre, según reporta EFE, 12 la ministra de Educación de Estados Unidos, Margaret Spellings, expresó en el debate de política general que se celebró durante la XXXIII Conferencia General de la UNESCO su temor a que la Convención sobre la protección y promoción de la Diversidad Cultural pueda alterar el proceso de liberalización comercial internacional emprendido en los últimos años y aprovechó para poner de manifiesto las fuertes discrepancias de su país respecto al proyecto de normativa: "Apreciamos la diversidad cultural, pero esa Convención puede socavar décadas de esfuerzo para la liberalización del comercio. Lo que está en juego es fundamental", dijo Spellings. No se trata, recordémoslo, de una funcionaria de la esfera comercial sino de la responsable de la política educativa.

La ministra estadounidense mostró su respaldo al principio que defiende la UNESCO de libre circulación de ideas a través de la palabra y de la imagen; pero puntualizó que "el texto de la Convención lo amenaza. Hay que trabajar juntos para cambiarlo y mejorarlo".

Por otra parte la Secretaria de Estado de EE.UU., Condoleeza Rice, en carta fechada el 5 de octubre a los Ministros de Asuntos Exteriores de los países miembros de la UNESCO, expresa la posición oficial del Imperio:

“La adopción de esta convención podría enfriar las negociaciones que se están realizando en la OMC. Por estas razones, la convención se presta al abuso por parte de los enemigos de la democracia y el libre comercio” sanciona Rice y más adelante anuncia: “Los Estados Unidos están redactando una declaración aclaradora que conservaría el texto del tratado dejando en claro que este no se podría interpretar debidamente en el sentido de que autoriza a los dictadores a prohibir la corriente de información o a las industrias a imponer medidas proteccionistas con el pretexto de proteger la cultura.”

Resulta irónico, realmente, que los funcionarios del Imperio se permitan hablar de la libre circulación de las ideas cuando se sostienen sobre la más implacable maquinaria mediática del pensamiento único.

Y luego Rice concluye con una clara amenaza: “Los Estados Unidos se reincorporaron a la UNESCO con la intención de participar activamente en ella y de contribuir a la labor importante de la organización en los campos de la educación, la ciencia y la preservación cultural. No queremos cambiar eso, pero esta convención amenaza el apoyo a la UNESCO en los Estados Unidos . Le instamos vivamente a participar y trabajar con nosotros para asegurar que la convención no deshaga toda la buena labor que juntos hemos realizado en la UNESCO .13

Con la aprobación en la Comisión de Cultura de la Asamblea General, EEUU dijo sentirse defraudado. En el debate intervinieron cerca de 90 países en defensa del proyecto que pretende otorgar a los bienes y servicios culturales un tratamiento diferente al de una simple mercancía. El 20 de octubre quedará adoptada la Convención, según puede preverse, y deberá ser ratificada luego por más de 30 naciones para su entrada en vigor. De lograrse, constituirá un triunfo, sin dudas, sobre el poder hegemónico.

Aunque los EE.UU. quedaron prácticamente aislados, intensificarán sus presiones diplomáticas, chantajes y maniobras de todo tipo a fin de evitar la ratificación de la Convención y su aplicación posterior. La experiencia lo hace predecible y l a realidad y nuestra capacidad movilizativa dirá luego hasta dónde podremos avanzar en defensa de la supervivencia espiritual de la humanidad.

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1 “Convención sobre la protección y la promoción de la diversidad de las expresiones culturales” según el texto consolidado preparado por el Presidente de la Reunión Intergubernamental de Expertos y sometido a los miembros del Consejo Ejecutivo a título informativo el 22 de abril de 2005.

2 Suscrito en la Cumbre de la Tierra, en Río de Janeiro, en 1992,

3 Declaración Universal de la UNESCO sobre la Diversidad Cultural, París, 2 de noviembre de 2001http://www.unesco.org/culture/pluralism/diversity/html_sp/index_sp.shtml

4 Shiva, Vandana.¿Proteger o expoliar? Los derechos de propiedad intelectual. Editorial Oxfam. Barcelona, 2003

5 La presentó la Misión Permanente del Brasil, en nombre de las delegaciones del Brasil, China, Cuba, el Ecuador, la India, el Pakistán, la República Dominicana, Tailandia, Venezuela, Zambia y Zimbabwe.

6 “Relación entre el acuerdo sobre los Aspectos de propiedad intelectual relacionados con el comercio (ADPIC) y el Convenio sobre la Diversidad Biológica y la protección de los conocimientos tradicionales” . Organización Mundial Del Comercio .IP/C/W/356 24 de junio de 2002 (02-3480).Consejo de los Aspectos de los Derechos de Propiedad Intelectual relacionados con el Comercio

7 “Declaración de Ginebra sobre el futuro de la OMPI” www.peru.cpsr.org y “Llamamiento de Caracas”, Declaración Final del Encuentro Mundial de Intelectuales y artistas “En defensa de la humanidad”, Noviembre 2004 http://%20www.caracas2004.info/global/loader.php?&cat=programa&cont=06.htm

8 Anteproyecto CLT/CPD/2004/CONF-201/2,París, julio de 2004

9 Véanse los comentarios en el texto compuesto que forma parte Informe Preliminar del Director general junto con dos anteproyectos de Convención sobre la protección de la diversidad de los contenidos culturales y las expresiones artísticas. CLT/CPD/2005/CONF.203/6 París, 3 de marzo. Original Francés e inglés.

10 CLT/CPD/2005/CONF.203/6 Add.PARÍS, 29 de abril de 2005 Original: Inglés apéndice 2 del informe preliminar del director general con dos anteproyectos de convención sobre la protección de la diversidad de los contenidos culturales y las expresiones artísticas texto consolidado preparado por el presidente de la reunión intergubernamental de expertos

11 Ver “El proceso especial 301 de los EUA” Warner Rose, escritor del Departamento de Estado especializado en economíahttp://www.megalink.com/usemblapaz/propiedad%20intelectual/derechoelec.htm

I nforme Especial 301 de la oficina del representante de comercio de EEUU 30 de abril de 2002www.lapaz.embassy.gov/propiedadintelectual/special301.htm o Informe Especial 301. Abril 2005 www.megalink.com/usemblapaz

12 www.terra.com/noticias/articulo/html/act/241575.htm#
 
13 http://www.amb-usa.fr/USUNESCO/texts/CD_RiceLetter_Spanish.pdf

 

 

 

 

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São 30 anos do assassinato do jornalista Vladimir Herzog pela ditadura militar. A foto é nítida em minha memória: a cabeça pendente, o pescoço asfixiado, o corpo derramado rente à parede. E eles supunham que tinham todo o poder. Poder sobre a vida dele e sobre a nossa memória, essa obcecada ilusão que produz no poder uma cegueira onipotente, tão bem descrita por Primo Levi. 

Herzog, convocado a prestar declarações em outubro de 1975, numa dependência militar de São Paulo, qualificada por seus algozes de "sucursal do inferno" (o mesmo centro de tortura do qual frei Tito de Alencar Lima entrou lúcido, em 1970, e saiu tomado pela loucura, que o levou à morte quatro anos depois), não tinha as respostas que eles queriam.

Eis o que mais irrita o torturador, induzindo sua mente mórbida a produzir a adrenalina da crueldade: o interrogado não ter as respostas que ele espera escutar. Então a sevícia produz a dor e a dor a ruptura que torna o corpo inimigo do espírito. O réu é convocado a testemunhar o próprio opróbrio, o que Tomás de Aquino considera maior crime que o homicídio.

Herzog seria mais uma entre tantas vítimas suicidadas no calabouço da ditadura. Prova disso é que sua morte não inibiu os assassinos. Pouco depois, no mesmo centro de tortura da rua Tutóia, morreria Manoel Fiel Filho. Todo poder detém o monopólio da violência. Mas quando não há nenhum outro poder que lhe imponha limites, como ocorre nas ditaduras, a violência extravasa do corpo de lei para o capricho necrófilo do algoz. As regras do Direito são subvertidas pela impunidade que protege a ação direta de quem age em nome do Estado.

Frente ao torturador, o silêncio da vítima é suprema provocação. A desinformação, menosprezo à sua suposta inteligência. Fera indomável, necessita de carne viva para saciar-lhe o apetite insano. Quer nomes, endereços, denúncias. Sua auto-estima alimenta-se da degradação do preso. Sua vida afirma-se na morte alheia. O silêncio definitivo. Depois, um pretexto (suicidou-se…), um atestado de óbito, um enterro discreto. Ou clandestino, como de tantos cujas famílias aguardam, ainda hoje, o paradeiro de seus entes queridos.

Pensavam que, com o tempo, tudo cairia no olvido. Com a anistia, o passado não retornaria como os fantasmas de Shakespeare. Ora, sentimentos não têm cronologia. Pergunte-se à mãe que perdeu o filho há vinte ou trinta anos. O que se ama eterniza-se.

O caso Herzog tornou-se emblemático, símbolo da luta contra o arbítrio e a injustiça. Morto, ele incomoda os vivos. Porque a nação ainda não acertou contas com esse passado recente, cujos protagonistas ocupam, ainda hoje, lugar de destaque na política nacional e posam de  paladinos da democracia, tantos anos depois de terem decidido mandar às favas os escrúpulos.

Os crimes praticados pela ditadura militar são indenizados. Nunca apurados. Furaram os olhos da Justiça, mas não a ensurdeceram nem lhe apagaram a memória. Trinta anos depois Vladimir Herzog é um cadáver insepulto, subversivo, paradigmático. Tratado como verme numa dependência policial-militar, figura para sempre na galeria dos heróis e mártires brasileiros.

Recordar não é vingar. Rogo a Deus que jamais me permita fazer ou mesmo acontecer a meus torturadores o que fizeram a mim. Não há nisso nenhuma virtude. Apenas o cuidado de preservar a minha humanidade. Por isso jamais entrei no Ministério da Justiça com pedido de indenização. Respeito os que o fizeram, mas me recuso a admitir que uma questão moral tenha tabela de preço.

Após quatro anos de cárcere, ainda hoje ouço a pergunta quanto aos meus sentimentos. Respondo ter aprendido a não odiar os meus algozes. Não por

mérito, mas por descobrir, ali dentro, que o ódio destrói primeiro quem odeia e não quem é odiado. Pelo lado paterno, tenho vários militares no álbum familiar. Meu pai, filho de militar, tinha um irmão general e também um primo.

Como descreve Érico Veríssimo em "Solo de Clarineta", enquanto nossos mortos não merecerem um enterro digno, continuarão vivos em nossa indignação. Então é preciso que se saiba por que, como, onde e quando foram assassinados. Abra o governo os arquivos da ditadura. Quem teme a história cobre-se de vergonha. Aprenda a lição das vítimas do nazismo: sessenta anos depois, o holocausto é ontem.

Em um mundo que gasta, por ano, cerca de US$ 1 trilhão em produtos bélicos, e menos de 10% disso em cooperação internacional, Herzog interpela os nossos valores. Por que o cuidado da vida, dom maior de Deus, não supera o investimento na morte? Por que Bush, que preside o planeta, acredita que a paz será fruto da imposição das armas? Não teria Isaías maior razão que afirmar, há 2.800 anos, que só haverá paz como fruto da justiça (32, 17)?

 

Fonte: www.adital.org.br

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Nada simboliza mejor el desasosiego de la prensa francesa, frente a una alarmante baja en su difusión, que la reciente disposición del diario Libération, otrora maoísta, de favorecer la toma de control de su capital por el banquero Edouard de Rothschild... Hace poco, el grupo Soc-presse, que publica unos 70 títulos, entre ellos Le Figaro, L`Express, L`Expansion y decenas de diarios regionales, fue comprado a su vez por un fabricante de armas, Serge Dassault. Y se sabe que otro industrial del armamento, Arnaud Lagardère, es dueño del grupo Hachette1 que posee 47 revistas (entre las cuales están Elle, Parents, Première) y diarios como La Provence, Nice-Matin o Corse-Presse. Si prosiguiera esta caída de la difusión, la prensa escrita independiente correría el riesgo de caer poco a poco bajo el control de un pequeño grupo de industriales -Bouygues, Dassault, Lagardère, Pinault, Arnault, Bolloré, Bertelsmann- que multiplican sus alianzas entre ellos, amenazando así el pluralismo.

La caída afecta actualmente a toda la prensa de referencia. Por primera vez desde hace 15 años no se libra Le Monde Diplomatique. Nuestro periódico, que desde 1990 registraba un aumento regular en su difusión y que entre 2001 y 2003 tuvo un crecimiento récord en su venta -superior al 25% acumulado- habrá tenido sin duda en 2004 un retroceso de 12% en su difusión. La mayoría de los grandes diarios franceses de circulación nacional registrarán también un descenso importante, que se sumará al sufrido en 2003, a saber: Le Figaro: -4.4%; Libération: -6.2%; Les Echos: -6.4%; Le Monde: -7.5%, y La Tribune: -12.3%.

El fenómeno está lejos de circunscribirse a Francia. El diario estadounidense International Herald Tribune, por ejemplo, vio bajar sus ventas en 2003 en 4.16%; en Reino Unido, el Financial Times cayó en 6.6%; en Alemania, en los últimos cinco años la difusión ha bajado 7.7%, en Dinamarca 9.5%, en Austria 9.9%, en Bélgica 6.9%, e incluso en Japón, cuyos habitantes son los mayores consumidores de periódicos, el retroceso ha sido de 2.2%. Dentro de la Unión Europea, el número de periódicos vendidos cada día es inferior en un millón de ejemplares respecto de hace diez años... A escala mundial, la venta de diarios cae cada año un promedio de 2%. Hay quienes llegan a preguntarse si la prensa escrita no se convertirá en algo del pasado, un medio de la era industrial en vías de desaparición.

Aquí y allá hay periódicos que desaparecen. En Hungría, el 5 de noviembre de 2004, el diario Magyar Hirlap (propiedad del grupo suizo Ringier) cerró sus puertas. La víspera, 4 de noviembre, en Hong Kong, el semanario otrora de referencia sobre temas asiáticos Far Eastern Economic Review (propiedad del grupo estadounidense Down Jones) dejó de publicarse. En Francia, el 7 de diciembre de 2004, el mensual Nova Magazine también interrumpió su salida. En Estados Unidos, entre 2000 y 2004, desaparecieron más de dos mil empleos en la prensa escrita, lo que representa 4% del total. La recesión afecta también a las agencias de prensa que suministran información a los periódicos. La principal de ellas, Reuters, acaba de anunciar una reducción de cuatro mil 500 empleos.

Se conocen las causas externas de esa crisis. Por una parte, la ofensiva devastadora de los diarios gratuitos. En Francia, el gratuito 20 Minutes ya ha tomado claramente la delantera en número de lectores, pues llega a más de dos millones de personas por día en promedio, superando ampliamente al diario de pago Le Parisien (1.7 millones) y a otro gratuito, Metro, que diariamente leen 1.6 millones de personas. Esos medios captan importantes flujos publicitarios, dado que los anunciantes no hacen ninguna distinción entre el lector que paga por su diario y el que lo recibe gratis.

Para resistir a esa competencia que podría resultar mortal para los diarios -y que ya amenaza a los semanarios- algunos de ellos, sobre todo en Italia, España, Grecia y Turquía (aunque el fenómeno se extiende también a Francia) proponen con cada entrega, por una pequeña suma extra, una revista de historietas, un DVD, CD, libros, átlas, enciclopedias, colecciones de sellos o de antiguos billetes de banco, y hasta vajillas, juegos de ajedrez, etcétera. Lo cual refuerza la confusión entre información y mercancía, con el riesgo de que los lectores ya no sepan qué es lo que compran. Así es como los diarios enturbian más su identidad, devalúan el título y ponen en marcha un engranaje diabólico que nadie sabe en qué acabará.

La otra causa externa es, claro está, Internet, que continúa su fabulosa expansión. Únicamente en el curso del primer trimestre de 2004 se crearon 4.7 millones de sitios Web. Actualmente existen en el mundo unos 70 millones de sitios e Internet cuenta con más de 700 millones de usuarios. En los países desarrollados, muchas personas abandonan la lectura de la prensa -y hasta la televisión- por la pantalla de la computadora. El ADSL (Asymetric Digital Subscriber Line) ha modificado la situación especialmente. Por precios que oscilan entre los diez y los 30 euros, hoy en día es posible abonarse a Internet de alta velocidad. Actualmente, en Francia, más de 5.5 millones de hogares están abonados con conexión ultra rápida a la prensa digital (79% de los diarios del mundo poseen ediciones electrónicas), a todo tipo de textos, e-mail, fotos, música, programas de televisión o de radio, películas, videojuegos, etcétera.

Existe además el fenómeno de los blogs, característico de la cultura Web, cuyo número ha aumentado de manera impresionante en todo el mundo durante el segundo semestre de 2004, y que, con el tono de un diario íntimo, mezclan sin complejo información y opinión, hechos verificados y rumores, análisis documentados e impresiones fantasiosas. Su éxito es tal que se encuentran en la mayoría de los diarios digitales. Esa avidez muestra que muchos lectores prefieren la subjetividad y la parcialidad asumidas de los bloggers a la falsa objetividad y a la imparcialidad hipócrita de la gran prensa. Por otra parte, la conexión a la galaxia Internet a través de los teléfonos-móviles-multifunciones puede acelerar aún más ese movimiento. De esta manera la información se vuelve más móvil y más nómada. Así es posible saber, en todo momento, lo que ocurre en el mundo.

En la India, la firma Times Internet, filial multimedia del diario Times of India, envía mensualmente a los teléfonos móviles de sus abonados más de 30 millones de informaciones en forma de SMS (Short Message Service), tecnología que permite una comunicación rápida, breve y económica. En Japón y en Corea del Sur, una cantidad creciente de personas se informan a través de sus teléfonos celulares. Allí reciben programas de radio, de televisión y los canales de información permanente. Resultado: todos los sectores de información, fuera de Internet, pierden audiencia dado el alto nivel de competencia existente entre los medios de comunicación.

Pero la crisis tiene también causas internas, que obedecen principalmente a la pérdida de credibilidad de la prensa escrita. En primer lugar porque ésta pertenece cada vez más -como hemos visto- a grupos industriales que controlan el poder económico y que están en connivencia con el poder político. Y también porque la parcialidad, la falta de objetividad, la mentira, las manipulaciones o simplemente las imposturas, no cesan de aumentar. Sabemos que no ha existido ninguna época dorada de la información, pero actualmente esas derivas han alcanzado también a los diarios de calidad. En Estados Unidos, el caso de Jayson Blair, el periodista estrella que falsificaba hechos, plagiaba artículos de Internet y que incluso inventó decenas de historias, causó un perjuicio colosal al New York Times, que a menudo publicaba sus fabulaciones en portada.4 Ese diario, que era considerado una referencia por los profesionales, sufrió una conmoción a raíz del mencionado caso: los dos responsables de la redacción, Howell Raines y Gerald Boyd, debieron renunciar, y hubo que crear un puesto de ombudsman (defensor del lector), para el que fue designado Daniel Okrent, un ensayista y ex jefe de redacción de la revista Time.

Pocos meses después estalló otro escándalo, aún más estruendoso, en el primer diario de Estados Unidos, USA Today. Sus lectores descubrían, estupefactos, que su más célebre reportero, Jack Kelley, una estrella internacional que desde hacía 20 años viajaba por todo el mundo, que había entrevistado a 36 jefes de Estado y cubierto una decena de guerras, era un falsificador compulsivo, un "impostor en serie". Entre 1993 y 2003, Kelley había inventado cientos de relatos sensacionales. Como por azar, siempre estaba en el lugar donde ocurrían los acontecimientos, de los que extraía historias excepcionales y apasionantes. En uno de sus reportajes decía haber sido testigo de un atentado en una pizzería de Jerusalén y describía a tres hombres que comían junto a él, cuyos cuerpos habían sido proyectados hacia arriba por la explosión, cayendo luego decapitados, mientras las cabezas rodaban sobre la calle...

Su reportaje más grosero, aparecido el 10 de marzo de 2000, era sobre Cuba. Kelley había fotografiado a una empleada de hotel -Jacqueline- cuya fuga clandestina a bordo de un frágil esquife relataba con lujo de detalles, incluyendo la muerte de la desdichada, ahogada en el estrecho de la Florida. En realidad, la mujer -cuyo verdadero nombre era Yamilet Fernández- está viva actualmente y nunca ha corrido tal aventura. Otro periodista de USA Today, Blake Morrison, la entrevistó y pudo verificar que Kelley había mentido.5 Las revelaciones de esos fraudes, considerados como uno de los mayores escándalos del periodismo estadounidense, le costaron el puesto a la directora de la redacción, Karen Jurgensen, y a otros dos altos directivos: Brian Gallagher, su adjunto, y Hal Ritter, responsable de la información.

Más recientemente, en plena campaña electoral, un nuevo sismo deontológico sacudió el mundo de los medios. Dan Rather, el presentador estrella del informativo televisivo de CBS y del prestigioso programa 60 minutos, reconoció haber difundido, sin verificarlos, falsos documentos para probar que el presidente Bush había gozado de ayuda para evitar ser enviado a la guerra de Vietnam.

Rather anunció que abandonaba su puesto y se retiraba.

Intoxicación sobre Irak

A todos esos desastres hay que añadir el cambio de manos de los grandes medios, transformados en órganos de propaganda -en particular el canal Fox News8- de las mentiras de la Casa Blanca respecto de Irak. Los diarios no verificaron ni pusieron en duda las afirmaciones de la administración de Bush. De haberlo hecho, un documental como Farenheit 9/11, de Michael Moore, no hubiera tenido tanto éxito, pues la información que aporta la película estaba disponible desde hacía mucho. Pero los medios la habían ocultado.

Incluso el Washington Post y el New York Times participaron de ese "lavado de cerebro", como lo mostró perfectamente un especialista de los medios, John Pilger: "Mucho antes de la invasión, ambos diarios creaban falsas alarmas por cuenta de la Casa Blanca. En la portada del New York Times podían leerse títulos como: `Arsenal secreto [de Irak]: en busca de las bacterias de guerra`, `Un desertor describe los progresos de la bomba atómica en Irak`, `Un iraquí habla de la renovación de los emplazamientos de armas químicas y nucleares`, o `Desertores refuerzan el informe estadounidense contra Irak, afirman los oficiales`. Todos esos artículos resultaron ser pura propaganda. En un correo electrónico interno (publicado por el Washington Post) la periodista estrella del New York Times, Judith Miller, admitió que su fuente principal era Ahmed Chalabi, un exiliado iraquí, un prevaricador condenado por la justicia, que había dirigido el Congreso Nacional Iraquí (CNI), organización con sede en Washington y financiada por la CIA. Una investigación del Congreso llegó posteriormente a la conclusión de que toda la información suministrada por Chalabi y por otros exiliados del CNI carecía de valor".

Un oficial de la CIA, Robert Baer, reveló cómo funcionaba ese sistema de intoxicación: "El Congreso Nacional Iraquí tomaba sus informaciones de falsos desertores y las pasaba al Pentágono, posteriormente el Congreso Nacional Iraquí daba las mismas informaciones a los periodistas diciéndoles: `Si no lo creen, llamen al Pentágono`. Así se lograba crear un circuito cerrado con tales noticias.De esa manera, el New York Timespodía decir que tenía dos fuentes de informaciones sobre las armas de destrucción masiva en Irak. Lo mismo ocurría con el Washington Post. Los periodistas no trataban de averiguar más. Por otra parte, los jefes de redacción les pedían que apoyaran al gobierno, por patriotismo".

El jefe de redacción del Washington Post, Steve Coll, renunció a su cargo el 25 de agosto de 2004, después de que una investigación mostrara el poco espacio que había otorgado a los artículos que cuestionaban la tesis del gobierno en el periodo previo a la invasión de Irak.

El New York Times también entonó su mea culpa. En un editorial publicado el 26 de mayo de 2004, reconoció su falta de rigor en la presentación de los acontecimientos que llevaron a la guerra y lamentó haber publicado "informaciones erróneas".

En Francia, los desastres mediáticos no son menores, como lo demostró el tratamiento dado por los principales medios a los casos de Patrice Alegre, del mozo de equipajes de Orly, de los pederastas de Outreau y de Marie L. que afirmaba haber sufrido una agresión antisemita en un tren de las afueras de París. El fenómeno se repite en muchos otros países. En España, por ejemplo, después de los atentados del 11 de marzo de 2004, los medios controlados por el gobierno de José María Aznar manipularon la información, tratando de imponer una "verdad oficial" al servicio de ambiciones electorales, ocultando la responsabilidad de la red Al Qaeda y atribuyendo el crimen a la organización vasca ETA.

Todos esos casos, al igual que la alianza cada vez más estrecha entre los medios de comunicación y los poderes económicos y políticos, han causado un daño terrible a la credibilidad de la prensa. Lo cual revela un inquietante déficit democrático. Domina el periodismo complaciente, al tiempo que el periodismo crítico retrocede. Cabe incluso preguntarse si a la hora de la globalización y de los megagrupos mediáticos no está desapareciendo la noción de prensa libre.

 

"Ideas sanas"

Al respecto, las declaraciones de Serge Dassault confirman todos los temores. En cuanto asumió su cargo, el nuevo propietario del diario Le Figarodeclaró a los redactores: "Desearía, en la medida de lo posible, que el diario pusiera más de relieve nuestras empresas. Creo que a veces hay informaciones que requieren mucha precaución. Por ejemplo, los artículos sobre los contratos en curso de negociación. Hay informaciones que hacen más mal que bien. El riesgo consiste en poner en peligro intereses comerciales o industriales de nuestro país". Se comprenderá que lo que Dassault llama "nuestro país" es su fábrica de armas Dassault-Aviation. Y sin duda para protegerla censuró una entrevista sobre la venta fraudulenta de aviones Mirage a Taiwán. Al igual que una información sobre las conversaciones entre el presidente francés Jacques Chirac y su homólogo argelino Abdelaziz Bouteflika, sobre un proyecto de venta de aviones Rafale a Argelia.

Recientemente, Dassault explicó que una de las razones que lo llevaron a comprar el semanario L`Express y el diario Le Figaro era que un periódico "permite difundir una cantidad de ideas sanas", lo que aumentó la inquietud de los periodistas.

Si a esas declaraciones sumamos las de Patrick Le Lay, director del canal TF1, sobre la verdadera función de ese gigante de los medios de comunicación franceses -"La función de TF1 es ayudar a Coca Cola a vender su producto. Lo que nosotros le vendemos a Coca Cola es tiempo disponible de cerebro humano"- vemos los peligros que implica esa mezcla de actividades, hasta tal punto resultan contradictorias la obsesión comercial y la ética de la información.

La citada mezcla de actividades puede ir muy lejos, sin que los lectores se den cuenta. Walter Wells, director del International Herald Tribune (que pertenece al grupo New York Times, que cotiza en bolsa), ha advertido recientemente sobre los riesgos de la entrada en el mercado de valores de las empresas de prensa. "A menudo, quienes deben tomar una decisión periodística se preguntan si la misma hará bajar o subir en algunos centavos el valor en bolsa de las acciones de la editorial. Ese tipo de consideraciones se ha vuelto capital, los directores de diarios reciben permanentemente directrices en tal sentido por parte de los propietarios financieros del periódico. Se trata de un hecho nuevo en el periodismo contemporáneo, antes no era así".

Esa confusión, que manipula y termina atrapando a los lectores, puede ir aún más lejos en Internet. Así, por ejemplo, la página electrónica de la revista económica estadounidense Forbes utiliza un nuevo procedimiento para hacer publicidad, integrando directamente los enlaces promocionales en el contenido de los artículos. Los anunciantes compran ciertas palabras-clave y cuando el cursor del internauta pasa sobre ellas, aparece un pop-up con un mensaje publicitario. Los periodistas no son informados por anticipado sobre las palabras-clave que compran los anunciantes, pero algunos ya se preguntan si dentro de poco no les pedirán que escriban artículos utilizando palabras precisas que podrían brindar importantes beneficios económicos a la empresa periodística.

La era de la inseguridad informativa

Cada vez más ciudadanos toman conciencia de esos nuevos peligros y se muestran muy sensibles respecto de las manipulaciones mediáticas, convencidos de que en nuestras sociedades hipermediatizadas, vivimos paradójicamente en estado de inseguridad informativa. La información prolifera, pero sin ninguna garantía de fiabilidad. Asistimos al triunfo del periodismo de especulación y de espectáculo, en detrimento del periodismo de información. La puesta en escena (el embalaje) predomina sobre la verificación de los hechos.

En lugar de constituir la última defensa contra los excesos derivados de la rapidez y la inmediatez, muchos diarios han fallado en su misión y han contribuido a veces -en nombre de una concepción perezosa o policial del periodismo de investigación- a desacreditar lo que otrora se llamaba el "cuarto poder". Nuestro fundador, Hubert Beuve-Méry, recordaba siempre: "Los hechos son sagrados, la opinión es libre". Pero la actitud que se propaga en los medios parece invertir esa fórmula. Cada vez más editorialistas consideran que las que son sagradas son sus opiniones -pocas veces fundamentadas- a la vez que no dudan en deformar los hechos para obligarlos a justificar sus opiniones.

En semejante contexto, en que el entusiasmo militante retrocede mientras cunde una visión pesimista del futuro, la redacción de Le MondeDiplomatique se consagra a la tarea de mejorar su contenido editorial y considera que lo más importante es no traicionar la confianza de los lectores.

Somos el periódico de la sociedad en movimiento, de la crítica social, de los que quieren que el mundo cambie. Y estamos dispuestos a mantenernos fieles a principios fundamentales que caracterizan nuestra manera de informar. Moderando la aceleración mediática; apostando por un periodismo de las luces, para disipar las sombras de la actualidad; interesándonos en situaciones que no están bajo los reflectores de la actualidad, pero que ayudan a comprender mejor el contexto internacional; proponiendo dossiers cada vez más completos, más profundos y mejor documentados sobre los grandes temas contemporáneos; yendo al fondo de los problemas, con método, rigor y seriedad; presentando informaciones y análisis inéditos, que muchas veces permanecían ocultos; y atreviéndonos a ir a contracorriente de los medios dominantes. Estamos convencidos de que de la calidad de la información depende la del debate cívico. La índole de este debate determina en última instancia la riqueza de la democracia.

Fonte: Le Monde

Nada simboliza mejor el desasosiego de la prensa francesa, frente a una alarmante baja en su difusión, que la reciente disposición del diario Libération, otrora maoísta, de favorecer la toma de control de su capital por el banquero Edouard de Rothschild... Hace poco, el grupo Soc-presse, que publica unos 70 títulos, entre ellos Le Figaro, L`Express, L`Expansion y decenas de diarios regionales, fue comprado a su vez por un fabricante de armas, Serge Dassault. Y se sabe que otro industrial del armamento, Arnaud Lagardère, es dueño del grupo Hachette1 que posee 47 revistas (entre las cuales están Elle, Parents, Première) y diarios como La Provence, Nice-Matin o Corse-Presse. Si prosiguiera esta caída de la difusión, la prensa escrita independiente correría el riesgo de caer poco a poco bajo el control de un pequeño grupo de industriales -Bouygues, Dassault, Lagardère, Pinault, Arnault, Bolloré, Bertelsmann- que multiplican sus alianzas entre ellos, amenazando así el pluralismo.

La caída afecta actualmente a toda la prensa de referencia. Por primera vez desde hace 15 años no se libra Le Monde Diplomatique. Nuestro periódico, que desde 1990 registraba un aumento regular en su difusión y que entre 2001 y 2003 tuvo un crecimiento récord en su venta -superior al 25% acumulado- habrá tenido sin duda en 2004 un retroceso de 12% en su difusión. La mayoría de los grandes diarios franceses de circulación nacional registrarán también un descenso importante, que se sumará al sufrido en 2003, a saber: Le Figaro: -4.4%; Libération: -6.2%; Les Echos: -6.4%; Le Monde: -7.5%, y La Tribune: -12.3%.

El fenómeno está lejos de circunscribirse a Francia. El diario estadounidense International Herald Tribune, por ejemplo, vio bajar sus ventas en 2003 en 4.16%; en Reino Unido, el Financial Times cayó en 6.6%; en Alemania, en los últimos cinco años la difusión ha bajado 7.7%, en Dinamarca 9.5%, en Austria 9.9%, en Bélgica 6.9%, e incluso en Japón, cuyos habitantes son los mayores consumidores de periódicos, el retroceso ha sido de 2.2%. Dentro de la Unión Europea, el número de periódicos vendidos cada día es inferior en un millón de ejemplares respecto de hace diez años... A escala mundial, la venta de diarios cae cada año un promedio de 2%. Hay quienes llegan a preguntarse si la prensa escrita no se convertirá en algo del pasado, un medio de la era industrial en vías de desaparición.

Aquí y allá hay periódicos que desaparecen. En Hungría, el 5 de noviembre de 2004, el diario Magyar Hirlap (propiedad del grupo suizo Ringier) cerró sus puertas. La víspera, 4 de noviembre, en Hong Kong, el semanario otrora de referencia sobre temas asiáticos Far Eastern Economic Review (propiedad del grupo estadounidense Down Jones) dejó de publicarse. En Francia, el 7 de diciembre de 2004, el mensual Nova Magazine también interrumpió su salida. En Estados Unidos, entre 2000 y 2004, desaparecieron más de dos mil empleos en la prensa escrita, lo que representa 4% del total. La recesión afecta también a las agencias de prensa que suministran información a los periódicos. La principal de ellas, Reuters, acaba de anunciar una reducción de cuatro mil 500 empleos.

Se conocen las causas externas de esa crisis. Por una parte, la ofensiva devastadora de los diarios gratuitos. En Francia, el gratuito 20 Minutes ya ha tomado claramente la delantera en número de lectores, pues llega a más de dos millones de personas por día en promedio, superando ampliamente al diario de pago Le Parisien (1.7 millones) y a otro gratuito, Metro, que diariamente leen 1.6 millones de personas. Esos medios captan importantes flujos publicitarios, dado que los anunciantes no hacen ninguna distinción entre el lector que paga por su diario y el que lo recibe gratis.

Para resistir a esa competencia que podría resultar mortal para los diarios -y que ya amenaza a los semanarios- algunos de ellos, sobre todo en Italia, España, Grecia y Turquía (aunque el fenómeno se extiende también a Francia) proponen con cada entrega, por una pequeña suma extra, una revista de historietas, un DVD, CD, libros, átlas, enciclopedias, colecciones de sellos o de antiguos billetes de banco, y hasta vajillas, juegos de ajedrez, etcétera. Lo cual refuerza la confusión entre información y mercancía, con el riesgo de que los lectores ya no sepan qué es lo que compran. Así es como los diarios enturbian más su identidad, devalúan el título y ponen en marcha un engranaje diabólico que nadie sabe en qué acabará.

La otra causa externa es, claro está, Internet, que continúa su fabulosa expansión. Únicamente en el curso del primer trimestre de 2004 se crearon 4.7 millones de sitios Web. Actualmente existen en el mundo unos 70 millones de sitios e Internet cuenta con más de 700 millones de usuarios. En los países desarrollados, muchas personas abandonan la lectura de la prensa -y hasta la televisión- por la pantalla de la computadora. El ADSL (Asymetric Digital Subscriber Line) ha modificado la situación especialmente. Por precios que oscilan entre los diez y los 30 euros, hoy en día es posible abonarse a Internet de alta velocidad. Actualmente, en Francia, más de 5.5 millones de hogares están abonados con conexión ultra rápida a la prensa digital (79% de los diarios del mundo poseen ediciones electrónicas), a todo tipo de textos, e-mail, fotos, música, programas de televisión o de radio, películas, videojuegos, etcétera.

Existe además el fenómeno de los blogs, característico de la cultura Web, cuyo número ha aumentado de manera impresionante en todo el mundo durante el segundo semestre de 2004, y que, con el tono de un diario íntimo, mezclan sin complejo información y opinión, hechos verificados y rumores, análisis documentados e impresiones fantasiosas. Su éxito es tal que se encuentran en la mayoría de los diarios digitales. Esa avidez muestra que muchos lectores prefieren la subjetividad y la parcialidad asumidas de los bloggers a la falsa objetividad y a la imparcialidad hipócrita de la gran prensa. Por otra parte, la conexión a la galaxia Internet a través de los teléfonos-móviles-multifunciones puede acelerar aún más ese movimiento. De esta manera la información se vuelve más móvil y más nómada. Así es posible saber, en todo momento, lo que ocurre en el mundo.

En la India, la firma Times Internet, filial multimedia del diario Times of India, envía mensualmente a los teléfonos móviles de sus abonados más de 30 millones de informaciones en forma de SMS (Short Message Service), tecnología que permite una comunicación rápida, breve y económica. En Japón y en Corea del Sur, una cantidad creciente de personas se informan a través de sus teléfonos celulares. Allí reciben programas de radio, de televisión y los canales de información permanente. Resultado: todos los sectores de información, fuera de Internet, pierden audiencia dado el alto nivel de competencia existente entre los medios de comunicación.

Pero la crisis tiene también causas internas, que obedecen principalmente a la pérdida de credibilidad de la prensa escrita. En primer lugar porque ésta pertenece cada vez más -como hemos visto- a grupos industriales que controlan el poder económico y que están en connivencia con el poder político. Y también porque la parcialidad, la falta de objetividad, la mentira, las manipulaciones o simplemente las imposturas, no cesan de aumentar. Sabemos que no ha existido ninguna época dorada de la información, pero actualmente esas derivas han alcanzado también a los diarios de calidad. En Estados Unidos, el caso de Jayson Blair, el periodista estrella que falsificaba hechos, plagiaba artículos de Internet y que incluso inventó decenas de historias, causó un perjuicio colosal al New York Times, que a menudo publicaba sus fabulaciones en portada.4 Ese diario, que era considerado una referencia por los profesionales, sufrió una conmoción a raíz del mencionado caso: los dos responsables de la redacción, Howell Raines y Gerald Boyd, debieron renunciar, y hubo que crear un puesto de ombudsman (defensor del lector), para el que fue designado Daniel Okrent, un ensayista y ex jefe de redacción de la revista Time.

Pocos meses después estalló otro escándalo, aún más estruendoso, en el primer diario de Estados Unidos, USA Today. Sus lectores descubrían, estupefactos, que su más célebre reportero, Jack Kelley, una estrella internacional que desde hacía 20 años viajaba por todo el mundo, que había entrevistado a 36 jefes de Estado y cubierto una decena de guerras, era un falsificador compulsivo, un "impostor en serie". Entre 1993 y 2003, Kelley había inventado cientos de relatos sensacionales. Como por azar, siempre estaba en el lugar donde ocurrían los acontecimientos, de los que extraía historias excepcionales y apasionantes. En uno de sus reportajes decía haber sido testigo de un atentado en una pizzería de Jerusalén y describía a tres hombres que comían junto a él, cuyos cuerpos habían sido proyectados hacia arriba por la explosión, cayendo luego decapitados, mientras las cabezas rodaban sobre la calle...

Su reportaje más grosero, aparecido el 10 de marzo de 2000, era sobre Cuba. Kelley había fotografiado a una empleada de hotel -Jacqueline- cuya fuga clandestina a bordo de un frágil esquife relataba con lujo de detalles, incluyendo la muerte de la desdichada, ahogada en el estrecho de la Florida. En realidad, la mujer -cuyo verdadero nombre era Yamilet Fernández- está viva actualmente y nunca ha corrido tal aventura. Otro periodista de USA Today, Blake Morrison, la entrevistó y pudo verificar que Kelley había mentido.5 Las revelaciones de esos fraudes, considerados como uno de los mayores escándalos del periodismo estadounidense, le costaron el puesto a la directora de la redacción, Karen Jurgensen, y a otros dos altos directivos: Brian Gallagher, su adjunto, y Hal Ritter, responsable de la información.

Más recientemente, en plena campaña electoral, un nuevo sismo deontológico sacudió el mundo de los medios. Dan Rather, el presentador estrella del informativo televisivo de CBS y del prestigioso programa 60 minutos, reconoció haber difundido, sin verificarlos, falsos documentos para probar que el presidente Bush había gozado de ayuda para evitar ser enviado a la guerra de Vietnam.

Rather anunció que abandonaba su puesto y se retiraba.

Intoxicación sobre Irak

A todos esos desastres hay que añadir el cambio de manos de los grandes medios, transformados en órganos de propaganda -en particular el canal Fox News8- de las mentiras de la Casa Blanca respecto de Irak. Los diarios no verificaron ni pusieron en duda las afirmaciones de la administración de Bush. De haberlo hecho, un documental como Farenheit 9/11, de Michael Moore, no hubiera tenido tanto éxito, pues la información que aporta la película estaba disponible desde hacía mucho. Pero los medios la habían ocultado.

Incluso el Washington Post y el New York Times participaron de ese "lavado de cerebro", como lo mostró perfectamente un especialista de los medios, John Pilger: "Mucho antes de la invasión, ambos diarios creaban falsas alarmas por cuenta de la Casa Blanca. En la portada del New York Times podían leerse títulos como: `Arsenal secreto [de Irak]: en busca de las bacterias de guerra`, `Un desertor describe los progresos de la bomba atómica en Irak`, `Un iraquí habla de la renovación de los emplazamientos de armas químicas y nucleares`, o `Desertores refuerzan el informe estadounidense contra Irak, afirman los oficiales`. Todos esos artículos resultaron ser pura propaganda. En un correo electrónico interno (publicado por el Washington Post) la periodista estrella del New York Times, Judith Miller, admitió que su fuente principal era Ahmed Chalabi, un exiliado iraquí, un prevaricador condenado por la justicia, que había dirigido el Congreso Nacional Iraquí (CNI), organización con sede en Washington y financiada por la CIA. Una investigación del Congreso llegó posteriormente a la conclusión de que toda la información suministrada por Chalabi y por otros exiliados del CNI carecía de valor".

Un oficial de la CIA, Robert Baer, reveló cómo funcionaba ese sistema de intoxicación: "El Congreso Nacional Iraquí tomaba sus informaciones de falsos desertores y las pasaba al Pentágono, posteriormente el Congreso Nacional Iraquí daba las mismas informaciones a los periodistas diciéndoles: `Si no lo creen, llamen al Pentágono`. Así se lograba crear un circuito cerrado con tales noticias.De esa manera, el New York Timespodía decir que tenía dos fuentes de informaciones sobre las armas de destrucción masiva en Irak. Lo mismo ocurría con el Washington Post. Los periodistas no trataban de averiguar más. Por otra parte, los jefes de redacción les pedían que apoyaran al gobierno, por patriotismo".

El jefe de redacción del Washington Post, Steve Coll, renunció a su cargo el 25 de agosto de 2004, después de que una investigación mostrara el poco espacio que había otorgado a los artículos que cuestionaban la tesis del gobierno en el periodo previo a la invasión de Irak.

El New York Times también entonó su mea culpa. En un editorial publicado el 26 de mayo de 2004, reconoció su falta de rigor en la presentación de los acontecimientos que llevaron a la guerra y lamentó haber publicado "informaciones erróneas".

En Francia, los desastres mediáticos no son menores, como lo demostró el tratamiento dado por los principales medios a los casos de Patrice Alegre, del mozo de equipajes de Orly, de los pederastas de Outreau y de Marie L. que afirmaba haber sufrido una agresión antisemita en un tren de las afueras de París. El fenómeno se repite en muchos otros países. En España, por ejemplo, después de los atentados del 11 de marzo de 2004, los medios controlados por el gobierno de José María Aznar manipularon la información, tratando de imponer una "verdad oficial" al servicio de ambiciones electorales, ocultando la responsabilidad de la red Al Qaeda y atribuyendo el crimen a la organización vasca ETA.

Todos esos casos, al igual que la alianza cada vez más estrecha entre los medios de comunicación y los poderes económicos y políticos, han causado un daño terrible a la credibilidad de la prensa. Lo cual revela un inquietante déficit democrático. Domina el periodismo complaciente, al tiempo que el periodismo crítico retrocede. Cabe incluso preguntarse si a la hora de la globalización y de los megagrupos mediáticos no está desapareciendo la noción de prensa libre.

 

"Ideas sanas"

Al respecto, las declaraciones de Serge Dassault confirman todos los temores. En cuanto asumió su cargo, el nuevo propietario del diario Le Figarodeclaró a los redactores: "Desearía, en la medida de lo posible, que el diario pusiera más de relieve nuestras empresas. Creo que a veces hay informaciones que requieren mucha precaución. Por ejemplo, los artículos sobre los contratos en curso de negociación. Hay informaciones que hacen más mal que bien. El riesgo consiste en poner en peligro intereses comerciales o industriales de nuestro país". Se comprenderá que lo que Dassault llama "nuestro país" es su fábrica de armas Dassault-Aviation. Y sin duda para protegerla censuró una entrevista sobre la venta fraudulenta de aviones Mirage a Taiwán. Al igual que una información sobre las conversaciones entre el presidente francés Jacques Chirac y su homólogo argelino Abdelaziz Bouteflika, sobre un proyecto de venta de aviones Rafale a Argelia.

Recientemente, Dassault explicó que una de las razones que lo llevaron a comprar el semanario L`Express y el diario Le Figaro era que un periódico "permite difundir una cantidad de ideas sanas", lo que aumentó la inquietud de los periodistas.

Si a esas declaraciones sumamos las de Patrick Le Lay, director del canal TF1, sobre la verdadera función de ese gigante de los medios de comunicación franceses -"La función de TF1 es ayudar a Coca Cola a vender su producto. Lo que nosotros le vendemos a Coca Cola es tiempo disponible de cerebro humano"- vemos los peligros que implica esa mezcla de actividades, hasta tal punto resultan contradictorias la obsesión comercial y la ética de la información.

La citada mezcla de actividades puede ir muy lejos, sin que los lectores se den cuenta. Walter Wells, director del International Herald Tribune (que pertenece al grupo New York Times, que cotiza en bolsa), ha advertido recientemente sobre los riesgos de la entrada en el mercado de valores de las empresas de prensa. "A menudo, quienes deben tomar una decisión periodística se preguntan si la misma hará bajar o subir en algunos centavos el valor en bolsa de las acciones de la editorial. Ese tipo de consideraciones se ha vuelto capital, los directores de diarios reciben permanentemente directrices en tal sentido por parte de los propietarios financieros del periódico. Se trata de un hecho nuevo en el periodismo contemporáneo, antes no era así".

Esa confusión, que manipula y termina atrapando a los lectores, puede ir aún más lejos en Internet. Así, por ejemplo, la página electrónica de la revista económica estadounidense Forbes utiliza un nuevo procedimiento para hacer publicidad, integrando directamente los enlaces promocionales en el contenido de los artículos. Los anunciantes compran ciertas palabras-clave y cuando el cursor del internauta pasa sobre ellas, aparece un pop-up con un mensaje publicitario. Los periodistas no son informados por anticipado sobre las palabras-clave que compran los anunciantes, pero algunos ya se preguntan si dentro de poco no les pedirán que escriban artículos utilizando palabras precisas que podrían brindar importantes beneficios económicos a la empresa periodística.

La era de la inseguridad informativa

Cada vez más ciudadanos toman conciencia de esos nuevos peligros y se muestran muy sensibles respecto de las manipulaciones mediáticas, convencidos de que en nuestras sociedades hipermediatizadas, vivimos paradójicamente en estado de inseguridad informativa. La información prolifera, pero sin ninguna garantía de fiabilidad. Asistimos al triunfo del periodismo de especulación y de espectáculo, en detrimento del periodismo de información. La puesta en escena (el embalaje) predomina sobre la verificación de los hechos.

En lugar de constituir la última defensa contra los excesos derivados de la rapidez y la inmediatez, muchos diarios han fallado en su misión y han contribuido a veces -en nombre de una concepción perezosa o policial del periodismo de investigación- a desacreditar lo que otrora se llamaba el "cuarto poder". Nuestro fundador, Hubert Beuve-Méry, recordaba siempre: "Los hechos son sagrados, la opinión es libre". Pero la actitud que se propaga en los medios parece invertir esa fórmula. Cada vez más editorialistas consideran que las que son sagradas son sus opiniones -pocas veces fundamentadas- a la vez que no dudan en deformar los hechos para obligarlos a justificar sus opiniones.

En semejante contexto, en que el entusiasmo militante retrocede mientras cunde una visión pesimista del futuro, la redacción de Le MondeDiplomatique se consagra a la tarea de mejorar su contenido editorial y considera que lo más importante es no traicionar la confianza de los lectores.

Somos el periódico de la sociedad en movimiento, de la crítica social, de los que quieren que el mundo cambie. Y estamos dispuestos a mantenernos fieles a principios fundamentales que caracterizan nuestra manera de informar. Moderando la aceleración mediática; apostando por un periodismo de las luces, para disipar las sombras de la actualidad; interesándonos en situaciones que no están bajo los reflectores de la actualidad, pero que ayudan a comprender mejor el contexto internacional; proponiendo dossiers cada vez más completos, más profundos y mejor documentados sobre los grandes temas contemporáneos; yendo al fondo de los problemas, con método, rigor y seriedad; presentando informaciones y análisis inéditos, que muchas veces permanecían ocultos; y atreviéndonos a ir a contracorriente de los medios dominantes. Estamos convencidos de que de la calidad de la información depende la del debate cívico. La índole de este debate determina en última instancia la riqueza de la democracia.

Fonte: Le Monde Diplomatique

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O PT introduziu novidades na política brasileira como a democracia interna (que não conseguiu evitar desvios do grupo dirigente), o orçamento participativo, a maneira nova de organizar o mandato dos eleitos em orgânica relação com as bases. E inegavelmente o acento (embora ainda insuficiente) nas questões sociais numa perspectiva emancipatória.

Retomar tais opções é uma forma de sair da crise e ocasião para a inteligentsia do partido  repensar uma agenda voltada para o futuro. Seria um aspecto de sua renovação interna e um avanço para dentro da nova consciência que está emergindo por todas as partes. Mais e mais se percebe o caráter global dos problemas humanos e a interdependência entre humanidade e meio-ambiente. O paradigma que predominou nos últimos séculos de intervenção sistemática na natureza para utilizar todos os seus recursos está se revelando demasiadamente destrutivo especialmente na Amazônia. O aquecimento do planeta e a escassez de água potável anunciam desastres apavorantes. De uma sociedade de produção industrial há que se passar para uma sociedade de sustentação de toda a vida. De uma economia da acumulação ilimitada para uma economia do suficiente para todos. Diz a  Carta da Terra:"ou fazemos uma aliança global para cuidar da Terra e uns dos outros ou arriscamos a nossa destruição e a devastação da diversidade da vida".

Esse cenário é bem fundado, não é alarmista.  No entanto, não há consciência nos políticos da gravidade da situação que exige políticas globais que dêem centralidade à Terra. Neste quadro, o Brasil ocupa um lugar singular: somos a potência das águas, possuímos a maior biodiversidade do planeta, dispomos das maiores florestas tropicais do mundo, abunda a biomassa, fonte de energias alternativas junto com ricas reservas de materiais raros, importantes para as novas tecnologias. Além disso apresentamos um ensaio civilizatório expressivo com uma população criativa e aberta ao encontro com todas as demais culturas e sem fundamentalismos.

Concretamente significa que um Governo que pensa para frente não deve ficar refém do atual paradigma dominante que constrange a todos a reproduzi-lo. Deve criar estratégias de desenvolvimento que aproveitem estas vantagens comparativas, pois  podem beneficiar altamente a nós e a inteira humanidade.

Mais e mais percebemos que, dentro de poucos anos, o decisivo  mesmo não é a economia humana com seu PIB de 15 trilhões de dólares/ano mas a economia natural que se fôssemos pagar o que aporta gratuitamente deveríamos desembolsar 33 trilhões de dólares/ano.

Tais temas deveriam entrar na nova política pensada pelo PT. Logicamente com um pé estará dentro do sistema, pois não há como esquivar-se dele, mas com o outro deve pisar terra nova. Aqui dever-se-ão tentar novas formas de produção com a natureza e jamais à custa dela, uma economia solidária e cooperativa, modos de produção diversificados que rompam a ditadura do modo de produção capitalista.

Se no Brasil se verifica, em miniatura, toda a tragédia da humanidade sofredora, oferece-se aqui também toda a chance de construção de novo modo sustentável de viver. O Governo petista do Acre, com seu conceito de florestania, está mostrando a viabilidade deste novo olhar. Eis porque, na reconstrução do PT, tudo isso deve ser tomado em conta.

 

Fonte: www.adital.org.br

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Manuel Talens


El pasado mes de junio, cuando menos lo esperaba, vi a Dios, lo cual es algo que no suele sucederle a gente descreída como yo. Pero es que Cuba es el país de los milagros. Me encontraba en La Habana invitado por el ICAIC para asistir al IV Congreso Internacional Cultura y Desarrollo. Aquel día, después de almorzar, presenté mi ponencia sentado algo nervioso entre dos grandes figuras, Danny Glover y el brasileño Roberto Amaral. Al terminar, ya más tranquilo, desbordaba de alegría, pues a pesar de mis temores al tener que compartir tribuna con personajes ilustres, el público fue muy receptivo a mis palabras. ¡Uf!

A media tarde recibí una nota en mi habitación, que decía así: «El comandante Fidel Castro lo invita esta tarde a reunirse con él. A las 19:30 pasaremos a recogerlo junto a los demás compañeros en la puerta del hotel.»

Desde ahora mismo le confieso al lector que vivo ajeno a la fauna de quienes ejercen cargos públicos en cualquier administración, ya sea en mi país o en el extranjero. Pero hay políticos y políticos, qué carajo.

Dicen que los caribeños son poco serios en esto de la puntualidad, mas doy fe de que a las 19:30 el autocar avanzaba por las calles de la capital cubana con un cargamento multinacional de escritores, periodistas, académicos, politólogos y faranduleros culturales, que alborotaban como niños ante la inminencia del encuentro. La espera fue breve en la antesala del palacio que hay tras la Plaza de la Revolución. Y, de repente, mientras admirábamos los bustos en bronce de Lenin y Martí que allí se encuentran, se apareció Dios. La realidad suele ser más prosaica que la ficción, pues no hubo relámpagos ni ruido de truenos ni él resplandecía con el aura de luz que recuerdo en las estampas de mis libros infantiles de Historia Sagrada. Adoptó más bien el aspecto de un hombre normal, barbudo, eso sí, y con dos ojos, no uno solo que ve todas las cosas desde el interior de un triángulo. Pero era Dios, lo juro. Iba vestido de caqui y andaba tieso como esos postes de la electricidad que bordean los caminos. Y sonreía. Nos estrechó la mano (¡toqué a Dios!) y luego pasamos a un gran salón, que reconocí por haberlo visto en la película Comandante de Oliver Stone.

La audiencia fue larga. Yo no esperaba menos de una ocasión como aquella. Dios hablaba, y hablaba, y hablaba. Nosotros también, pero menos. Es un abuelo afable, reidor, culto, de exquisita educación, inteligente hasta la desmesura, amantísimo del género humano y, sobre todo, solidario. Nos contó sus múltiples batallas, pero no las de los viejos tiempos de David y Goliat, sino las recientes, que siguen obedeciendo a la misma causa porque, hoy como ayer, se libran entre unos pocos poseedores y muchos desposeídos, que decidieron resistir. Yo ya las conocía de mis lecturas, aunque siempre suenan mejor en los labios de un personaje principal. Eisenhower, Nixon, Che Guevara, Kennedy, Kruschev, Allende, Reagan, los Bush... cobraron vida en la bellísima inflexión de sus palabras, pronunciadas con una lucidez que ya quisiéramos los pobres humanos. Más tarde, a medianoche, cenamos. Nada de lujos, filete de salmón, ensalada y algún otro plato que no recuerdo. Helado de postre, café y copa de ron. Y, para remate, Dios nos dio un habano a cada uno de los asistentes. Era un cigarro puro majestuoso, de casi 20 cm, y en su vitola de tonos negros, amarillos y dorados se leía: «COHIBA, Habana, Cuba». Nunca adquirí el hábito de fumar y ni se me pasó por la cabeza la idea de convertirlo en cenizas. Carlos Tena y Gennaro Carotenuto, junto a mí, también lo pusieron a buen recaudo. En cambio, el argentino Atilio Borón, que estaba a un paso, lo encendió sin dudarlo, pero es que a él Dios le regala habanos con asiduidad y ya se sabe que las reliquias, cuando son muchas y hay confianza, pierden valor.

Nos hicimos una foto de grupo y me las arreglé para estar detrás de Dios, a su izquierda, porque el otro flanco me da urticaria. Después, nos despidió no sin antes invitarnos para una próxima ocasión, tan fresco como si acabara de levantarse tras una noche reparadora. Lo vimos desaparecer al fondo del pasillo con paso ágil de salsero. Se diría que ni los años ni la artrosis le dejan huella, deben ser las cosas de la divinidad. Tampoco entonces percibí relámpagos ni truenos ni aura de luz a su alrededor (maldito cine de Hollywood, que siempre nos engaña con sus efectos especiales). Eran las tres de la mañana.

 Dos días más tarde regresé a Europa. Dentro de mi bolsa de mano, enrollado en unas páginas del Granma, guardaba como un trofeo el habano de Dios. El vuelo es largo y llegué exhausto, con muchas ganas de meterme en la cama. Pero antes, en el jardín de la entradita, no pude resistir la tentación de desenrollar el tesoro para enseñárselo con orgullo a mi vecino. Dormí a pierna suelta mientras afuera llovía sin parar. Tras el desayuno, empecé a sacar los enseres del equipaje con el fin de colocarlos en su sitio. El habano de Dios no estaba entre las hojas del periódico. Sentí pánico, pues se me vino a la mente como un fogonazo lo que había ocurrido. En efecto, se hallaba sobre la hierba, empapado en agua y mucho menos airoso que cuando lo recibí.

Han transcurrido cinco meses y, gracias a mis cuidados, el habano de Dios recuperó sólo en parte su galanura. Pero qué más da. Derek Walcott dijo una vez que cuando rompemos una vasija el amor que reúne los fragmentos es más fuerte que el amor que dio por sentada su simetría anterior. Voy a conservarlo así el resto de mi vida y únicamente lo fumaré cuando me reúna al fin con Dios en el cielo de don Karl.

 


 

 

 

 

 

 

' WHERE Titulo = 'De cómo vi a Dios una tarde habanera - El habano de Dios'; UPDATE artigo SET Conteudo = '
El fortalecimiento de las relaciones económicas y políticas con el gobierno venezolano, acelerado luego del previsible fiasco de la Cumbre de Presidentes de Mar del Plata, ha provocado la santa indignación de la Casa Blanca y sus numerosos  voceros esparcidos. Como era de esperarse estos no tardaron en poner el grito en el cielo reproduciendo, con tonos aún más severos y amenazantes, la voz de orden del imperio. Quienes durante más de una década celebraron como una prueba de madurez de estadista la política menemista de las relaciones carnales con Washington –causante principal de la fenomenal crisis que se abatió sobre la Argentina entre 1998 y 2002- ahora se rasgan las vestiduras ante el acercamiento de la Casa Rosada al gobierno del Presidente Hugo Chávez. Si aquel disparate era una prueba de realismo y sensatez, se comprende que los publicistas del imperio caractericen al diálogo entre Buenos Aires y Caracas como una acabada muestra de resentimiento, ideologismo o nostalgia setentista. La derecha latinoamericana es de un repugnante servilismo pero hay  que reconocerle su coherencia: refleja siempre con milimétrica precisión y en tiempo real las políticas del imperio, que nunca se equivoca al identificar a sus enemigos.

Como es sabido, los cruzados de la democracia y la libertad que sientan sus reales en el eje Washington-Nueva York y que enseñan magistralmente lo que significan esos conceptos en Irak y Afganistán, o con sus aviones cargados de prisioneros políticos despachados a distintos países en donde gobiernos considerados “democráticos” se encargan de torturarlos “legalmente”, han decidido que el gobierno de la revolución bolivariana pone en peligro la democracia en Venezuela y que cualquier aproximación al mismo, o a la Cuba de Fidel, convierte al recién llegado en cómplice de todos los males imaginables. Se ignoran premeditadamente los resultados de diversos sondeos de opinión pública realizados en toda América Latina: pese a los dichos de Washington Venezuela es, de lejos, el país en donde la población muestra los más altos índices de satisfacción con la gestión del gobierno y, a causa de eso, el lugar en el cual la idea misma de la democracia es más valorada por la ciudadanía.

¿Por qué debería la Argentina plegarse a una campaña de satanización del gobierno de Chávez? ¿No es acaso evidente que aquélla forma parte de una estrategia de construcción de “mentiras que parezcan verdades” -para usar la (in)feliz expresión de Mario Vargas Llosa-, falsedades como las que aseguraban que existían armas de destrucción masiva en Irak y animada por el propósito de crear un clima de opinión internacional que consienta la agresión a Venezuela ya planificada por la Casa Blanca? ¿O es que ignoran la existencia de los documentos oficiales diseñando el “cambio de régimen”, hacia la “democracia y el libre mercado”, en Cuba y Venezuela?

Si los ideólogos de la Casa Blanca dicen que los Estados Unidos son un imperio             -¡admitiendo lo que la izquierda venía diciendo desde hacía más de medio siglo!-,  ¿por qué plegarse a las políticas imperiales –como el ALCA, por ejemplo- suponiendo que ellas se inspiran en el afán de garantizar el bienestar y la felicidad de nuestros pueblos? ¿Hemos de creer en las palabras del presidente del Diálogo Inter-Americano, Peter Hakim, cuando acusa al gobierno de Venezuela de “no estar comprometido con los principios del libre mercado”? Hakim, que por un extravío de su juventud supo apoyar al gobierno de Allende (algo de lo cual seguramente prefiere no acordarse ahora) parece desconocer que esta actitud de Chávez no hace sino reflejar el generalizado repudio que tales principios suscitan en la región. Una reciente encuesta de Latinobarómetro en 18 países comprueba que sólo el 19 % de los entrevistados manifestó su satisfacción con la economía de mercado. No obstante ello Hakim se cree autorizado para sermonear a Chávez diciento que éste “no es alguien que tome muy en serio” la cláusula democrática del Mercosur. El Diálogo Inter-Americano sí, y nos ofrece una lección práctica de democracia al repudiar descaradamente la opinión del 81 % de la ciudadanía que no cree en el mito malsano del libre mercado. Democracia “American style”, que le dicen.

Chávez, la gran innovación de la política latinoamericana en las últimas décadas, propone un nuevo y esperanzador comienzo. Y a diferencia de la Casa Blanca sus palabras son respaldadas con hechos. Aquélla se llena la boca hablando del libre comercio y la democracia, pero se aferra ferozmente al proteccionismo y los subsidios, y socava con su accionar las precariaes democracias de la región. Chávez, por el contrario, respalda sus propuestas de unidad latinoamericana con políticas concretas, que muestran que el egoísmo desenfrenado de los mercados no es la única manera de organizar la economía internacional. Petróleo barato para los pequeños países de Centroamérica y el Caribe; acuerdos de genuina complementación industrial con Argentina y Brasil, beneficioso para los países y no para un puñado de monopolios; solidaridad efectiva con la Argentina al comprar nuestros bonos de la deuda; intercambio de energéticos por asistencia médica y medicinas con Cuba, y así sucesivamente. Chávez está abriendo un camino, que significa revitalizar el desfalleciente MERCOSUR y construir un orden económico regional más justo y equitativo, mientras que Bush, como el Shylock en el Mercader de Venecia, se empecina en obtener su libra de carne mientras sermonea a sus víctimas sobre las virtudes de la libertad. Sólo gobiernos insanablemente ineptos, cobardes y antipatrióticos podrían darle la espalda a las generosas iniciativas del líder bolivariano.

 

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Hace algunos años, cuando visité el Banco Mundial en Washington, un gran cartel adornaba una de las paredes interiores de la entrada: tenemos un sueño, un mundo libre de pobreza. Esta afirmación me chocó de tal manera que tuve ganas de escribirle debajo: y gracias al Banco Mundial sigue siendo un sueño. En efecto, el propósito de mi intervención es el de mostrar la contradicción existente entre las intenciones anunciadas y las políticas llevadas a cabo, y sobre todo estudiar el vinculo que existe entre la lucha contra la pobreza y las perspectivas neoliberales.

A partir de 1972 fue que el Banco Mundial abordó el tema de la pobreza lo que se corresponde con un poco después del inicio de la adopción de una política económica mundial neoliberal, a la cual se le llamó más tarde el Consenso de Washington. Pero fue a partir de 1990 que el Banco Mundial tradujo esta perspectiva en políticas más explicitas, precisamente después de la caída del muro de Berlín y del triunfo del neoliberalismo.

Algunos años más tarde, el PNUD publicó su primer Informe sobre el Desarrollo Humano, introduciendo nuevos índices que le brindaban valor a determinados aspectos cualitativos referentes a situaciones económicas y sociales en el mundo. En 1995 hubo en Copenhague una sesión extraordinaria de las Naciones Unidas acerca del tema de la pobreza, y en 1997 se decretó la primera década de las Naciones Unidas para la eliminación de la pobreza.

El FMI, por su parte, transformó, a inicios de siglo, sus Planes de Ajuste Estructural en Programas de reducción de la pobreza y de crecimiento (Poverty Reduction and Growth Facilities - PRGF) exigiendo que cada país redactara igualmente un Poverty Reduction Strategy Paper – PRSP, algo que a finales de 2004 habían cumplido 43 países.

En lo que respecta al Banco Mundial, este habla en la actualidad de Poverty Reduction Packages (PRSP). En el año 2000, tuvo lugar en Ginebra una nueva sesión extraordinaria de las Naciones Unidas, para evaluar los resultados de la que habían tenido cinco años antes. Se le llamó Copenhague +5 (aunque algunos lo llamaron Copenhague -5) y algunos meses más tarde hubo otra reunión en la sede de las Naciones Unidas en Nueva York, que reunió a más de una centena de jefes de Estado, quienes emitieron la Declaración del Milenio, con 10 puntos, siendo el primero la erradicación de la extrema pobreza y de la mitad del hambre antes de 2015.

Al pasar el tiempo y según las intenciones, percibimos una evolución del vocabulario. Pasamos “de eliminar” la pobreza a “reducir la pobreza” y durante los últimos años, aparece el concepto de extrema pobreza asociado el del hambre. Estos últimos, según las declaraciones, deben ser erradicados progresivamente, en tanto que la pobreza debe ser aligerada. Se han fijado metas a 25 o 15 años, según el caso, pero no para resolver definitivamente el problema, sino para reducir a un tercio o a la mitad el número de los más pobres en el mundo. Ya en 1990 las Naciones Unidas propusieron disminuir a la mitad la extrema pobreza para 2015. Este objetivo fue ratificado en el 2000 por la Declaración del Milenio. Todo parece indicar que tal objetivo no será logrado. Sin embargo, vivimos en una época donde se produce más riqueza que nunca. En 50 años los ingresos mundiales han sido multiplicados por siete, pero a pesar de ello, en la actualidad, unos 1 300  millones de personas deben sobrevivir con menos de un dólar diario.

Más importante aún que la pobreza es la situación de desigualdad creciente tanto en el Norte como en el Sur. Comenzamos a hablar de pobreza relativa y de manera mucho más restringida. El Banco Mundial prepara un informe sobre las desigualdades. ¿Habrá comprendido que el problema no es sólo la pobreza, sino también la riqueza y su concentración?

Las cifras acerca de la pobreza difieren según los cálculos, los puntos de referencia y los métodos utilizados. En tanto que el Banco Mundial estimaba en 1980 que había 800 millones de pobres, precisaba en 1990 que 633 millones de personas vivían con menos de un dólar diario. En 2002 publicó la siguiente tabla que excluye a China:

 

La pobreza en el mundo según el Banco Mundial

 

Ingresos

1981

1990

2001

Menos de 1 dólar

1 481,8

1 218,5

1 099

Menos de 2 dólares

2 450,0

2 653,8

2 735

Menos de 1 dólar

31.7 %

26.1%

22.5%

Menos de 2 dólares

58.8%

56.6%

54.9%

 

Fuente: S. Chen y M. Ravallon, How have the world’s poorest fared since early 1980’s, World Bank Policy Research working Paper 3341, junio 2004, citado por Francine Mestrum, 2005.

 

Algunos estiman que el cálculo del Banco Mundial está muy restringido y, en consecuencia, es demasiado optimista. La UNTAC, a través de encuestas familiares, ha llegado a estimar cifras de pobreza más elevadas. La CEPAL (Comisión Económica de las Naciones Unidas para América Latina) ha llegado a conclusiones similares [S. Chen y M. Ravallon, 2004, 334]. La tabla del Banco Mundial brinda, en efecto, una interpretación relativamente optimista: la extrema pobreza disminuye en cifras relativas y absolutas y la pobreza declina al menos en las cifras relativas. Pero esto significa también que en el espacio de 20 años hay casi 300 millones de pobres más en el mundo. A veces olvidamos que los pobres no son estadísticas, sino personas y salir de la pobreza es el más elemental de los derechos del hombre.

Según el Informe sobre el Desarrollo Humano del PNUD, en 2003, 54 países eran más pobres en 2000 que en 1990 y 34 habían visto disminuir su esperanza de vida. Entre 1980 y 1998, 55 países tuvieron descenso en sus índices económicos y durante la década, 34 países descendieron en la escala de los indicadores de desarrollo. No es entonces posible hacer un balance favorable a escala mundial, sobretodo si tenemos en cuenta que incluso el crecimiento económico, que se esperaba que constituyera la fuente de disminución de la pobreza, fue menor para los países del Sur a partir de los años 80, es decir, ha sido menor durante el periodo neoliberal que durante el periodo precedente conocido por sus regulaciones (keynesianismo o desarrollo nacional).

Todo lo anterior nos lleva a cuestionarnos la definición de la pobreza. Las cifras expresadas muestran que es difícil de medir y que se mezcla una fuerte dosis arbitraria. A las cifras de por debajo de uno o dos dólares, hay que añadirles un dólar fluctuante, aunque al menos tienen la ventaja de ofrecer una visibilidad concreta. También habría que añadir una serie de consideraciones cualitativas, que no dejan de ser interesantes, pero que revisten también grandes ambigüedades, como lo señala con pertinencia Francine Mestrum [2002].

En efecto, no se puede negar que la pobreza posee aspectos cualitativos: baja calidad de vida, dificultades de acceso a la educación y a la cultura, ausencia de higiene, sin embargo, el problema consiste en saber a qué se le atribuyen esos factores. Una parte de la literatura trata de culpabilizar a los pobres y esto no es nuevo en la historia. ¿Es el conjunto de estas carencias lo que es la causa de la pobreza o ella es el fruto de estas insuficiencias? En la actualidad, hablamos fácilmente de la demografía galopante, de los malos Gobiernos, de la corrupción, hechos que en este tipo de discurso aparecen como la causa de los problemas de los países del Sur.

Por otra parte, tenemos el mismo problema para analizar los mecanismos de disminución de la pobreza. Se puede leer en el Informe acerca de la pobreza en Vietnam lo siguiente: “los logros de Vietnam, en lo que respecta a la reducción de la pobreza, son el mayor éxito conocido en materia de desarrollo económico” [Vietnam Consultative Group Meeting, 2003, xi]. El Grupo atribuye este resultado principalmente a la integración creciente de la agricultura vietnamita dentro de la economía de mercado. Poca atención se le brinda en este documento al hecho de que la economía socialista había logrado sacar al país de una situación desesperada, dada la consecución de guerras. [F. Houtart, 2004]. Es verdad que si seguimos los criterios del Banco Mundial, la mayoría de la población vivía en la pobreza (menos de dos dólares por día), pero era una pobreza compartida con dignidad, porque las necesidades de base estaban garantizadas generalmente. Se trataba de una austeridad real, sin miseria y sin desigualdades crecientes. El hecho de que, sobre esta base, la introducción de algunos mecanismos de mercado haya acelerado un crecimiento general, no es nada asombroso. ¿Cómo se puede explicar que en América Latina, por ejemplo, donde el mercado es ley desde hace mucho tiempo, los resultados no sean similares? ¿Cuál será el futuro de la sociedad vietnamita, el día en que todos los mecanismos reguladores sean abolidos, según los cánones del Banco Mundial?

Francine Mestrum llega a la conclusión de que la pobreza debe definirse “como la falta de medios de existencia” y añade que “en una economía de mercado esto significa la falta de medios financieros” [Francine Mestrum, 2005]. Para comprender la pobreza, hay entonces que conocer el tipo de relaciones sociales existentes y sus mecanismos de reproducción, porque la pobreza se construye socialmente. Ella no es un hecho natural [Alternatives Sud, vol VI (1999), No 4]

Los documentos del Banco Mundial y del FMI, para no hablar de aquellos de la OMC, trazan con mucha convicción la vía hacia la reducción de la pobreza. Ellos parten de una evidencia: hay que aumentar el crecimiento, porque no se puede compartir un pastel sin haberlo producido. La manera de aumentar el crecimiento, según esta perspectiva, es permitirle al mercado funcionar y, en consecuencia, liberalizar la economía, quitar todos los obstáculos para el intercambio de los bienes, los servicios y los capitales,  privatizar al máximo las empresas del Estado y los servicios públicos y desregular las protecciones sociales que frenan este proceso. A la larga, esto beneficia a los pobres los que, en el peor de los casos, podrían disfrutar del efecto colador (trickle down) algo que podríamos traducir como recoger las sobras.

Para lograr esta política de crecimiento que debería disminuir la pobreza, han sido tomadas medidas concretas a nivel macroeconómico, en particular han sido puestas en marcha las políticas monetaristas del FMI. En esta perspectiva también podemos situar las condiciones que se le han puesto a los créditos de los Estados, es decir, la disminución de sus gastos, la privatización de los servicios públicos, de la enseñanza superior, de  la salud, el pago de la deuda para asegurar la credibilidad de las inversiones y de los créditos, la apertura de mercados, los incentivos a los capitales exteriores, la desregulación del trabajo, y otra buena cantidad de elementos. La lucha contra la pobreza está programada en este contexto, con el fin de remediar las consecuencias no deseadas, y sin duda inevitables, de la dinámica del mercado.

Ahora bien, debemos preguntarnos acerca de los resultados sociales reales de estas políticas. Los ejemplos abundan. En Bangladesh, la industria textil, en gran parte deslocalizada hacia un país “más competitivo”, ocupa dos millones de trabajadores, sobre todo muchachas jóvenes (85%). Según un testigo: “ellas trabajan 12 horas diarias, a menudo los 7 días de la semana, por un salario de 13 a 30 euros mensuales. Encerradas bajo llave, registradas a la salida, estas asalariadas no tienen el derecho de hablar entre ellas. La libertad sindical es totalmente teórica, las subversivas son despedidas y cerca de 300 trabajadoras han muerto en incendios desde 1990” [Le Monde Diplomatique, agosto 2005].

En Sri Lanka, el Banco Mundial decidió en 1996 que debía desaparecer el cultivo de arroz, porque costaba menos caro si se compraba en Vietnam o en Tailandia. Como los pequeños campesinos no querían abandonar la producción, el Banco Mundial impuso, primero, al Gobierno desmantelar los organismos del Estado destinados a regular el mercado y a apoyar a los pequeños campesinos y también impuso un impuesto (privatizado) sobre el agua para el riego. Más tarde, le exigió al Gobierno que distribuyera títulos de propiedad (las tierras para el cultivo de arroz eran colectivas) con el fin de favorecer las ventas de las tierras a bajos precios a las empresas nacionales o extranjeras que estaban dispuestas a promover cultivos de exportación.

Para responder a lo que el Banco Mundial llama un crecimiento a favor de los pobres (pro-poor growth) el Gobierno de Sri Lanka publicó el Poverty Reduction Strategy Paper con el título de Regaining Sri Lanka. En este informe se afirma, entre otras, que este plan significaría una real oportunidad para el país, porque el millón de pequeños campesinos que producían arroz, se transformarían en mano de obra barata, lo que permitiría atraer al capital extranjero. Pero como esta política se lleva a cabo desde hace cuarenta años, el movimiento de trabajadores ha podido hacer presión para mejorar las condiciones de vida y de trabajo. Resultado: la mano de obra se ha vuelto muy cara, y los capitales se han ido hacia China o Vietnam, donde es más ventajosa. Con toda lógica, el Gobierno de Sri Lanka ha llegado a la conclusión que hay que reducir los salarios, disminuir la cobertura social y amputar las pensiones, con el fin de hacer más competitiva a la mano de obra, lo que en palabras de Sarath Fernando, responsable del movimiento campesino MONLAR: “resulta asombroso que para promover un crecimiento a favor de los pobres, haya primero que crear los pobres”.

El Banco Mundial exige en la actualidad que, para la elaboración de estas políticas se tengan en cuenta las tradiciones culturales, la organización social y los valores. Solicita igualmente una participación de la sociedad civil. Pero en la realidad, las organizaciones son consultadas de manera selectiva. Las más radicales no son tomadas en cuenta. Los documentos son rara vez traducidos del inglés (en Camboya, ellos no existen en  la lengua del país, en Sri Lanka el documento del Gobierno está escrito en inglés americano). En los raros casos en que ha tenido lugar una consulta real, los planes han sido o rechazados o reemplazados por propuestas alternativas (caso de Sri Lanka).

Podríamos pensar que se trata de estrategias de lucha contra la pobreza a largo plazo, las cuales exigen, desgraciadamente, sacrificios inmediatos. De hecho, la lógica va más lejos. Según los documentos del Banco Mundial, individualizar el proceso de reducción de la pobreza significa liberar a los pobres de una dependencia de un sistema alienante de protección social y, en consecuencia, hacerlos dueños de su propio destino. Esta idea liberal es aparentemente generosa, pero está seriamente contradecida por las relaciones sociales de un mercado donde gana el más fuerte, por las privatizaciones que hacen cada vez más difícil el acceso a la educación, a la salud, al agua, a la electricidad, y por supuesto, lo hace menos accesible a los pobres, y por la transformación de las políticas sociales, las cuales pasan de un sistema de protección (bastante ya aleatorio en el Sur) considerado como un derecho, a la puesta a disposición de servicios privatizados bajo formas de contratos.

Hay que añadir que, según los estudios de Dante Salazar, los programas de lucha contra la pobreza no le llegan prácticamente nunca a los más pobres. Es solo una capa media de la pobreza la que se beneficia, porque los complejos mecanismos de las políticas de lucha contra la pobreza, asociados a la estructura de las relaciones sociales, dejan fuera a los más pobres [Dante Salazar, 1999, 47-62].

Ahora bien, incluso en el marco de los parámetros existentes, habría solamente que consagrar una modesta parte de las riquezas creadas para la satisfacción de las necesidades fundamentales de toda la humanidad, es decir, para la erradicación de la pobreza. En 1997, el PNUD calculaba que estos serían aproximadamente 80 millares de dólares por año. Jeffrey Sacks por su parte, Consejero del Secretario General de las Naciones Unidas, evalúa el costo del programa del Milenio en 133 millares de dólares en 2006, pasando a 195 millares en 2015. Es suficiente ver los más de 400 millares de dólares de deuda de los países del Tercer Mundo en 2004, o los 900 millares de dólares de gastos de armamentos (417 millares de los Estados Unidos) o los 3 o 4 trillones de dólares depositados en los paraísos fiscales, para darnos cuenta que la solución del problema es posible. Por otra parte, incluso en condiciones adversas considerables, algunas sociedades han logrado eliminar en pocos años el analfabetismo, la miseria y las enfermedades endémicas, sin disponer de sumas comparables ni de Planes Marshall. Este ha sido el caso, entre otros, de China, Vietnam, Cuba y Venezuela, el cual lo está haciendo en este momento. Resulta entonces claro que, la lucha contra la pobreza tal y como es concebida por el Banco Mundial, se inscribe en un marco político general que contradice su realización. La razón se encuentra en la filosofía que el anima y cuyos fundamentos se encuentran en el propio seno del proyecto económico neoliberal.

No se trata para nada en nuestro caso de hacer un proceso de intención, sino más bien de comprender las estrategias en que se basan las aplicaciones concretas de la lucha contra la pobreza. Hay que constatar que estas se insertan en una lógica económica global que no es inocente, porque favorece a unos y desfavorece a otros, creando de esta manera, bajo las bases constantemente renovadas como consecuencia de las nuevas tecnologías, desigualdades y antagonismos de clases. El liberalismo económico considera al mercado como un hecho natural, en consecuencia indiscutible, y no como una construcción social que depende de las circunstancias concretas de su funcionamiento. En la lógica del capitalismo, las relaciones mercantiles solo pueden ser desiguales, porque son la propia condición para la acumulación privada del capital.

Dicho esto, retomemos la lógica de la lucha contra la pobreza. Ciertamente esta se opone al pensamiento liberal o al de los ultra del neoliberalismo, que consideran a una parte de la humanidad incapaz de integrarse al mercado, masas inútiles porque no son productoras de un valor agregado y no son consumidoras (ver la crítica que le hizo a esta posición Suzan George, 2002). Por el contrario, hay que ayudar a los pobres a integrarse al mercado, ya sea haciéndolos capaces de vender su fuerza de trabajo, ya sea transformándolos en pequeños empresarios (capitalistas descalzos) lo que explica, entre otras cosas, la importancia que se le da al microcrédito integrado al sistema bancario.

Nada cambia entonces con respecto a las orientaciones del Consenso de Washington. Por el contrario, la lucha contra la pobreza se inserta como un onceavo principio a los diez ya formulados, porque permite la extensión de la lógica mercantil hacia sectores que habían quedado fuera de la acumulación capitalista, tales como la agricultura campesina y los servicios públicos. Ella inserta a los pobres en estrategias individualistas que contribuyen a debilitar a las luchas sociales colectivas. Ella permite conjurar a un peligro potencial para los ricos, tal y como dijo Kofi Annan en el Forum Económico Mundial (Davos), en su reunión en Nueva York en 2004. Ella contribuye a contener las desigualdades, indispensables para estimular el crecimiento, bajo límites razonables, evitando así explosiones sociales. En resumen, como dice Francine Mestrum, ella crea “una pobreza dócil, respetuosa, que se consuela con un poco de dinero” [F. Mestrum, 2005].

Recordemos que la definición de pobre y la actitud hacia este ha constituido uno de los problemas de los sistemas económicos generadores de desigualdades. Hubo un periodo en que el estatus de los pobres estaba vinculado con una lectura religiosa de la sociedad: pobre era aquel que, él o sus ancestros, habían pecado, y rico era aquel que estaba bendecido por Dios, el pobre era aquel que no había acumulado suficientes méritos en sus reencarnaciones, el pobre era aquel que le permitía al rico ganar el cielo, gracias a su generosidad. Por otra parte, la culpabilización del pobre conducía entonces a la criminalización de la pobreza y a identificar al indigente con el delincuente. La burguesía industrial del siglo XIX en Europa usó ampliamente las visiones de los siglos precedentes, pero adaptándolas a los nuevos datos de una cultura secular y de sus relaciones sociales de capitalismo industrial. Los obreros explotados al máximo, debían participar en el progreso económico sacrificando la calidad de su existencia. Los pobres no integrados en el sistema e incapaces de vender su fuerza de trabajo, eran considerados como marginales, a menudo irrecuperables. Era la asistencia o la caridad quienes debían responder a las necesidades de los pobres, satisfaciendo así las aspiraciones humanistas de algunos ricos, pero excluyendo una transformación de las condiciones del trabajo o de las relaciones de poder en el campo económico.

En la actualidad, nos encontramos ante la misma lógica. Michel Camdessus, cuando era director del FMI, hablaba de las tres manos: la invisible del mercado (base del sistema), la reguladora del Estado (que crea las condiciones favorables al mercado) y la de la caridad, para aquellos excluidos. Verdaderamente podemos recordar lo que señalaba Georges Simmel, sociólogo alemán, que escribió en 1905, hace ya cien años: “la lucha contra la pobreza responde siempre a las necesidades de los que no son pobres” [citado por F. Mestrum, 2005].

La pobreza es un problema social históricamente construido. En una economía de mercado capitalista, debe ser analizada bajo la luz de las relaciones sociales existentes, tanto en el interior de cada sociedad, como en un plano mundial, en particular en el plano de las relaciones Norte Sur. Ciertamente, los contextos climáticos, geográficos, demográficos, tienen un rol importante, pero siempre al interior de la manera en que se construyen económica y políticamente las sociedades.

En el mundo actual, aparte del caso de las catástrofes naturales, cuyos efectos más o menos destructivos están también vinculados con la organización social, o de los hechos de guerra, igualmente producidos por factores políticos y económicos, la miseria y la pobreza son dominables. No hay excusas para su reproducción y es inaceptable ponerle plazos tan largos a su erradicación. La riqueza producida puede satisfacer todas las necesidades. Pero desgraciadamente, el problema no es solamente el reparto desigual, sino el hecho de que la producción de la riqueza, tal y como se concibe en la lógica capitalista, se apoya en la pobreza: los working poor en la versión anglosajona, los desempleados en la de Europa continental, los mal pagados en las economías emergentes, las masas inútiles en el Sur. Peor aún, el crecimiento está condicionado por la reducción de las protecciones sociales, la privatización de los servicios y el aumento de las desigualdades.

Es sobre este telón de fondo que se inserta una lucha contra la pobreza, que desarrolla un discurso altruista y político, ya sea asistencial, ya sea puntualmente válido (pequeño crédito, formación técnica), pero estructuralmente desviado por el contexto global. Cavar pozos o mejorar los caminos vecinales contribuye, sin dudas, a mejorar la situación de las poblaciones. Pero tales iniciativas tienen solo una eficacia aleatoria, cuando al mismo tiempo, las políticas macroeconómicas tienen como efecto acrecentar la precariedad de los trabajadores, concentrar la riqueza, romper las protecciones sociales, eliminar el patrimonio colectivo por privatizaciones intempestivas, consagrar los recursos públicos a gastos rentables para el capital pero no productivos, o incluso dañinos para las poblaciones (sobrearmamentismo, por ejemplo) y de destruir el medio ambiente, sobre todo el de los más vulnerables.

Hay entonces que saltar al barco de la lucha contra la pobreza, en función de intervenciones de carácter inmediato, pero cuyo precio a pagar es la sumisión a un orden económico y social que las contradice a mediano término y las transforma en un barril de Danaides, es decir, sin fondo, o en un trabajo de Sísifo, que siempre hay que volver a comenzar. Los pobres sufren y mueren hoy y no mañana y, en consecuencia, hay que actuar. Pero al mismo tiempo, la máquina que lo fabrica está en marcha y es alimentada por el Banco Mundial, el FMI, los bancos regionales, la OMC y todo el aparato institucional del neoliberalismo.

Es entonces necesario continuar la obra, con sus momentos sublimes y sus errores dramáticos, de transformación del sistema económico capitalista y de sus expresiones políticas y culturales. Es un combate a largo plazo, sin el cual la lucha contra la pobreza no tiene sentido. Al mismo tiempo, pero sin perder de vista la dimensión política, es indispensable trabajar día a día en el terreno, no con una perspectiva asistencial, ni individualizando las soluciones, sino buscando reforzar una acción colectiva, reconstruyendo los mecanismos públicos de consolidación social y reduciendo las desigualdades. Ahora bien, hay que estar concientes de que el contenido del discurso y los objetivos actuales de los programas de lucha contra la pobreza no van en ese sentido. Sean cuales sean las intenciones o los efectos positivos inmediatos de algunos de estos programas, la denominada lucha contra la pobreza es el parabán de las políticas neoliberales y del desarrollo capitalista.

Alternativas existen. Antes de todo debemos recordarnos que la lucha contra la pobreza es en primer lugar la lucha de los pobres, mejor dicho, de los empobrecidos. Son ellos que logran sobrevivir y que luchan para mejorar sus condiciones de vida. Otra filosofía es posible para suprimir los obstáculos a la liberación de la pobreza, considerando la economía como la actividad humana produciendo las bases materiales de la vida física, cultural y espiritual de todos los seres humanos en el mundo.

Otras políticas pueden acompañar el camino hacia la emancipación de los empobrecidos y las conocemos. La humanidad de hoy tiene los medios intelectuales y materiales de aplicarlos a todos los niveles, desde la utopía del “Bien de todos”, hasta las alternativas a medio y a corto plazo. Eso es el compromiso moral que tenemos. Ojalá las grandes corrientes del pensamiento profético y emancipativo, donde José Martí jugó un gran papel, nos inspiren en esta tarea.

 

BIBLIOGRAFÍA

 

1.      Alternatives Sud, Comment se construit la pauvreté?, Vol. VI (1999), n° 4.

2.      CHEN J. y RAVALLON M., Competing Concepts of Inequality in the Globalization Debats, World Bank Policy Research Working Paper 3243, marzo 2004.

3.      HOUTART F., Hai Van, la double transition d’une Commune vietnamienne, París, Les Indes Savantes, 2004.

4.      MESTRUM F., La lutte contre la pauvreté, utilité politique d’un discours dans le Nouvel Ordre Mondial, in AMIN S. y HOUTART F., Mondialisation des Résistances - L’état des luttes 2002, París, L’Harmattan, 2002.

5.      MESTRUM F., Mondialisation et pauvreté, Paris, L’Harmattan, 2002.

6.      MESTRUM F., De Rattenvanger van Hameln, Amberes, Epo, 2005.

7.      SALAZAR TRAZONA D., Comment remédier à la pauvreté résultant de la coopération internationale? Alternatives Sud, Vol. VI (1999), n° 4.

8.      Vietnam Consultative Group Meeting, Vietnam Development Report 2004, Hanoi, diciembre 2 - 3, 2003.

 

 

 

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El severo rechazo a la diplomacia de Bush en la Cumbre de las Américas en Mar del Plata, Argentina, el 4 y 5 de noviembre pasado, fue, en cierto sentido, la culminación de casi dos siglos de difíciles relaciones entre Estados Unidos y el resto del continente americano. No surgió de la nada, y seguramente no es el fin de la historia, que, desde el punto de vista estadunidense, va cuesta abajo constantemente.

Con la doctrina Monroe, desde 1823 Estados Unidos proclamó que América, el continente, era su reserva privada. Con esta doctrina Estados Unidos saludó la independencia de muchas de las antiguas colonias de España y advirtió a las potencias europeas que no intentaran entrometerse nunca más en el continente. Por supuesto no se le extendió un reconocimiento semejante a Haití, Estado dominado no por colonizadores blancos sino por ex esclavos negros y colorados libres. Washington se negó a reconocer a Haití hasta 1862 (cuando la secesión de sus estados esclavistas alivió algo de la presión que pesaba sobre el gobierno estadunidense). Sin duda Estados Unidos no tenía manos libres en América Latina; durante todo el siglo XIX Gran Bretaña era todavía la fuerza económica (y política) dominante en la región.

Pero lentamente Estados Unidos estableció su primacía en México (después de varias escaramuzas militares), en el Caribe (especialmente después de la guerra hispano-estadunidense) y eventualmente en Sudamérica. A principios del siglo XX se sintió en libertad de arrancar a Panamá de Colombia (para construir el canal) y de enviar marines a imponer su orden (y defender sus intereses corporativos) en varios estados centroamericanos y caribeños presumiblemente soberanos.

La política del gran garrote que implicó una intrusión imperial abierta, fue básicamente la única que ejerció Washington hasta 1933, cuando Franklin Roosevelt proclamó en sustitución la política del buen vecino, y la aplicó a Cuba, México y Puerto Rico, entre otros sitios. Después de eso no se abandonó del todo el gran garrote (la invasión de Bahía de Cochinos en Cuba en el periodo de Kennedy, los marines enviados a República Dominicana en el gobierno de Johnson, la invasión de Granada con Reagan y la de Panamá en el régimen de George Bush padre). Tampoco debemos olvidar las innumerables veces que Estados Unidos respaldó de modo encubierto golpes militares (notablemente en Guatemala, Brasil, Chile y -sin éxito- en 2002 en Venezuela). Pero el gran garrote alternaba con diplomacia más suave. Y fue una diplomacia más suave la que George W. Bush intentó usar de manera torpe en Mar del Plata.

No funcionó. ¿Por qué? Mientras que en cierto sentido Bush no intenta nada nuevo en América Latina, pues meramente continúa en la región las políticas de sus predecesores, sus aventuras en Irak han estorbado la capacidad de que esta política funcione. Al tratar de empujar -de manera muy lamentable- su política de intimidación machista en Medio Oriente, Bush ha minado radicalmente el nivel de respaldo mundial para su país y al tiempo ha amarrado los instrumentos de su fuerza (militar, financiera y política). La culminación de dos siglos de dominación en América Latina es la imagen de Estados Unidos como un gigante con los pies de barro. Tan sólo miremos la serie de golpes al poderío y el prestigio estadunidenses que se asestaron antes y durante Mar del Plata.

El presidente de Argentina, Néstor Kirchner, abrió la reunión con un discurso en el que declaró que Estados Unidos tenía la "inescapable e inexcusable" responsabilidad por las políticas que condujeron a la pobreza y a una tragedia social en América Latina. Específicamente citó el consenso de Washington y las políticas de ajuste estructural del Fondo Monetario Internacional. Pese a que éste es el lenguaje tradicional de la izquierda en América Latina, es probablemente la primera vez que el anfitrión de una reunión internacional dice esto en público con el presidente estadunidense enfrente. ¿Se retiró Bush? No, refrenó la lengua y se concretó a alabar a Kirchner por las mejoras que ha logrado en la economía argentina.

Entretanto, Hugo Chávez, el presidente de Venezuela que se ha tornado la gran némesis de Estados Unidos, habló frente a un público vasto, y denunció las perfidias de Washington. Se le unió, entre otros, el gran héroe del futbol argentino (y de América Latina) Diego Armando Maradona, quien aprovechó la ocasión para decir que "Fidel (Castro) es Dios, y Bush es un asesino". Puede que las estrellas del soccer no califiquen como analistas políticos, pero tienen mucha influencia en la opinión pública.

La reacción estadunidense a Kirchner e incluso a Chávez fue suave porque Estados Unidos se concentraba en que saliera algo de la cumbre -un compromiso, la confirmación de un compromiso-: lograr el Area de Libre Comercio de Las Américas (ALCA). Aquí Estados Unidos se topó con un bloque de granito: los cuatro estados que conforman el Mercosur -Brasil, Argentina, Uruguay y Paraguay-, más Venezuela, dijeron que no. El presidente de México, Fox, intentó reclutar a los otros, pero sin Brasil, Argentina y Venezuela el ALCA está, como proclamó Chávez, "muerto y lo estamos enterrando aquí". Y mientras, esos mismos países fortalecen sus lazos económicos con Europa y China en detrimento de Estados Unidos.

Bush ha impulsado dos cosas en América Latina: el ALCA, ahora muerto, y aislar a Cuba. Aunque Cuba no fue invitada a la cumbre (Bush no habría venido en ese caso), justo pocos días después la Asamblea General de Naciones Unidas votó una vez más -y con la más alta votación hasta el momento (182 a 4, con una abstención y cuatro países que no votaron)- en favor de poner fin al bloqueo a Cuba. Lo más que pudo lograr Estados Unidos de América Latina fueron dos "no votos", de Honduras y Nicaragua.

Finalmente, aunque en Mar del Plata México fue uno de los pocos defensores públicos de Estados Unidos respecto del ALCA, poco días antes México había ratificado el tratado de la Corte Internacional de Justicia, y específicamente rehusó firmar el llamado acuerdo bilateral de no rendición que Estados Unidos insiste en obtener en todas partes para sus propios soldados.

La doctrina Monroe está muerta. Y pocos lo lamentan.

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Ajuste social de longo prazo

Roberto Amaral

Nenhum dos problemas com os quais o país se depara hoje,  nem o problema social, nem o da dívida (seja a econômica, seja a social), nem o problema político, nem a crise urbana, nem a questão rural, nem o problema da educação, nem as carências da ciência e da tecnologia, nada será redimido se este país não retomar o desenvolvimento. Ao contrário: sem ele, sem crescimento econômico associado à distribuição de renda, todos os nossos problemas serão agravados – e estão sendo agravados e serão agravados enquanto o país não retomar uma taxa de crescimento de pelo menos 6% ao ano.
Não é querer muito. Nos anos do presidente JK, crescemos acima de 8%. No início da República, com Campos Sales e Epitácio Pessoa, crescemos acima de 7% ao ano. Não somos contra o superávit primário em si, mas somos contra um superávit primário de mais de 6%. Por que 6,3% e não 5%? Por outro lado, pagamos US$ 85 milhões de juros da dívida, e estamos, este ano, contraindo uma dívida US$ 120 milhões. Estamos, portanto, fazendo um esforço brutal, em prejuízo da qualidade de vida de nosso povo, comprometendo nosso futuro, mas sem nenhum resultado prático. Trata-se de um esforço inútil, que significa simplesmente  enxugar  gelo, ou molhar água, ou tentar inundar o mar.
A primeira distorção está na política econômica em si, transformada em ente autônomo. A saber, ao invés de termos uma política de governo, um projeto de governo e um projeto de Nação determinando a política econômica, temos uma política econômica determinando a vida da Nação e de seu povo. Seria aceitável a atual política econômica como tática de curto prazo, como meio subordinado a um determinado objetivo, e não como estratégia – não como fim. Podemos aceitar o arrocho, mas arrocho para quê? Com qual objetivo? Para beneficiar quais setores da sociedade? Ou, por outras palavras: quais os setores de nossa sociedade que se estão beneficiando com a atual política? Ela favorece a distribuição de renda ou a concentração de riqueza? Na verdade, em nome do saneamento das finanças estamos aumentando a exclusão social.
Por que um superávit tão alto? Por que não negociar sua redução, para dispor de uma pequena folga para investimento? Concordamos que devemos mostrar aos banqueiros internacionais que podemos pagar nossas dívidas e honrar nossos compromissos, mas precisamos também mostrar que somos uma economia viável. Se em vez de um superávit de 6,3%, tivermos um superávit de 5%, continuaremos confiáveis e ganharemos uma folga de quase R$ 20 bilhões de reais para investir no desenvolvimento do País.
Em todo o período em que se manteve de pé política que começou com Fernando Collor e chegou ao extremo no principado de FHC, crescemos, na média, em torno de 2% ao ano. Isto é inferior à taxa de ingresso anual da população economicamente ativa no mercado de trabalho, e muito, muito abaixo da média mundial. Dito em outras palavras, empobrecemos. As previsões indicam, agora, que, em 2005, cresceremos, menos de 3%, portanto abaixo da média mundial, que será algo entre 5% e 6%?
A combinação de juros altos com dólar desvalorizado, temperada com altos tributos e concentração de renda, é explosiva. É preciso evitar que voltemos aos tempos de Fernando Henrique Cardoso, quando, para o empresariado, era mais  seguro e rentável comprar título do governo do que investir na produção.
Nosso empobrecimento, medido pelo PIB, se observa tanto em termos relativos quanto em termos absolutos. Empobrecemos do ponto de vista absoluto, porque perdemos a capacidade de assimilar a mão de obra brasileira e estamos perdendo do ponto de vista relativo porque nosso crescimento é negativo (como nos governo Collor e FHC). Estamos ampliando a distância descomunal que nos separa dos países do primeiro mundo – que já estão à nossa frente uns cinqüenta anos. Os Estados Unidos crescem a uma média superior a 4,3%.
Mesmo em comparação com os chamados países emergentes, nossa taxa de crescimento é sofrível. A China, há 10 anos, cresce  a médias de 10% ao ano. A Coréia do Sul, que estava atrás do Brasil em todos os pontos de vista há 20 anos, hoje está à nossa frente em todos os pontos que se queira examinar. A Rússia, que foi desmantelada, transitando do regime do capitalismo de Estado, para o capitalismo selvagem, está crescendo a mais de 6%. A Índia, crescendo a 9%. Ou seja, também do ponto de vista relativo, dos nossos companheiros de viagem, estamos perdendo o bonde da história. Mas dirá o BC: estamos com nossas finanças saneadas.
Issso numa fase rara e invejável da economia mundial, que é de crescimento generalizado, do qual não nos estamos aproveitando.
Por que não podemos crescer? Porque, dizem os fundamentalistas do BC, o crescimento pode reanimar a inflação. Mas só no Brasil?
 Os recursos para investimentos têm apenas duas fontes: o poder público e o capital privado. Pois o setor privado nacional está engessado pelas altas taxas de juros e pela carga tributária. O poder público, que tem maior capacidade de investimento, inverteu suas prioridades e aloca seus recursos para pagar a dívida pública e a dívida externa. A estagnação aumenta o desemprego, a pobreza, a concentração de renda e a exclusão. Isto é um círculo vicioso que um dia vai estourar.
Onde vai estourar? Na crise social. E é evidente que isso não é culpa do governo Lula. Isto é fruto de um modelo de desenvolvimento predatório – que está estourando em toda parte. Está estourando na França, está estourando na Bélgica, está estourando na Alemanha. Já estourou na Argentina. Está estourando na América do Sul. O que é que estamos esperando?
O PSB é um partido unificado politicamente, tendo como base de trabalho um projeto comum. Projeto este que tem como fundamento não dissociar a política econômica do bem-estar social. Portanto, nosso compromisso com a governabilidade não significa ignorar divergências com políticas do governo que apoiamos. Temos divergências e as expressamos, pois o dever do aliado leal é dizer ao companheiro que ele está errado, e indicar alternativas.


Roberto Amaral é ex-ministro da Ciência e Tecnologia.

 

' WHERE Titulo = 'Ajuste social de longo prazo'; UPDATE artigo SET Conteudo = 'A América Latina foi uma vítima particular das políticas neoliberais, que começaram no continente – no Chile e na Bolívia -, generalizando-se para a quase totalidade do seu território. As políticas de integração não ficaram isentas dos efeitos desintegradores dessas políticas. A década de 1980 já viu o surgimento de dois projetos antagônicos: o Mercosul, integrado inicialmente pelo Brasil, a Argentina, o Uruguai e o Paraguai. E o Tratado de Livre Comércio da América do Norte.

                   A crise mexicana de 1994 representou um freio a este último. Praticamente no mesmo momento em que era formalizado – e em que o Chile era apresentado como o próximo candidato a integrar-se -, a crise mexicana tirou da presidência dos EUA o direito ao chamado “fast track”. Este teve então que apelar para um projeto que havia ficado na gaveta: a Área de Livre Comércio das Américas (ALCA). Configurou-se assim um campo de enfrentamento entre um projeto de integração latino-americano e outro do conjunto do continente, em que a diferença – substancial – era a participação dos EUA nesta última representando 70% do PIB do total dos países e configurando assim mais a consolidação de uma hegemonia do que um processo de integração.

                  Eram tempos de extensão quase que ilimitada dos modelos neoliberais, dos quais a ALCA seria o complemento funcional. Essa tendência foi fortalecida com a crise brasileira de 1999, em que a brusca e grande desvalorização da moeda brasileira afetou diretamente a balança comercial com a Argentina, golpeando diretamente os graus de integração logrados no Mercosul.

                   No entanto, paralelamente foi se intensificando uma tendência nova: a vitória e evolução ideológica de Hugo Chávez na Venezuela, ao lado da queda de Fernando de la Rua e da derrota de Carlos Menem na Argentina, assim como a do candidato de Cardoso no Brasil, com as vitórias de Lula e Nestor Kirchner, mais tarde de Tabaré Vazques no Uruguai, foram gerando um quadro distinto para os processos de integração regional.

                   Desses fenômenos, dois deles tem peso determinante na mudança do quadro regional, do ponto de vista da integração: o governo de Hugo Chávez e o dinamismo e capacidade de iniciativa do governo brasileiro. O governo venezuelano, especialmente depois da vitória no referendo sobre a oposição, conquistou um espaço importante e se aproveitou para oxigenar o processo de integração. Este se deu, por um lado, através da constituição de uma espécie de coordenação da integração, entre os presidentes do Brasil, da Argentina e da Venezuela – as três principais economias da América do Sul. Esta coordenação promoveu reuniões setoriais entre ministros do setor energético, do de políticas sociais e da área econômica.

         No final de 2005, a Venezuela ingressou como membro pleno do Mercosul, enquanto o coordenador geral, o argentino Chacho Alvarez, anunciava que proporia o ingresso da Bolívia, depois da vitória eleitoral de Evo Morales, na mesma condição. Começava assim a dissipar-se a dualidade entre o Mercosul e a Comunidade Sul-americana de nações, comandada pelo Brasil, mas vista com reservas pelo governo de Kirchner, que se inclina pela expansão do Mercosul como prioridade. De alguma forma os dois projetos passam a se sobrepor a partir do ingresso da Venezuela e da Bolívia.

                  Ao mesmo tempo, o governo venezuelano multiplicou iniciativas setoriais – como a Petrosul, a TVSul, a PetroCaribe, entre outros – e desenvolveu uma iniciativa estratégica de alianças com Cuba – a chamada Aliança Bolivariana para as Américas. Em documento assinado em abril de 2005 em Havana, os governos de Cuba e da Venezuela lançam uma modalidade superior de integração, entre economias que podem partir de um nível superior de identificação, sobretudo a partir do momento – em janeiro de 2005, no Fórum Social Mundial de Porto Alegre, em que Hugo Chávez anunciou a adesão de seu governo ao que chama de “socialismo do século XXI”.

         A ALBA é uma proposta de integração que se fundamenta na montagem de mecanismos para criar vantagens cooperativas - no lugar das supostas "vantagens competitivas", típica das teorias do comércio internacional, originadas nos centros do capitalismo e que pretendem perpetuar as diferenças com as periferias e manter as "vantagens comparativas" a favor do centro - que permitam compensar as assimetrias existentes entre os países do hemisfério. Baseia-se na cooperação de fundos compensatórios a fim de corrigir as disparidades de níveis de desenvolvimento entre os países da região. Têm na Venezuela e em Cuba seus grandes motores, a primeira com os recursos do petróleo, a segunda principalmente com os recursos de educação, saúde e esportes.

          A ALBA é o contraponto da ALCA, porque aquela pretende integrar economias dissímiles desde baixo, envolvendo a todos os atores econômicos e sociais, como cooperativas, pequenas empresas, empresas públicas, empresas privadas grandes, médias e pequenas, priorizando o atendimento de problemas essenciais para a massa da população, como alimentação, moradia, indústria e meio ambiente. Enquanto que a ALCA não diferencia entre paises grandes e pequenos, entre paises com grandes recursos naturais, financeiros, energéticos e os outros, acentuando mecanismos em que ganham os mais fortes - neste caso, os EUA. Além disso, a ALCA pretende impor aos paises critérios de segurança jurídica que favorecem as grandes corporações multinacionais, não se dispondo a atender aos paises mais fracos.

         A ALCA tampouco obriga os EUA a deixar de usar os subsídios agrícolas para seus produtores. A ALBA não subsidia, mas fomenta créditos, máquinas e tecnologias para empresas recuperadas, fábricas abandonadas em mãos dos seus trabalhadores, cooperativas, comunidades de pequenos produtores - industriais, de comércio ou de serviços -, empresas públicas. A ALBA recebe o apoio dos Estados em créditos, assistência técnica e jurídica, marketing e comércio internacional, enquanto a ALCA deixa tudo entregue às forças que dominam o mercado e as possibilidades financeiras dos grandes agentes econômicos.

         Essa proposta de integração revela um grande potencial, mas também limites claros no horizonte atual da América Latina e do Caribe. Os elementos potenciais revelam, ao mesmo tempo, esses limites. Uma integração entre países que se afirmam abertamente anti-neoliberais, sem se colocar obstáculos nem sequer nas fronteiras do capitalismo – Cuba se declarou socialista há mais de quatro décadas, a Venezuela prega um “socialismo do século XXI”.

         Essa coincidência de opções históricas permite um aprofundamento rápido da integração, como aquela que ocorre entre Cuba e a Venezuela.

' WHERE Titulo = 'ALBA'; UPDATE artigo SET Conteudo = '

O mundo anda desnorteado, vocábulo derivado da bússola, cuja agulha aponta para o Norte. O modelo imperante é o capitalismo neoliberal, mercadocêntrico. E para justificá-lo a linguagem faz peripécias retóricas, associa democracia com "mercado livre", crescimento do PIB com desenvolvimento, especulação financeira com investimento. 

 

Habitus tabagium, bucalis degenerium (o uso do cachimbo deixa a boca torta) diziam os romanos muito antes de Marco Pólo ensinar-lhes a preparar um bom ravióli. É isso, de tanto propalar mentira ela acaba com ares de verdade. Como estas bem contadas mentiras: os italianos inventaram o macarrão, Hollywood é a maior produtora mundial de filmes, o mercado é livre…

 

Pergunte se o mercado é livre a quem abre uma padaria, um posto de gasolina ou uma fábrica de fósforos. O fato é que vivemos sob a ditadura do lucro exorbitante, a ponto de o presidente gabar-se de ter zerado a dívida do Brasil com o FMI, no valor de US$ 15 bilhões. Melhor se tivesse rolado a dívida e aplicado o dinheiro para ressarcir a dívida social. O valor corresponde a pouco mais que o orçamento anual do Ministério da Saúde.

 

Os dados da ONU revelam que a conjuntura mundial se agrava: de 6,3 bilhões de habitantes, 4 bilhões vivem abaixo da linha da pobreza, com renda mensal inferior a US$ 60. Onde está a saída?, pergunta o Fórum Mundial Social, reunido em Caracas. Lux ex Oriente, diziam os antigos. Desta vez, a luz vem da América do Sul. Inverte-se a ponta da bússola da esperança: o Sul é o norte.

 

Após décadas de ditaduras no Cone Sul, a população demonstra-se saturada com o embuste das políticas neoliberais. Rejeita a Alca, condena a invasão do Iraque e vota por mudanças. É o que explica a eleição de Chávez na Venezuela, Lula no Brasil, Lucio Gutiérrez no Equador, Kirchner na Argentina e, agora, Tabaré Vázquez no Uruguai, Michele Bachelet no Chile e Evo Morales na Bolívia.

 

Na prática, a teoria é outra. Uma vez eleitos, alguns governantes rogam para esquecermos o que escreveram, falaram, prometeram. Foi o caso de Gutiérrez, empossado em 2003 e escorraçado do poder, dois anos depois, pelo povo equatoriano. E, no Brasil, Lula ainda nos deve uma política econômica menos submissa ao grande capital e a reforma agrária. Contudo, as placas tectônicas da política se movem no chão da América do Sul.

 

O que há de novo? Primeiro, uma rejeição à elite conservadora. O eleitorado cansou-se dos velhos caciques, das famílias tradicionais instaladas como verdadeiras dinastias no poder. E, agora, acredita em quem lhe é imagem e semelhança, nasceu pobre (Chávez, Lula e Evo), padeceu sob ditaduras militares (Lula, Tabaré e Bachelet), expressa as demandas dos setores excluídos da população.

 

 Ainda que da boca para fora, os novos governantes sentem-se obrigados a priorizar as políticas sociais, a reconhecer a autonomia dos movimentos populares, a defender a soberania de Cuba e a manter a devida distância frente às ingerências da Casa Branca. Ainda é cedo para avaliar o quanto há de demagogia nessa renovação política da parte Sul do Continente. O fato é que ele faz emergir um novo sujeito político: os movimentos populares.

 

 Outrora tutelados por partidos ou instituições como a Igreja e as ONGs, os movimentos populares (indígenas, mulheres, negros, sem-terra, bairros da periferia, sindicatos etc.) tornam-se o fiel da balança na nova conjuntura. Melhor governar com eles do que contra eles. Já não há como criminalizá-los ou ignorar as suas demandas, como fez FHC em oito anos de mandato. Isso não significa que terão suas reivindicações atendidas. Os donos do poder atravancam os governos. Mas, já são um avanço políticas compensatórias, que, como o Bolsa Família, distribuem renda a milhões de pessoas, embora se saiba que a remuneração do capital, através do garrote fiscal, é bem superior aos recursos destinados aos mais pobres.

 

Este ano o eleitor brasileiro é, de novo, convocado às urnas. Tomara que vote em sintonia com o processo da renovação política da América do Sul, que em breve poderá se estender por outros países, como Peru, Nicarágua e México, que terão eleições presidenciais em 2006. Talvez não se possa escolher o ideal, e sim o possível.

 

Entre muitos critérios, o Evangelho acentua os direitos dos mais pobres. Sem vida para todos, assegurada por reformas da estrutura fundiária, da educação e ofertas de emprego, o Sul não terá norte. Terá morte.

' WHERE Titulo = 'O Sul é o Norte'; UPDATE artigo SET Conteudo = '

Nenhum dos problemas com os quais o país se depara hoje,  nem o problema social, nem o da dívida (seja a econômica, seja a social), nem o problema político, nem a crise urbana, nem a questão rural, nem o problema da educação, nem as carências da ciência e da tecnologia, nada será redimido se este país não retomar o desenvolvimento. Ao contrário: sem ele, sem crescimento econômico associado à distribuição de renda, todos os nossos problemas serão agravados – e estão sendo agravados e serão agravados enquanto o país não retomar uma taxa de crescimento de pelo menos 6% ao ano.

Não é querer muito. Nos anos do presidente JK, crescemos acima de 8%. No início da República, com Campos Sales e Epitácio Pessoa, crescemos acima de 7% ao ano. Não somos contra o superávit primário em si, mas somos contra um superávit primário de mais de 6%. Por que 6,3% e não 5%? Por outro lado, pagamos US$ 85 milhões de juros da dívida, e estamos, este ano, contraindo uma dívida US$ 120 milhões. Estamos, portanto, fazendo um esforço brutal, em prejuízo da qualidade de vida de nosso povo, comprometendo nosso futuro, mas sem nenhum resultado prático. Trata-se de um esforço inútil, que significa simplesmente  enxugar  gelo, ou molhar água, ou tentar inundar o mar.

A primeira distorção está na política econômica em si, transformada em ente autônomo. A saber, ao invés de termos uma política de governo, um projeto de governo e um projeto de Nação determinando a política econômica, temos uma política econômica determinando a vida da Nação e de seu povo. Seria aceitável a atual política econômica como tática de curto prazo, como meio subordinado a um determinado objetivo, e não como estratégia – não como fim. Podemos aceitar o arrocho, mas arrocho para quê? Com qual objetivo? Para beneficiar quais setores da sociedade? Ou, por outras palavras: quais os setores de nossa sociedade que se estão beneficiando com a atual política? Ela favorece a distribuição de renda ou a concentração de riqueza? Na verdade, em nome do saneamento das finanças estamos aumentando a exclusão social.

Por que um superávit tão alto? Por que não negociar sua redução, para dispor de uma pequena folga para investimento? Concordamos que devemos mostrar aos banqueiros internacionais que podemos pagar nossas dívidas e honrar nossos compromissos, mas precisamos também mostrar que somos uma economia viável. Se em vez de um superávit de 6,3%, tivermos um superávit de 5%, continuaremos confiáveis e ganharemos uma folga de quase R$ 20 bilhões de reais para investir no desenvolvimento do País.

Em todo o período em que se manteve de pé política que começou com Fernando Collor e chegou ao extremo no principado de FHC, crescemos, na média, em torno de 2% ao ano. Isto é inferior à taxa de ingresso anual da população economicamente ativa no mercado de trabalho, e muito, muito abaixo da média mundial. Dito em outras palavras, empobrecemos. As previsões indicam, agora, que, em 2005, cresceremos, menos de 3%, portanto abaixo da média mundial, que será algo entre 5% e 6%?

A combinação de juros altos com dólar desvalorizado, temperada com altos tributos e concentração de renda, é explosiva. É preciso evitar que voltemos aos tempos de Fernando Henrique Cardoso, quando, para o empresariado, era mais  seguro e rentável comprar título do governo do que investir na produção.

Nosso empobrecimento, medido pelo PIB, se observa tanto em termos relativos quanto em termos absolutos. Empobrecemos do ponto de vista absoluto, porque perdemos a capacidade de assimilar a mão de obra brasileira e estamos perdendo do ponto de vista relativo porque nosso crescimento é negativo (como nos governo Collor e FHC). Estamos ampliando a distância descomunal que nos separa dos países do primeiro mundo – que já estão à nossa frente uns cinqüenta anos. Os Estados Unidos crescem a uma média superior a 4,3%.

Mesmo em comparação com os chamados países emergentes, nossa taxa de crescimento é sofrível. A China, há 10 anos, cresce  a médias de 10% ao ano. A Coréia do Sul, que estava atrás do Brasil em todos os pontos de vista há 20 anos, hoje está à nossa frente em todos os pontos que se queira examinar. A Rússia, que foi desmantelada, transitando do regime do capitalismo de Estado, para o capitalismo selvagem, está crescendo a mais de 6%. A Índia, crescendo a 9%. Ou seja, também do ponto de vista relativo, dos nossos companheiros de viagem, estamos perdendo o bonde da história. Mas dirá o BC: estamos com nossas finanças saneadas.

Isso numa fase rara e invejável da economia mundial, que é de crescimento generalizado, do qual não nos estamos aproveitando.

Por que não podemos crescer? Porque, dizem os fundamentalistas do BC, o crescimento pode reanimar a inflação. Mas só no Brasil?

 Os recursos para investimentos têm apenas duas fontes: o poder público e o capital privado. Pois o setor privado nacional está engessado pelas altas taxas de juros e pela carga tributária. O poder público, que tem maior capacidade de investimento, inverteu suas prioridades e aloca seus recursos para pagar a dívida pública e a dívida externa. A estagnação aumenta o desemprego, a pobreza, a concentração de renda e a exclusão. Isto é um círculo vicioso que um dia vai estourar.

Onde vai estourar? Na crise social. E é evidente que isso não é culpa do governo Lula. Isto é fruto de um modelo de desenvolvimento predatório – que está estourando em toda parte. Está estourando na França, está estourando na Bélgica, está estourando na Alemanha. Já estourou na Argentina. Está estourando na América do Sul. O que é que estamos esperando?

O PSB é um partido unificado politicamente, tendo como base de trabalho um projeto comum. Projeto este que tem como fundamento não dissociar a política econômica do bem-estar social. Portanto, nosso compromisso com a governabilidade não significa ignorar divergências com políticas do governo que apoiamos. Temos divergências e as expressamos, pois o dever do aliado leal é dizer ao companheiro que ele está errado, e indicar alternativas.

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Uma pequena introdução

 

Dentre as muitas características dos regimes democráticos, uma é inafastável: sua raiz na soberania popular. Dessa origem decorrem tanto a  legitimidade quanto a legalidade do poder, cujo exercício é regulado por um ordenamento jurídico em cujo topo se encontra  a Constituição. A soberania popular, por seu turno, nas democracias representativas, como a brasileira, se exerce mediante o voto (ou sufrágio), direito do cidadão. No Brasil o cidadão vota quando elege seus representantes (aqueles que vão elaborar as leis ou governar), e quando aprova ou rejeita leis ou responde a consultas.

Nas democracias diretas, o poder era exercido direta e imediatamente pelo povo. Seu berço foi as cidades-Estado gregas, destacadamente Atenas. Essa experiência finda com a antiguidade clássica. A forma moderna de democracia é a representativa ou indireta. Nela, o poder é exercido por mandatários da vontade coletiva, ou seja, por representantes do povo, escolhidos mediante eleições, isto é, pelo voto popular. Essas democracias representativas tendem, contemporaneamente, a transitar para modelos simidiretos. Identificamos como democracias mistas ou semidiretas aquelas que procuram harmonizar princípios da democracia indireta (como a delegação), com  dispositivos típicos das democracias diretas. Dentre esses dispositivos absorvidos pela democracia representativa contemporânea, estão o referendo, o plebiscito, a iniciativa legislativa popular, a revogação de mandatos (também conhecida como recall) e o veto.

Por conhecer institutos como o referendo, o plebiscito e a iniciativa, podemos dizer que  nosso modelo se aproxima das experiências da democracia simidireta, ou mista, nada obstante conserve todos os instrumentos da representação. Pode-se mesmo dizer  que o direito constitucional contemporâneo tende à adoção das modernas conquistas dos princípios progressistas da doutrina da soberania popular.

 Afirma nossa Constituição: “Todo o poder emana do povo, que o exerce por meio de representantes eleitos ou diretamente, nos termos desta Constituição” (Art. 1º, parágrafo único). Segundo o texto que acabamos de ler, o exercício da soberania popular se dá de duas maneiras: a) quando o poder é exercido por representante do povo e b) quando o próprio povo intervém com sua palavra final. Na primeira hipótese, vimos já, o poder é delegado, pelo povo, a cidadãos por ele eleitos para em seu nome exercerem funções legislativas ou administrativas. É quando o cidadão vota para eleger seu representante. Mas o cidadão também vota para confirmar uma lei ou uma medida governamental (referendo) e vota para responder a uma consulta (plebiscito). É a hipótese b. Logo após a promulgação da Constituição de 1988 fomos chamados a definir a forma (república ou monarquia constitucional) e o sistema de governo (parlamentarismo ou presidencialismo) que deveriam vigorar entre nós.  Essa consulta denominou-se plebiscito. Recentemente o povo foi convocado às urnas para dizer se aprovava ou  não a vigência de dispositivo da lei do desarmamento, que proibia a comercialização e posse de armas de fogo. Tratava-se de um referendo.

Nas democracias de índole participativa (denominação que tende a firmar-se sobre democracia direta), cujo melhor exemplo contemporâneo é a atual constituição venezuelana, o cidadão é chamado, através do voto, a exercer diretamente o poder, sem quebra dos mecanismos da representação.

A constituição venezuelana de 30 de dezembro de 1999, reafirmando, como todas as constituições democráticas, como a brasileira de 1988, que todo o poder emana do povo (diz “a soberania reside intransferivelmente no povo”) inverte a ordem do exercício do poder: primeiramente, o poder é exercido pelo povo, diretamente, e indiretamente, mediante o sufrágio, pelos órgãos do poder público (Art.5º).

Seja nas democracias representativas, seja nas democracias mais ou menos participativas, como a suíça e a venezuelana, seja em democracias representativas que admitem, como a brasileira, o referendo, o plebiscito e a iniciativa legislativa popular, a legitimidade do poder decorre do exercício do voto pelo povo, o titular insubstituível da soberania. Porque, quando elege o seu representante, não está o cidadão renunciando à sua soberania, mas nomeando um delegado para, em seu nome, e consoante o mandato que lhe é atribuído, exercer o poder. Tanto os parlamentares quanto os titulares de cargos executivos eletivos são representantes do povo, em nome de quem exercem os respectivos mandatos.

 

Na democracia representativa

 

Vimos até aqui que nas  democracias representativas o poder, sempre  derivado da soberania popular, não é exercido diretamente pelo cidadão, mas  por representantes seus, portanto, indiretamente. Esses representantes são sempre eleitos segundo normas que constituem o chamado sistema eleitoral, variante de país a país. Por intermédio das eleições, periódicas, o povo se manifesta. Em síntese, o poder que emana do povo é constituído pelo voto, dado em eleições livres e legítimas, realizadas nos termos da legislação específica, regras previamente definidas, que estabelecem o processo eleitoral, a distribuição dos cargos em disputa etc. No Brasil o sistema eleitoral é fundamentalmente regulado pela Constituição federal, pelo Código eleitoral, pela Lei dos Partidos políticos, pela Lei de Inelegibilidade e pela Lei eleitoral e por uma vasta gama de dispositivos legais correlatos. Além das Resoluções do TSE, editadas a cada pleito, as quais, porém,  devendo simplesmente nortear a aplicação dos dispositivos legais, terminam por constituir ação legiferante, criando direito. É importante destacar, pois é exigência da ordem jurídica, que a legitimidade do pleito depende da observância de normas previamente definidas, evitando-se a mudança das regras em pleno andamento do jogo. Neste sentido constitui avanço de nosso direito o disposto no art. 16 da CF, ao afirmar que “A lei que alterar o processo eleitoral entrará em vigor na data de sua publicação, não se aplicando à eleição que ocorra até um ano da data de sua vigência”.

Do voto

Na sistemática brasileira o voto ou sufrágio é universal,  direto, secreto,  obrigatório e periódico, com valor igual para todos. Estes atributos constituem cláusulas pétreas, isto é, não podem ser objeto de emenda constitucional que visem a aboli-los.

O sufrágio é o poder de que, nas democracias, dispõe o cidadão para intervir na vida pública participando da soberania. Essa intervenção, vimos já, pode ser a) direta (quando, através do voto, o cidadão decide sobre determinado assunto) e b) indireta, quando, ainda por intermédio do voto, elege seus representantes ou governantes. No primeiro caso o povo vota para decidir, ou seja, vota mas sem eleger; diz-se que houve votação.  No segundo caso vota para eleger; diz-se que houve eleição.

Voto universal é aquele em que a capacidade  de participação no pleito não sofre limitações derivadas de sexo, raça, renda, instrução ou nascimento. Mas isso não significa que todas as pessoas possam votar. O direito brasileiro prevê limitações de idade, nacionalidade e domicílio, entre outras. Não podem alistar-se como eleitores os incapazes, os estrangeiros e, durante o serviço militar obrigatório, os conscritos. O voto secreto visa a proteger a manifestação livre da vontade eleitoral, ameaçada tanto pelo poder político quanto pelo poder econômico. É um direito do eleitor. É obrigatório para os maiores de 18 anos e menores de 75 anos e facultativo para os maiores de 16 e menores de 18 anos. O sufrágio, além de universal e secreto, é também direto, no direito brasileiro, porque o eleitor elege, diretamente, isto é sem intermediação de colégios eleitorais (como, entre nós, ao tempo da ditadura militar; como, sempre, nos Estados Unidos) seus representantes, tanto para o Poder Executivo, em toda as suas instâncias,  quanto para as diversas casas legislativas.

Trataremos do voto constitutivo dos mandatos, isto é, das eleições.

Das eleições

 

As eleições, no Brasil, são majoritárias para alguns cargos e proporcionais para outros, e se destinam à escolha de governantes (prefeitos, governadores e presidente da República) e legisladores (vereadores, deputados estaduais, deputados distritais, deputados federais e senadores da República).

As eleições para os Executivos são majoritárias, isto é, elege-se aquele que obtém maioria de votos. Nas eleições para Presidente da República, Governadores de Estado e prefeitos de cidades com mais de 200 mil habitantes, só se declara eleito aquele candidato que obtém maioria absoluta (metade mais um) dos votos válidos. Tal não ocorrendo, os dois candidatos mais votados disputam um segundo turno. Daí a expressão “eleição em dois turnos”. As eleições para o Senado da República são igualmente majoritárias, mas não há a exigência de maioria absoluta: elegem-se os candidatos mais bem votados. Portanto, eleições em turno único.

Nas duas hipóteses de eleições majoritárias o voto é dado no candidato e não no partido ou coligação. Não há voto de legenda. Cuidemos agora das eleições para as funções legislativas.

Em regra, há duas famílias de sistemas eleitorais para a constituição das casas legislativas: o majoritário e o proporcional. Trataremos de ambos. Comecemos pelo majoritário, adotado nos Estados Unidos, no Japão e em grande número de democracias européias. Esse sistema se caracteriza, como enuncia sua própria denominação, por assegurar a eleição de um só candidato, o mais votado. Em regra, a geografia eleitoral é dividida em áreas ou circunscrições eleitorais (que no Brasil chamamos de distritos), com as quais são atribuídas as cadeiras a serem preenchidas. A cada distrito corresponde uma vaga. Ganha-a o mais votado.

O sistema majoritário, mais conhecido na literatura política brasileira por sistema ou voto distrital, pode ser apresentado, de forma simplificada, através de dois modelos: o de maioria simples e o de dois turnos.

Vejamos um e outro.

No sistema de maioria simples a vaga é preenchida pelo candidato que obtém o maior número de votos. Cada distrito elege um vereador ou um deputado. É eleito o mais votado dentre todos. É a tradição anglicana. Assim na Grã-Bretanha (desde 1264), no Canadá, nos Estados Unidos e na Índia.

No sistema majoritário de dois turnos a única diferença sobre o modelo anterior é a exigência de que o concorrente, para ser declarado eleito, obtenha metade mais um dos votos (maioria absoluta) de seu distrito. Tal não ocorrendo, realiza-se um segundo turno, entre os dois mais votados, permitida a formação de coalizões partidárias. Assim o eleitorado de um candidato derrotado pode descarregar seus votos num dos candidatos em disputa. É o modelo francês, conhecido como ballotage.

No modelo de eleição proporcional o número de parlamentares a serem eleitos é determinado pelo número de habitantes da respectiva circunscrição, e o número de eleitos, por partido, é calculado em função do número de votos obtido por partido ou coligação de partidos. Não há distritos. A circunscrição é o Estado (para deputados estaduais e federais), o Distrito federal (para deputados distritais)  e o município (para os vereadores). Em outras palavras os deputados podem ser votados em todo o Estado e os vereadores em todo o município. São eleitos os mais votados em cada partido.

Assim: tomemos por referência a eleição de vereadores  e suponhamos que na cidade x, existem dez cadeiras por preencher (isto é, a respectiva Câmara Municipal é constituída de dez vereadores). Como saber quantos vereadores cada legenda (partido) terá elegido, e quais os eleitos em cada partido?  Simplesmente dividindo-se o número de votos válidos (digamos 100 mil) pelo número de cadeiras (100.000 dividido por 10), donde 10.000. Este é o quociente.  Cada partido elegerá tantos vereadores quantas vezes tenha feito dez mil votos. Em cada partido se elegem os mais votados, independentemente da posição que ocupem na lista de candidatos.

O Brasil optou pelo sistema de eleição proporcional, mediante listas abertas.

Trataremos inicialmente do sistema proporcional.

Sistema proporcional

Ao contrário do sistema majoritário, a representação proporcional tem por objetivo fazer com que o parlamento reflita, o mais fielmente possível, o mosaico ideológico e político da sociedade, assegurando a representação do maior número possível de opiniões. Enquanto a eleição majoritária tende ao bipartidarismo, o sistema proporcional é construtor do pluripartidarismo. Enquanto na fórmula majoritária um candidato ou partido que tiver obtido, por exemplo, 40% dos votos, pode ficar fora do parlamento, o sistema proporcional visa a espelhar, aritmeticamente, a preferência do voto. Assim, o Partido que obtiver, por exemplo, dez por cento dos votos, tende a ter algo próximo a dez por cento das cadeiras.

 Falemos das listas.

O sistema de listas

A regra para as eleições parlamentares proporcionais é o sistema de listas, inaugurado pela Bélgica em 1899. Lista é a relação de candidatos que cada partido, ou coligação, oferece à escolha do eleitorado. Essas listas podem ser abertas, fechadas, livres ou flexíveis. Veremos o conceito de cada uma.

Listas abertas são aquelas nas quais o eleitor pode votar em qualquer dos candidatos arrolados por qualquer partido (admitida também a votação na legenda), sendo eleitos aqueles mais votados, independentemente da ordem oferecida pelo partido. Observam esses sistema, com algumas variantes, Brasil, Chile, Finlândia, Peru e Polônia. Em outras palavras, o voto é personalizado: o eleitor vota no candidato de sua escolha.

Na lista livre a ordem dos eleitos é também definida pelos eleitores. Nesse sistema o eleitor pode votar ou em um partido (e nesta hipótese seu voto valerá para todos os candidatos da lista partidária) ou em diversos candidatos, neste caso podendo votar em tantos candidatos quantas sejam as vagas.  Este sistema só é praticado na Suiça.

 No sistema de listas fechadas a ordem previamente ditada pelo partido é a ordem dos eventuais eleitos, e o leitor vota não em candidatos específicos, mas em partido. A votação obtida pela legenda indica o número de cadeiras a que terá direito: se o partido obteve votos suficientes para, por exemplo, preencher cinco vagas, essas serão ocupadas pelos cinco primeiros nomes da lista. É o sistema dominante nos países que optaram pela representação proporcional.

A lista flexível é um encontro entre as listas abertas e as fechadas. Nesse sistema, o eleitor pode votar na legenda, e assim aceita a ordem partidária, ou assinalar sua preferência por determinado candidato.

O caso brasileiro

O regime eleitoral brasileiro adota, desde 1945, isto é, desde a redemocratização que se seguiu ao Estado Novo, o sistema de listas abertas, permitido o voto de legenda. O eleitor pode tanto escolher um nome dentre os candidatos do partido ou da coligação, quanto votar na legenda do partido de sua preferência. Nesse caso o voto é computado para efeito do quociente eleitoral.

Nosso sistema permite, ainda, nas eleições proporcionais, as coligações de partidos. Nesse caso, independentemente do número de partidos, a coligação forma uma só lista e eleitos são os candidatos mais votados, independentemente da filiação partidária. A coligação é tratada juridicamente como se um partido fôra.

Das listas abertas

Repitamos: o sistema brasileiro de eleição para os cargos legislativos é o proporcional mediante listas abertas; é o voto nominal. O eleitor escolhe o seu candidato. Essa seria sua grande vantagem: a aproximação entre o eleitor e o eleito.

Para seus defensores ela é, ainda, a mais democrática, pois dá ao eleitor o direito de, com exclusividade, escolher seu representante, enquanto no sistema de listas fechadas fica sua vontade subordinada à lista preordenada pelo partido. A lista aberta assegura o voto pessoal. Esse voto pessoal é mais propício ao fortalecimento dos vínculos entre o eleitor e o eleito.

Desvantagens do sistema de listas abertas

De outra parte, porém, afirmam seus adversários, o sistema de listas abertas enseja o enfraquecimento da ordem partidária: o foco da política deixa de ser o partido – cujo fortalecimento é unanimemente apontado como essencial para a democracia representativa-- para ser o candidato, a pregação política abandona princípios programáticos para se situar nas qualidades pessoais do candidato, deixando o eleitor à mercê de projetos messiânicos, populistas e assistencialistas. Como o vínculo se faz diretamente entre o candidato e o eleitor, sem a mediação partidária, desaparecem, igualmente, os compromissos político-partidários.  Daí a fragilidade das maiorias parlamentares (implicando muitas vezes crises políticas), a troca de siglas dentro da mesma legislatura (no período de 1º de janeiro de 2003 a 15 de fevereiro de 2004 nada menos de  125 deputados federais trocaram de partido), e a infidelidade, planta daninha que devora a vida partidária. O candidato, eleito, passa a considerar-se uma instituição autônoma, proprietário do mandato, e esse mandato, por seu turno, se desvincula da vontade do eleitor. Por conseqüência, o  eleitor não se identifica com seu representado. Pesquisa de responsabilidade da Comissão Especial de Reforma Política da Câmara dos Deputados (2005), afirma que menos de três meses após a eleição nada menos de 1/3 dos eleitores não lembra em quem votou para deputado e menos da metade dos eleitores cita corretamente o nome de um candidato a deputado. Esse sistema ensejaria ainda  a corrupção mediante a compra de votos e outros expedientes, como o financiamento das campanhas, subordinando assim o exercício do mandato  à ação do poder econômico e do poder político.

De outra parte, objeta-se ainda, o eleitor, embora votando no candidato de sua escolha, pode, pelo sistema do quociente, estar contribuindo para a eleição de outro candidato. Na hipótese das coligações proporcionais, o desvio é ainda mais grave, pois, votando na legenda de um partido, ou no candidato tal do partido qual, pode estar elegendo um candidato de outro partido, integrante da mesma coligação, pois seu voto só servirá para constituir o quociente eleitoral. E como as coligações são livres, e muitas vezes esdrúxulas, o eleitor vota num candidato com determinado perfil ideológico e pode ajudar a  eleger outro de perfil distinto ou antagônico.

A eleição no sistema de listas abertas – crítica que também se aplica ao voto distrital--  enseja o empobrecimento das discussões políticas; os temas nacionais, mesmo as questões cruciais do Estado, da região, são substituídos pela troca do favor pessoal, pelas reivindicações menores. Todos os candidatos se transformam em despachantes de sua comunidade.

Esse sistema, como observado anteriormente, é responsabilizado pela crise dos partidos, enquanto o modelo de listas fechadas, contrário senso, é apresentado como instrumento de salvação da vida partidária, pilar da democracia representativa.

Dos partidos

Antes de tratarmos das listas fechadas, falemos um pouco dos partidos, e seu papel na democracia representativa. Unanimemente são eles considerados como a viga mestra do sistema democrático representativo. A fragilidade do processo político-institucional é a outra face da fragilidade dos partidos. Partidos fortes, democracia representativa forte. Por isso mesmo a fragilidade – e baixa representatividade— do sistema partidário brasileiro, presentemente em crise a mais grave, é apresentada como uma das causas de nossa crise política crônica, dos impasses institucionais e da baixíssima legitimidade de nosso processo eleitoral.

Pois, se os partidos estão na gênese da democracia representativa, ela, assim como é praticada em nosso país, é acusada de promover o esvaziamento dos partidos políticos, esvaziamento que, por seu turno, é indicado como a fonte de nossa crônica crise política. Duas são as mazelas atribuídas à democracia representativa: a falência do sistema de partidos e o distanciamento crescente entre o exercício do mandato e a vontade do eleitor.

Que nossos partidos são frágeis, que sua legitimidade é claudicante, não resta a menor dúvida, e não sabemos se poderia a realidade ser muito diversa se considerarmos a fragilidade da vida democrática, recém saída de mais de 20 anos de ditadura. Entendemos que a corrigenda será oferecida, no seu tempo, pelo processo social. Mas até lá, surgem as propostas de reforma política. Aliás discute-se essa reforma desde o dia imediato à promulgação da Constituição de 1988. Dentre as propostas que tramitam no Congresso destaca-se a introdução do sistema das listas fechadas. O principal argumento de seus defensores é a necessidade de fortalecer os partidos. A dúvida, porém, está na ordem dos fatores: o sistema de listas fechadas fortalece os partidos ou partidos fortes é que reclamam as listas fechadas?

Como já conhecemos o mecanismo das listas fechadas, discutiremos agora, tão-só, suas vantagens e desvantagens.

Vantagens do sistema de listas fechadas

A primeira de suas vantagens, segundo seus defensores, responderia explicitamente à crise dos partidos: seriam elas instrumento de fortalecimento do sistema partidário. A grande vantagem do voto em lista é ser um voto partidário, enquanto a característica das listas abertas seria o voto pessoal, da proximidade, raramente determinado por motivações políticas.

Superando as disputas pessoais, a preferência eleitoral, no sistema de listas fechadas, recairia sobre os partidos, portanto sobre programas e linhas ideológicas. A campanha eleitoral, coletiva, por outro lado, serve para unificar a linha política da futura bancada. Um de seus subprodutos é a fidelidade, subordinado o eleito à disciplina partidária, condicionante para sua posição na lista de candidatos. Por fim, afastaria o financiamento ilícito de campanhas e reduziria a possibilidade de corrupção eleitoral.

Do nosso ponto de vista o sistema de listas fechadas exige o financiamento público de campanha e é incompatível com as coligações de partidos, nas eleições proporcionais. Por óbvio, não há conflito relativamente a coligações partidárias nas eleições majoritárias.

Desvantagens do sistema de listas fechadas

A disputa eleitoral, ao invés de operar-se na sociedade, se instala primariamente no Partido, de forma fraticida: verdadeira guerra se instala entre os candidatos da mesma legenda, pois em toda e qualquer situação só serão eleitos os que ocuparem os primeiros lugares nas listas. Do preordenamento deriva uma pré-eleição, pois decisiva é a ordem na lista partidária.

 Ao invés de democratizar a vida interna dos partidos, facilitará ainda mais sua oligarquização, o poder das direções;  o ordenamento das listas é uma resultante da influência  dos candidatos na máquina partidária, abrindo espaço interno, inclusive, para corrupção. Se, no sistema de listas abertas, registram-se casos de venda de legenda, cessão de legenda para candidatos sem vínculo partidário mas com recursos financeiros, o sistema de listas fechadas pode ensejar a possibilidade de negociações, com os controladores das legendas, visando a assegurar a boa localização no candidato na lista pre-ordenada. A questão de fundo permanece: a democratização das organizações partidárias.

O voto em lista fechada – tratamos de outra crítica-,  retira do eleitor o direito de votar no candidato de sua escolha pessoal; ao invés disso, é obrigado a votar na legenda, contribuindo para eleição de candidatos dentre os quais pode não estar com possibilidade de eleger-se o de sua preferência. Outra crítica que lhe fazem seus adversários é a de que quebraria o vínculo do representante com seu eleitor.

A reforma brasileira

Tramitam no Congresso brasileiro inumeráveis projetos de reforma política. Um deles é apresentado pela Comissão Especial de Reforma Política, o qual propõe a adoção, pela legislação brasileira, entre outras inovações, do sistema de listas fechadas. Essa inovação viria acompanhada de mecanismos de fidelidade partidária, de mecanismos assecuratórios de maior transparência na prestação de contas das campanhas, da garantia do pluralismo partidário (assegurador, por seu turno, da participação política das minorias) e do financiamento público das campanhas. Trata-se do Projeto de lei nº 2679, de 2003 sobre financiamento público de campanhas eleitorais, listas partidárias pré-ordenadas nas eleições proporcionais, federações partidárias, coligações partidárias, cláusulas de desempenho e funcionamento parlamentar.

A proposta se concretizaria em dois tempos: a. na transição do sistema de listas abertas para o de listas fechadas (primeira eleição) e b. no sistema de listas fechadas propriamente dito.

a.                 Transição. Comporão a lista os atuais deputados federais e estaduais, de acordo com sua classificação pelo número de votos na última eleição, os suplentes efetivados ou os suplentes que exerceram o mandato por pelo menos seis meses e os deputados que mudaram de legenda; estes entrarão na lista imediatamente após os deputados titulares originários. Assim, fica assegurada a reprodução do status quo ante, salvo deliberação em contrário da Convenção respectiva, prevista pelo Projeto. Os demais membros da lista serão aprovados em Convenção. Cada lista partidária poderá conter até 150% do número de vagas prevista para cada Estado (deputados federais e estaduais) ou Município       (vereadores).

b.                 Listas fechadas. A ordem de precedência dos candidatos na lista partidária será determinada pela respectiva convenção, nos termos do que estiver prescrito no estatuto partidário. O sistema de listas fechadas aboli o voto nominal. Assim, contam-se apenas os votos dados às legendas partidárias.

 

 Trata-se, portanto, da introdução do sistema clássico de listas preordenadas. A expectativa é que, discutido e aprovado na legislatura que se iniciará em janeiro de 2007, o projeto da Comissão Especial de Reforma Política da Câmara dos Deputados, ou outro que provavelmente lhe venha suceder, possa o sistema de listas fechadas, ou preordenadas, ser introduzido nas eleições parlamentares de 2010.

O projeto, assim, que está longe de promover a reforma  de que carece a vida política brasileira, silencia quanto ao mandato imperativo, à revogação de mandato e a fidelidade partidária. O mandato imperativo restauraria a dignidade da representação, coibindo a autonomia do representante em face da vontade do representado. A revogação, arma da cidadania, asseguraria a compatibilidade do mandato com sua representação, o decoro e a ética. Dispositivos de proteção da fidelidade partidária assegurariam a preeminência do partido sobre o interesse pessoal do titular de mandato.

Adverte-se, porém, que o sistema de listas fechadas não deve ser identificado como panacéia para todos os graves problemas que acusam a crise da democracia representativa brasileira. Ela tem raízes históricas e mais profundas as quais remontam mesmo à crise constituinte, a permanente crise da constituição do Estado brasileiro, a crise de uma sociedade fundada na desigualdade e na exclusão, na concentração de renda e de poder político, de par com a expulsão das grandes massas do debate político ou da convivência social. A inapetência legiferante do Congresso brasileiro – outra indicação da crise mais profunda— inviabilizou qualquer sorte de reforma política, nada obstante os reclamos da sociedade. Estima-se que a próxima legislatura proporcione a aprovação das reformas necessárias, assegurando, primariamente, um largo  debate do qual possam participar os mais variados setores da opinião pública brasileira. Só a mobilização da sociedade – em que não estão interessados governos e partidos e imprensa— poderá indicar as alternativas legislativas para a reforma política. Mas sem ilusões. Raramente a reforma jurídica determina o processo social; é este que deve comandar a reforma política.

 

 

Glossário

 

Cidadão

É o titular dos direitos políticos, aquele que pode votar e ser votado, e pode exercer todos os atos inerentes à cidadania.

Iniciativa legislativa

Mediante a iniciativa, o povo não chega a legislar, mas obriga que se legisle. Este instituto de democracia semidireta foi incorporado ao direito brasileiro pela Constituição de 1988: “Art. 61. x 2º - A iniciativa popular pode ser exercida pela apresentação à Câmara dos Deputados de projeto de lei subscrito por, no mínimo, um por cento do eleitorado nacional, distribuído pelo menos por cinco Estados, com não menos de três décimos por cento dos eleitores de cada um deles”.

Mandato

Mandato eletivo é o poder delegado pelo cidadão-eleitor a um outro cidadão para que, representando-o, exerça legislativas ou de governo. Diz-se que é representativo quando a delegação se estabelece em aberto; no mandato imperativo os atos do mandatário estão sujeitos à vontade do mandante. O sistema brasileiro adota a figura do mandato representativo.

Plebiscito

Diferentemente do referendo, o plebiscito tem por objeto medidas políticas, como a definição de formas de governo, criação de territórios, subdivisão, desmembramento ou anexação de Estados (v.g. Constituição federal, art. 18 x x 3º e 4º.

 

Recall

 

V. revogação

 

Referendo

É o instrumento mediante o qual o povo exerce o poder de sancionar leis. Compõe, com o plebiscito, a categorias das medidas que propiciam a manifestação direta do povo.

 

 

Revogação

Por intermédio da revogação pode o eleitorado extinguir o mandato eletivo de funcionário, parlamentar ou titular de cargo executivo. Entre os países que primeiro o acolheram estão a Suiça e os Estados Unidos, onde tem vigência em poucos Estados, valendo mais para os municípios. O melhor exemplo do poder de revogação é oferecido pela Constituição venezuelana de 1999, prevista para todos os cargos eletivos, inclusive para a presidência da República. Não se trata, é preciso ressaltar, de mera declaração d3e direito. O atual presidente, Hugo Chavez, foi submetido a um referendo, e teve seu mandato ratificado. A revogação pode ser individual (de um mandato), e neste caso é chamada de  recall, e pode ser coletiva, de toda uma assembléia, e aí então denomina-se abberufungsrecht. É conhecido em alguns cantões da Suiça.

Sufrágio

É o direito, de que é titular exclusivo o cidadão, de intervir direta ou indiretamente no processo político. Diretamente decide sobre determinado assunto; indiretamente elege seus representantes. Pode ser restrito (quando impõe limitações de sexo, instrução renda ou outras ao seu exe4rcçio) ou universal, quando, teoricamente, todos podem votar, ou seja, quando a faculdade de participação não está sujeita a restrições acima referidas. Mas não basta ser cidadão, para poder votar. É preciso –é este o direito brasileiro alistar-se como eleitor. O eleitorado brasileiro é o conjunto de cidadãos (brasileiros com direito a voto) alistados como eleitores junto à justiça Eleitoral.

 

Bibliografia

 

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PORTO, Walter Costa. Dicionário do Voto. Brasília. Editora UnB.2000

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MACEDO, Dimas. O discurso constituinte - Uma abordagem crítica. UFC. Fortaleza. 2. ed. 1997.

' WHERE Titulo = 'A votação no sistema de listas '; UPDATE artigo SET Conteudo = 'Um grupo de jovens menores maltratou sadicamente, apedrejou e espancou até à morte o transexual brasileiro Gisberto, um sem-teto de 45 anos. Aconteceu no Porto, em Portugal. Há poucos anos, o líder indígena Guadino Pataxó tinha ido a Brasília participar numa marcha a favor da reforma agrária. A noite estava amena e decidiu dormir no banco de um ponto de ônibus. De madrugada, um grupo de jovens acercou-se dele enquanto dormia, regou-o com gasolina e queimou-o vivo. Na polícia, confessaram que o fizeram para se divertirem e pediram desculpas por não saber que ele era um líder indígena; pensavam que ele era um sem-teto qualquer.

Que há de comum entre estes dois casos de violência gratuita e as caricaturas dinamarquesas? A mesma incapacidade de reconhecer o outro como igual, a mesma degradação do outro ao ponto de o transformar num objeto sobre o qual se pode exercer a liberdade e o gozo sem limites, a mesma conversão do outro num inimigo perturbador, mas frágil, que se pode abater com economia das regras da civilidade, sejam elas as que governam a paz ou as que governam a guerra.

As sociedades modernas assentam no contraste social, a idéia de uma ordem social assente na limitação voluntária da liberdade para tornar possível a vida em paz entre iguais. As idéias de cidadania e de direitos humanos são a expressão deste compromisso. As tensões entre o princípio da liberdade e o princípio da igualdade e as contradições entre eles e as práticas sociais que os desmentem constituem o cerne da política moderna.

Como o grupo social dos reconhecidos como iguais era inicialmente muito restrito (os burgueses do sexo masculino), a grande maioria da população (mulheres, trabalhadores, escravos, povos colonizados) estava fora do contrato social e, portanto, sujeita ao despotismo dos que tinham poder sobre ela. As lutas sociais dos últimos duzentos anos têm sido lutas por inclusão no contrato social. Com o tempo, as lutas pela igualdade socioeconômica, protagonizadas pelos trabalhadores, foram complementadas pelas lutas pelo reconhecimento das diferenças, por parte das mulheres, das minorias étnicas e religiosas, dos homossexuais etc.

Este movimento ascendente de inclusão e de civilidade está hoje bloqueado por via de uma combinação perversa entre capitalismo neoliberal e suas conseqüências (exclusão social, migrações) e a teologia política conservadora hoje dominante nas três religiões abraâmicas (cristianismo, judaísmo e islamismo). Paulatinamente, a solidariedade politicamente organizada é substituída pelo individualismo, e a filantropia e a celebração da diversidade, pela intolerância: em vez de cidadãos, consumidores e pobres; em vez de justiça social, a salvação; em vez do ecumenismo, o dogmatismo; em vez da hospitalidade, a xenofobia; em vez de conflitos institucionalizados, a violência do crime e da guerra.

O despotismo pré-moderno está, assim, a ser reinventado na sociedade e nos indivíduos, tanto nas macro-relações entre países ou religiões, como nas micro-relações na família, na empresa ou na rua. Os poderosos e os despossuídos são degradados por igual, ainda que com conseqüências muito diferentes. Os despossuídos recorrem à violência ilegal, tanto contra os poderosos como contra os ainda mais despossuídos.

Os poderosos recorrem à violência que legalizam pela invocação de princípios que, sem surpresa, estão sempre do seu lado. São Tomás de Aquino diria deles o que disse dos cristãos do seu tempo. Que padecem do habitus principiorum:o hábito de invocarem obsessivamente os princípios para se poderem dispensar da sua observância na prática.' WHERE Titulo = 'As escalas do despotismo'; UPDATE artigo SET Conteudo = 'Folha de São Paulo, 18 de março de 2006 EUA abrirão agências na Tríplice Fronteira CLÁUDIA DIANNI DA SUCURSAL DE BRASÍLIA O governo dos EUA vai abrir três escritórios de controle de comércio internacional na Tríplice Fronteira (Argentina, Brasil e Paraguai), em parceria com os governos locais. O objetivo é investigar e controlar atividades ilícitas na região, considerada pelos EUA fonte de captação de recursos para grupos islâmicos radicais, inclusive o Hizbollah e o Hamas. Para a Agência de Imigração e Fiscalização Aduaneira dos EUA (ICE), os escritórios vão começar a operar dentro de dois meses com três funcionários norte-americanos e sete locais. No caso do Brasil serão agentes da Receita Federal e da Polícia Federal. O objetivo é desbaratar operações comerciais cujo objetivo seja o contrabando, a lavagem de dinheiro ou outros crimes financeiros. O ICE acredita que os escritórios irão ajudar as autoridades dos quatro países a combater crimes financeiros domésticos e aumentar a capacidade dos EUA de atingir as redes de lavagem de dinheiro que operam tanto na América do Sul quanto nos EUA. De acordo com a ICE, os escritórios poderão atuar em todo o território dos três países, mas a área comum da Tríplice Fronteira será o foco principal. A ICE acredita que a região da Tríplice Fronteira, onde há a maior concentração de população árabe islâmica na América do Sul, seja o mais ativo centro de tráfico e contrabando, onde são gerados bilhões de dólares por ano provenientes de tráfico de armas e de drogas, pirataria, violações aos direitos de propriedade intelectual e outros crimes. No entanto até hoje o governo americano não apresentou nenhuma evidência de que haja células terroristas na região. De acordo com Washington, para os EUA o principal interesse é combater o financiamento da atividade terrorista, mas para Brasil, Argentina e Paraguai a maior vantagem será coibir crimes de contrabando e evasão fiscal. O governo dos EUA avalia que os trabalhos de inteligência também poderão ajudar a desmontar esquemas de corrupção. Brasil e EUA estão criando um banco de dados que em seis meses conterá informação online sobre todos os registros comerciais do Brasil com o resto do mundo, que poderá ser consultado por autoridades dos dois países. Os escritórios, chamados de "unidades de transparência comercial", serão instalados em Foz do Iguaçu, no Paraná, Puerto Iguazú, na Argentina, e Ciudad de Leste, no Paraguai. -------------------------------------------------------------------------------- -------------------------------------------------------------------------------- ' WHERE Titulo = 'EUA abrirão agências na Tríplice Fronteira'; UPDATE artigo SET Conteudo = '

Há 30 anos se fechava o ciclo do terror

Nesta semana, no dia 24, completam-se 30 anos do golpe militar na Argentina. Com ele se fechava o círculo de regimes de terror que dominaram a região, desde os golpes militares no Brasil e na Bolívia em 1964, passando pelos realizados no Chile e no Uruguai em 1973.

Foi o período mais obscuro da história do continente. A aliança entre o governo dos EUA e as elites militares e do grande empresariado dos países da região impôs os maiores sofrimentos de que foram vítimas nossos povos, desde os massacres dos povos indígenas e a escravidão. Vários milhares de pessoas foram executadas, centenas de milhares foram presas e torturadas, sem mandatos legais, outros tantos se exilaram de seus países. Cometeram-se crimes hediondos – tortura, seqüestro, desaparição, execução – em nome de uma “Doutrina da Segurança Nacional”, pioneira das doutrinas de guerra do governo Bush.

Foram atacados todos os vestígios de democracia social e política, foram destruídos os sindicatos e os partidos, perseguidos os movimentos estudantil, operário e camponês, reprimidas as universidades e toda forma de pensamento crítico e independente. As economias da região foram submetidas abertamente ao domínio do capital estrangeiro, desnacionalizadas as empresas, privatizado o patrimônio público, desarticuladas as formas de integração regional, mercantilizada a imprensa,impôs-se definitivamente o monopólio nos setores industrial, comercial, bancário, agrário e midiático.

A história da região passou a estar marcada por um antes e um depois das ditaduras militares. As elites dominantes, através desses regimes de terror, trataram de fazer com que as classes populares pagassem caro seu atrevimento de disputar o poder nas nossas sociedades. Quiseram reduzir-las a “seu lugar” de classes subalternas, exploradas, humilhadas, discriminadas e, com a repressão que desataram contra elas, prepararam o caminho para os governos neoliberais.

O golpe argentino foi o mais sangrento de todos, porque teve que se enfrentar com uma oposição que, além da força de massas, conseguiu construir uma impressionante força militar. Contando com as tenebrosas experiências de tortura da ditadura brasileira – o “pau de arara” foi uma das mercadorias da pauta exportadora da ditadura – e dos fuzilamentos da ditadura pinochetista, a ditadura argentina também aprendeu, com a chilena, que não valia a pena deter as pessoas. Pinochet disse a Videla que a experiência do Estado Nacional era negativa, que se sucediam campanhas pela libertação dos presos, que desgastavam o regime. Havia que “desaparecê-los”.

A partir dali, os presos que eram interrogados sem capuz sabiam que seriam fuzilados, porque não importaria a seus torturadores serem reconhecidos. Milhares de pessoas tiveram seus corpos jogados no rio da Prata, nos dois vôos semanais conhecidos como vôos da morte, que eram acompanhados sempre por um capelão da Igreja católica argentina.

Foi provavelmente este o destino do Tenorinho, o pianista do Vinicius que se encontrava em excursão por Buenos Aires, quando foi detido, por engano, por usar barba, confundido com um líder montonero. Como havia sido torturado sem capuz, porque o dirigente montonero seria fuzilado, Tenorinho foi assassinado para não transmitir seu testemunho sobre as torturas e sobre seus torturadores.

Foram duas décadas de horror para a região, que ainda não se recuperou de seus efeitos. Muitos políticos que participaram das ditaduras – no Brasil, para citar apenas os que andam pelos noticiários de jornal, como Antonio Carlos Magalhães, Jorge Bornhausen, Marco Maciel, para citar apenas a alguns, majoritariamente no PFL – continuam impunemente a ocupar cargos públicos.

As anistias acobertaram os criminosos e seus cúmplices. Pelo menos Videla e Pinochet têm que se enfrentar com algumas das conseqüências dos seus crimes. Mas as raízes que os regimes de terror implantaram – inclusive a promoção acintosa de alguns grupos econômicos – continuam presentes nas nossas sociedades.
 Fonte: Agência Carta Maior

 

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Leitura e inclusão social
Correio Braziliense
Segunda-feira, 10 de abril de 2006

Jorge Werthein

Doutor em educação pela Universidade Stanford (EUA), é assessor especial do secretário-geral da Organização dos Estados Ibero-Americanos para a Educação, a Ciência e a Cultura (OEI)

A educação básica obrigatória e gratuita constitui-se direito universal, econômico e social reiterado pela Constituição brasileira e por diversos documentos internacionais, tais como a Declaração do Milênio e o Marco de Dacar. Ela é também a base para a realização de outros direitos: saúde, liberdade, segurança, bem-estar econômico, participação social e política.

Se a educação é a base necessária à realização de outros direitos, o livro é condição imprescindível para que se efetive a educação. Contudo, se não existe educação sem livro, tampouco há livro sem educação. Em outras palavras, sem formar leitores em escala planetária por meio da educação de qualidade para todos, a distância entre os que têm e os que não têm acesso a informações tende a aumentar.

É nesse contexto que merece atenção especial o Plano Nacional do Livro e da Leitura (PNLL), a ser lançado no próximos dia 18 pelo governo federal. É um conjunto de projetos, programas e ações que atenderão à Política Nacional do Livro, criada por lei em 2003. O PNLL envolve o governo (nas esferas federal, estadual e municipal), o setor privado e as organizações não-governamentais, tanto em sua elaboração quanto em sua execução. Trata-se de desdobramento das ações relativas ao Ano Ibero-Americano da Leitura, celebrado em 2005. O plano tem o apoio da Organização dos Estados Ibero-Americanos para a Educação, a Ciência e a Cultura (OEI) e da UNESCO.

O PNLL chega em boa hora. Os resultados mais recentes do Sistema de Avaliação da Educação Básica (Saeb) levam à verificação de que o Brasil tem enormes desafios a serem superados nesse campo, na medida em que revelam que a leitura não é habilidade amplamente difundida entre as crianças e os jovens brasileiros. Em 2003, mais de metade dos alunos da 4ª série – 55,6% – eram incapazes de inferir informações explícitas em textos mais longos ou de reconhecer a idéia principal de um texto. Considerando o universo dos alunos da 8ª série, 25% do total não conseguem compreender textos narrativos de baixa complexidade.

Esses números apontam para uma realidade crítica, pois a escola, em lugar de cumprir seu papel social de introduzir o estudante na cultura letrada, está formando indivíduos precariamente alfabetizados, que correm o risco de engrossar as legiões de excluídos. Afinal, a leitura, ao possibilitar o domínio da palavra, é poderoso instrumento de desenvolvimento individual e de emancipação. Consiste, também, em importante meio de socialização, porque permite que a pessoa elabore mensagens e se comunique por meio de um código comum ao conjunto da sociedade.

Por isso, não é exagerado afirmar que a leitura é imprescindível no processo de produção do conhecimento e de formação de cidadãos capazes de compreender e atuar no mundo contemporâneo. Finalmente, a leitura – associada à escrita – é ferramenta indispensável para a efetiva participação social e econômica, contribuindo para o desenvolvimento humano e a redução da pobreza.

Os resultados do Saeb apontam, portanto, para a necessidade de investir, sistemática e prioritariamente, na formação de leitores – o que implica, obrigatoriamente, melhorar a qualidade da educação básica, disponibilizar à população livros e bibliotecas públicas.

Estudos com base nos resultados do Pisa (a avaliação internacional realizada periodicamente com alunos de 15 anos) revelam que o interesse pela leitura é grande indicativo do quanto os alunos lerão no futuro. De acordo com as análises, é a freqüência com o que os jovens têm contato com livros, livrarias e bibliotecas que conduz ao gosto e à necessidade de ler.

É verdade que, no mundo atual, a Galáxia de Gutenberg não brilha sozinha, convivendo com uma multiplicidade de linguagens poderosas, tais como a linguagem eletrônica e a linguagem visual. Como disputa espaço e atenção com outras linguagens, o livro corre o risco de se tornar um meio de comunicação entre outros. Contudo, ele continua a ocupar lugar central na sociedade, pois é por meio dele que se desenvolve a leitura e, sem a leitura, as portas para as outras linguagens e para a informação não se abrem.

Afinal, o acesso à informação depende da capacidade de decodificar e interpretar. Sem essas habilidades, o indivíduo não se insere plenamente no mundo do trabalho nem na sociedade. Portanto, a formação de leitores se coloca como prioridade e um desafio para a educação e, mais do que isso, como uma questão fundamental e estratégica para qualquer nação que almeja superar a condição de país em desenvolvimento.


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Pragmatismo e política

A vitória de Sancho Pança·

 

Roberto Amaral··

 

“Cada vez que, em nossa própria vida, nos recusamos a uma salida, porque sabemos que o nosso ato não terá força sobre as condições externas e assim não poderá remover obstáculos opostos ao nosso intento, estamos agindo contra o espírito de D. Quixote”.

San Tiago Dantas

I

Com o concurso da violência e da traição, Agátocles tomou o governo de Siracusa e nele se manteve. Bom Príncipe. Também graças à violência e à traição, Oliverto conquistou o principado de Fermo, mas só se manteve no poder por um ano, derrubado e assassinado por César Bórgia, a quem não soube derrotar. Mau Príncipe.

Os termos bom e mau podem ser  substituídos por competente e incompetente. A competência é medida pela capacidade do Príncipe de fazer efetivo o poder, de conservá-lo. Não se questionam – não são objeto de juízo de valor-- os meios de aquisição e conservação do poder. Importa saber, tão-só, se foi mantido ou não.

Distanciando-se dos que o precederam, Maquiavel rompe com as classificações ético-valorativas dos regimes e formas de governo, para tratar da política fenomenologicamente, ou seja, tal qual é : a política malgré elle-même. Ao fazer da prática uma teoria, deixou de construir um quadro de idéias. Liberta a política da teologia e da moral, volta-se para a leitura da história real; substitui o dever ser  pela compreensão do que é, assim como é.

A obra de Maquiavel, fruto do conhecimento da Itália na qual pretende intervir como agente de modificações,  tem objetivo preciso, a saber, revelar ao Príncipe os modos e meios de conduzir um povo à sua unificação. Move-lhe o que no século XX um patrício seu grafará como a grande política : as questões maiores (fundação de novos Estados, sua unificação e administração), a luta pelo poder, a defesa ou transformação de estruturas orgânicas econômicas e sociais.

Para o fundador da ciência política, há, simplesmente, principados e repúblicas que se conquistam e que se perdem, principados e repúblicas que se conservam e principados e repúblicas que não sobrevivem. Essa conservação é também a promessa de um bem, conforme dizia Aristóteles e percebeu Maquiavel, que pioneiramente acenou com a construção da utopia italiana, conforme se lê no último capítulo de O príncipe.

O elemento distintivo, portanto,  é a efetividade do poder, a serviço da qual precisa estar voltado o melhor engenho do Príncipe. A providência divina é substituída pela fortuna, ou seja, pelas condições exteriores, pelas circunstâncias e pelo destino, e a  melhor qualidade do Príncipe é a virtù, isto é, a eficiência, sem consideração dos meios, embora o bom príncipe seja aquele que sabe situar-se diante do imponderável, jamais deixando de ser portador de esperança: deve ser amado e temido pelo que encerra de promessas, porque o principado não pode ser conservado apenas pela força. A fortuna, autônoma em face da vontade do indivíduo, oferece o momento propício para a ação. O homem de virtù é aquele que sabe identificar a ocasião correta  para intervir com êxito. Príncipe virtuoso é aquele que sabe conquistar e conservar o poder.

Se o fim da política é a conservação do poder – e não mais a realização do bem comum --, o fim do poder é ele mesmo. Fim  e auto-justificativa. Estes são os efeitos práticos da versão que Maquiavel propõe para o poder. Dela derivada é a especificidade da política, sua autonomia conceptual, a existência de um corpus doutrinário próprio e de uma axiologia própria. A ética da política, pois, estaria estreitamente vinculada ao exercício do poder, isto é, vinculada à sua efetividade. O poder é. Trata-se de razão prática, testada a priori, medida pelos resultados.

 

II

Como proscrever o oportunismo, se se admite que a essência da realpolitik é a efetivação (e ampliação) do poder?

A isto chamo de o conflito entre Sancho Pança e o Cavaleiro da Triste Figura, o voluntarioso vencido pelo oportunismo do aprendiz de escudeiro,   pobre incréu apegado à realidade material, avesso aos sonhos e às utopias.

Qual o objetivo do Quixote? Mudar o mundo  para melhor. Não vem à balha que mundo novo é esse imaginado em seus devaneios; não interessa se o herói sem vitória realizará ou não  seu sonho, muito menos importa saber se esse mundo sonhado é possível. O relevante é a crença na mudança e a certeza de que o homem pode intervir, transformando a ficção em realidade.

A característica do espírito quixotiano é a rebeldia. A fé na liberdade (que implica escolha) e na capacidade de ação do homem, a busca de uma indefinida ‘justiça distributiva’, a crítica à sua sociedade, o combate quase anarquista (avant la lettre)  à autoridade e às leis, aos usos e costumes estabelecidos, a aposta na força da vontade do indivíduo. Quixote revela uma concepção de liberdade individual que torna questionável toda manifestação de poder. Daí simbolizar, também, um humanismo desobrigado de êxito.

Que diremos, porém, de seu fiel escudeiro senão que se trata de um oportunista, sem convicções a guardar, um realista fascinado pela perspectiva  representada pela governança da ínsula  prometida pelo amo?

Quixote é o paroxismo da intervenção; Sancho, a apatia. Quixote não é só delírio, é também esperança. Sancho é a eficácia, o terra-a-terra. Insistentemente lembrará ao fidalgo que os moinhos de vento são apenas moinhos de vento; acredita que ganhará a ilha, mas, astuto,  duvida do cavaleiro quando a promessa se transforma na oferta de um reino.

 

III

Na política que está mais para o oportunismo do escudeiro simplório e pedestre do que para a fantasia do cavaleiro anacrônico o valor é determinado pela equação custo-benefício e a ação é condicionada pelo império das circunstâncias, que tudo absolve e justifica, inclusive a orfandade dos princípios.

O pragmatismo determina a renúncia às utopias. Do primado da eficácia decorre o automatismo da política do possível sobre o desejo e a necessidade. O reino da objetividade é o aqui e agora.

O voluntarismo do herói cervantino, a obsessão individualista de intervir na realidade, antecipa a discussão contemporânea do papel do homem na história. Porque o determinismo mecanicista e o pragmatismo na política (no sentido de submissão ao império das circunstâncias) anulam a escolha. E se não há escolha, não há intervenção, seja a intervenção individual, seja a intervenção coletiva da humanidade.

Mas há escolha, sempre, e nela está presente o fator subjetivo. Dizia Lênin que o elemento determinante da revolução era o fato de os de cima não poderem continuar como estavam, e os de baixo não poderem e não quererem. Em diversas experiências históricas quem estava em cima continuou do mesmo jeito. E os de baixo só começaram a não mais querer porque alguém lhes disse que não mais quisessem. Alguém é, no caso, um ente coletivo dotado de vontade, que age, um sujeito histórico; não se curva à correlação de forças, mas nela intervém para alargar suas possibilidades de participação. Engels, em carta a Plékhanov, já havia lembrado que é o próprio homem que faz a sua história, mas que a faz sob diversas condicionantes, uma só das quais é a econômica. Diz isso para lembrar a interferência de condições políticas e ideológicas. Gramsci refere-se à vontade como consciência e protagonista da necessidade histórica, atravessada pelas contradições sociais. Antes de todos, Maquiavel destacou a ação livre do homem transformando a história, ao lado da interferência do acaso e do irracional.  Moisés, Ciro, Rômulo e Teseu são exemplos dos que foram Príncipes pelo seu valor e não por boa sorte.  César Bórgia adquiriu o Estado com a fortuna do pai, e sem esta o perdeu, embora agisse com competência. O Rei Luís, afagado pela fortuna, perdeu a Lombardia porque lhe faltou virtù.

Que é a virtù maquiaveliana senão o encontro do conhecimento da realidade com  a vontade (armada de competência) de querer transformá-la?

Tomemos livremente as palavras de Bernstein, e não o sentido de sua sentença reatualizada pela política de nossos dias: o movimento é tudo, o objetivo é nada. A conquista do poder é tudo, o quê fazer, é nada; a conservação do poder é tudo, o programa é nada.

Posto que o movimento é tudo, ele é, também, o objetivo final; o mais, o resto, é nada. Tática e estratégia se fundem.

Vê-se, portanto, o fazer político dominado por uma praxis que consagra o poder pelo poder, como meio e como fim. Não se diz que os fins justificam os meios: simplesmente os meios (a conquista do poder e sua conservação) se transformam em fins. 

Aceite esse princípio, tudo o mais estará legitimado. O poder que se explica por si mesmo constrói uma nova axiologia, pela qual o fundamental é sua conservação, projeto tão precioso que pode justificar a ausência de objetivo, ou a transformação do meio em fim. Tudo o que se fizer estará justificado, porquanto o novo Príncipe está armado dessas imunidades éticas. Os meios, quaisquer, estão justificados pelos fins, e não há fim mais legítimo do que a conquista e conservação do poder.  Ganhar para mudar (leia-se, realização de um objetivo) transforma-se em mudar (leia-se, aceitar quaisquer meios) para governar.

Daí a apropriação fundamentalista do Estado, mesmo em regimes não-autoritários e republicanos. Desaparecem a dúvida e o pensar, substituídos pelo puro agir. O objetivo do mandato parlamentar, eis um exemplo, passa a ser  sua renovação, e o governante passa a governar simplesmente para continuar governando. A governabilidade e a continuidade,  transformadas em fins em si, se auto-justificam e justificam os meios empregados pelos governantes para realizá-las. É a política reduzida às táticas,  a política como técnica; é, nas palavras de Gramsci,  a pequena política, a administração passiva do cotidiano em prejuízo das propostas estratégicas, a política do dia-a-dia, dos corredores, das intrigas, das negociações, do tráfico de influência, dos truques e das tramóias. 

Voltemos a Berstein. Digamos, agora: a causa é tudo, o resto é  nada. A Causa é o fim justificador dos meios, se esses meios são eficientes para a realização daqueles fins. A política deixa de ter um quadro axiológico próprio e são construídos dois mundos éticos não-comunicantes: o mundo ético derivado e contribuinte da Causa, e o mundo ético dos outros. É o que nos diz antigo sociólogo feito Príncipe em República sereníssima. Citando Max Weber, ditou  a existência de duas éticas, a ética do governante e a ética comum, dos indivíduos, e mais do que isso afirmou ainda que o governante não pode estar subordinado à ética do senso-comum, porque há uma ética do chefe-de-Estado e uma ética, distinta, dos indivíduos, uma ética própria das religiões, uma ética própria do poder econômico-financeiro, uma ética própria dos Partidos etc.

Para  manter o poder, muitas vezes o Príncipe age contra sua palavra, seus escritos, seus compromissos, que logo exortará os súditos a esquecer, como o Príncipe intelectual pede que esqueçam o que escreveu quando era sociólogo. Ele próprio esquecerá suas promessas, valer-se-á da astúcia e da simulação para governar. Porque, diz ele,  o Príncipe não pode observar todos os preceitos de que são súditos os homens considerados apenas bons, o comum dos homens. Das suas ações, o importante é o êxito. Por isso os meios que empregar serão adequados, se levarem ao bom êxito.

A Causa, que reduz tudo o mais a nada,  pode ser a derrota do adversário e pode ser a unidade nacional: Maquiavel exortou a casa dos Médicis a eleger o Príncipe virtuoso que faria da Itália uma nação unificada. Era a sua utopia. A Causa pode ser um interesse de classe ou  a emancipação política, pode ser a Revolução social, ou pode ser o Partido, ou o ‘Mercado’, com suas idiossincrasias, sua ciclotimia, seus caprichos; pode ser a simples reprodução do poder do soberano. Depende do tamanho da alma do Príncipe.

Se o novo Príncipe é um ser ungido, por si e pela Causa, e por haver sido ungido está acima do bem e do mal, também acima do bem e do mal se entenderá o Partido do Príncipe, porque ambos terão sido sagrados por uma Causa que está acima do bem e do mal, pois, dirá o Príncipe, trata-se da Causa dos trabalhadores, ou do País. E como esse fim é o melhor possível para o povo (assim decidiu o Príncipe), o que se fizer para alcançar tal meta estará  auto-justificado. Eis como o fim da política passa a ser a permanência do Príncipe e do seu Partido político no poder, pela simples razão de o Partido haver deixado de ser mero instrumento da realização de um projeto de governo, para transformar-se no próprio projeto. E por que  o Partido do Príncipe estaria acima do bem e do mal? Porque, sendo o Partido do Príncipe, se auto outorgou a categoria de vanguarda do povo, em nome de cujos interesses tudo está sendo feito e tudo pode ser feito.  Mas o Partido também tem sua própria vanguarda, ou estamento ou nomenklatura, que deve comandá-lo porque é igualmente a representação dos interesses do povo; o que essa (nova) classe dirigente tiver feito em benefício do Partido (ou para conservar o comando partidário), terá feito em benefício final do povo, o que vale como absolvição plena de quaisquer erros ou vícios.

Originária do proletariado, essa nova classe dirigente pode adquirir hábitos e valores pequeno-burgueses; moralista, pode defender alianças políticas que negam seu projeto político, e, para conquistar o poder, conservá-lo ou ampliá-lo,  sente-se mesmo autorizada a  ceder à corrupção; de esquerda, pode, eventualmente  no governo,  assumir o programa da direita; progressista, pode assimilar a política conservadora; mudancista e reformista, pode governar a continuidade. E considerar-se-á, sempre, auto-absolvida pela Causa. Esta Causa, porém, para o governante, é a só governabilidade, e para o Partido do Príncipe, é a simples auto-reprodução dos quadros dirigentes.

O novo Príncipe, narciso, coloca-se como detentor da verdade absoluta, que lhe faculta a posse de uma ética privada; seus atos estão previamente justificados, porque o move a certeza de estarem a serviço da transformação social que só existe na própria mente tomada desse delírio. O dirigente pragmático, sinceramente, não compreende que seus atos possam ser acusados de anéticos ou amorais, que sua conduta seja questionada socialmente, porque, no delírio, perde as referências que definem uma e outra coisa. Essas referências, que vêem do mundo exterior, são substituídas por seu próprio quadro de valores, uma super-ética que, como pesado manto de veludo, encobre e sufoca princípios e justifica seus atos, porque essa é sua finalidade. Nele, saber e poder se confundem, reescrevendo o cogito cartesiano: posso, logo sei.

A  tragédia é que esse Príncipe não consegue enxergar qualquer política além dos malabarismos para manter o poder, transformando-o em algo que se explica por si mesmo; é a preeminência do dia-a-dia, do cotidiano, do imediato. E muitas vezes o poder, Pigmaleão moderno, é que esculpe o Príncipe. Daí as transformações aparentemente  incompreensíveis, as mudanças de hábitos, de costumes, de posturas, de práxis, de idéias, de programas. Não é mais o Príncipe que muda o poder.

Caminhamos pela segunda aléia do cemitério dos princípios. Agora se foram os sonhos, as utopias. A primeira perda deu-se com a vitória do pragmatismo sobre o desejo e a necessidade.

Talvez seja possível, a esta altura, concertar todas essas hipóteses em dois modelos ou situações. No primeiro caso, temos o poder pelo poder, sem meios que justifiquem as ações do Príncipe. É um jogo de pura efetividade, todo voltado para a manutenção do poder. Nesse modelo, o horizonte do projeto não vai além do campo visual do Príncipe.  Já no segundo caso, a grandeza da Causa justifica a ruptura do padrão ético, pois a Causa é, em si mesma, ética. Ou, dito de outra forma: a Causa encerra toda a ética da política. Mas quem mede a grandeza da Causa, portanto sua ética justificadora, é o próprio Príncipe…

 

IV

Por duas vezes Getúlio Vargas exerceu a presidência da República. Esses dois períodos, distintos entre si pela forma de conquista e conservação do poder, teriam, como elemento unificador,  um projeto de nação. Haveria uma Causa como alma e corpo do governo: a emancipação do país por intermédio da  modernização do Estado, único caminho para a industrialização e o desenvolvimento, a industrialização como garantidora do desenvolvimento, o desenvolvimento como conditio sine qua non para a emancipação, e pela introdução de um novo paradigma cultural, caracterizado por uma vontade nacional. O liberalismo revelara-se incapaz de promover o desenvolvimento e a democracia só parece ter sentido se amarrada a objetivos nacionais.

Em outras palavras: o varguismo teria uma Causa imperativa. Pela primeira vez, entre nós,  a política se colocava nestes termos.

Após exercer vários mandatos eletivos e disputar pela primeira vez, perdendo, as eleições presidenciais, Vargas lidera um movimento civil-militar auto-intitulado de revolução, e, com a força das armas, destitui o poder legalmente constituído, revoga a ordem constitucional, e assume as funções legiferantes. Assim governaria por quatro anos, quando, após esmagar uma insurreição que pretensamente reivindicava a reconstitucionalização do país, cede às pressões da sociedade e convoca uma assembléia nacional, a qual aprova nova Constituição e, em seguida, transforma o ditador em presidente para  um mandato de quatro anos. O novo regime, constitucional e democrático, conhece a emergência de movimento político essencialmente nacionalista e antiimperialista, simbolizado na Aliança Nacional Libertadora, que Vargas mandaria fechar para em seguida esmagar um levante militar liderado pelos comunistas. Os quatro anos da democracia prometida se transformam em três anos e quatro meses incompletos, porque o Presidente,  antecipando-se ao seu Ministro da Guerra, faz-se ditador, decreta outra vez o fim do regime constitucional e anuncia uma nova era que denomina de ‘Estado Novo’. Fecha o Congresso que convocara e cuja eleição presidira (e, ainda, que o elegera Presidente), edita nova Constituição, autoritária, destitui os governadores e nomeia interventores, governa por intermédio de decretos-lei e submete o país a rígida censura.

O regime antidemocrático e anticomunista enfrenta e esmaga um putsch integralista e anticomunista. As liberdades individuais são suprimidas, os partidos políticos dissolvidos, os  adversários do regime submetidos a prisão, tortura e exílio; o Judiciário posto sob controle. A autonomia dos estados-membros é substituída pela asfixia unitarista, anulando o pacto federativo. Paradigmaticamente, são queimadas as bandeiras dos Estados. O regime tem duas pernas de apoio. Uma são as Forças Armadas, outra um pacto social envolvendo a burguesia industrial, o operariado e a emergente classe média. Unindo-as, o projeto nacional-industrialista. Oito anos passados, alteradas as circunstâncias, Vargas é deposto por um golpe-de-Estado chefiado pelo seu Ministro da Guerra, o mesmo que  comandara militarmente o golpe anterior. A ditadura tornara-se anacrônica em face das lufadas democráticas sopradas pela derrota militar do nazi-fascismo.

A redemocratização implicou a convocação de eleições, a elaboração de nova Carta, a eleição de um presidente pelo voto direto. Elege-se o candidato apoiado pelo ex-ditador e ele mesmo é consagrado pelo voto popular, candidato nas mesmas eleições a vários postos eletivos em vários Estados.

Tornar-se-á, o ex-ditador, no novo regime, eleito senador da República,  disciplinado servidor das regras constitucionais e da democracia representativa, cujo fundamento é o voto. Participa da criação do Partido Social Democrático, majoritário, à sua direita, e funda o Partido Trabalhista Brasileiro, à sua esquerda.

Em 1951 retorna à Presidência, alçado pela manifestação de quase 49% do eleitorado. No governo, associa a proposta de um programa reformista, mantida a saga nacionalista e industrialista, com rigoroso respeito à ordem democrática. O que não o livrou, porém, da arregimentação oposicionista de cunho liberal e moralista. A  grande imprensa -- os jornais, revistas, o rádio e a nascente televisão -- move-lhe incansável combate, e a crise política, fragilizando-o, terminaria por preparar sua deposição, levada a cabo pelos militares, com apoio das correntes políticas conservadoras e da classe-média.

Pela segunda vez, alteradas as circunstâncias, não teve forças para controlar o curso dos acontecimentos, e, assim, não lhe foi dado conservar o poder que soubera conquistar.

Amado pelo povo, deixara de ser temido pelos adversários; acusado seu governo de corrupto, descobriu-se ele, pessoalmente probo, traído pelos auxiliares mais próximos. Declarou-se esmagado por um ‘mar de lama’ que correria pelos porões do Palácio. Enfrenta a iminência de um novo golpe-de-Estado com o suicídio na madrugada-manhã de 24 de agosto de 1954. Despede-se  com vigoroso libelo em defesa do nacionalismo.

Pragmatismo, realismo e sonho. Nesses valores estariam a virtù varguista, para quem a revolução e o processo eleitoral democrático, tanto quanto o golpe-de-Estado, são, simplesmente, meios de aquisição do poder, e, simplesmente meios, servidores da Causa  (ou fim) comum, a emancipação do País, fonte única da legitimação ética. Dessa mesma Causa decorre a legitimação dos meios empregados para a conservação e ampliação do poder, que, como vimos, tanto podem ser a ditadura quanto a democracia representativa.

 

VI

 

Se a política não pode apartar-se do pragmatismo, do realismo e da eficácia, de que decorre a efetividade, ela não pode ser apenas isso, pois seria, tão-só, a pequena política. Há,  também, a grande política, que implica sonho, quimera, esperança, irresignação. Essa é, fundamentalmente, uma utopia, pois um dos fins da política é a promessa de transformar em realidade a ficção do revolucionário, que não pode desistir e não desanima, embora o sonho, como a linha do horizonte, dele se afaste quanto mais caminha em sua direção.

O desafio é fazer o encontro e o entendimento entre o escudeiro e o engenhoso fidalgo cavalheiresco, personagens que, aliás,  se completam.  Não conseguimos pensar em Quixote sem Sancho, e vice-versa, leituras burlescas do pragmatismo e do sonho, do imediatismo e do ideal.

A complementaridade dos protagonistas cervantinos reafirma a ambivalência humana. O encontro do Quixote com o Sancho é imprescindível. Sancho sem Quixote jamais sairia do seu vilarejo, da sua circunstância mais que medíocre, e pereceria por ali mesmo vitimado por sua ignorância. Quixote sem Pança, entregue aos próprios delírios, dificilmente sobreviveria ao primeiro embate.

Sancho, isolado, é a vertente grotesca, mesquinha e anã do realismo. Aqui simboliza o pragmatismo político em todas as suas limitações. Cervantes, fazendo da ação quixotesca um delírio sem base no real, foi mais cruel com o escudeiro, caricaturando-o como o símbolo de realismo rasteiro, sem Causa, fim em si mesmo.  Os realistas vitoriosos agem e conquistam porque também sonham, transmitem sonhos e criam a esperança de realização desses sonhos. O Príncipe maquiaveliano, misto de virtù e fortuna, intervém no mundo, age de acordo com a realidade objetiva, tem os pés na terra, mas, igualmente, fita o aparentemente impossível, vale-se de engenho e arte para realizar sua utopia; ou seja, é realista e sonhador. Realista quando se depara com os problemas da vida concreta, ou quando engendra soluções para problemas que ainda não se apresentaram. Sonhador quando aspira ao poder, quando vê para além do horizonte ou de seu tempo: enxerga o que os outros não conseguem ver, realizando o que seus contemporâneos consideram inconcebível. Que seria unificar a Itália do século XVI senão uma utopia? Lênin, revolucionário vitorioso e homem de Estado, é bom exemplo do encontro do realismo com o sonho. Soube sonhar a revolução –- intervir na realidade para fazer o novo nascer --, e soube conquistar e conservar o poder. De Vargas não se pode dizer tratar-se, apenas, de um realista, porque foi aquele realista que perseguiu o sonho de construção de um novo Estado. Che, foi apenas sonho. Rejeitou ínsulas e reinos, rejeitou o poder como fim da política e foi procurar sentido na busca permanente de uma Dulcinéia inalcançável, e quanto mais inatingível mais desejada. Ao contrário do Quixote, que conheceu em casa o último leito, morreria solitário, na solitária luta contra Moinhos de Vento reais, desaforados gigantes reais e dragões reais. Quando não lhe foi mais possível nem sustentar o sonho nem conservar o poder, Vargas optou por sair de cena.

Há o sonho-delírio que faz o Príncipe ignorar a realidade, construir seu mundo artificial e nele viver. Há um realismo que é pura sujeição às circunstâncias, a mera passividade em face do império dos fatos: o ator não pensa, não age, não reage, curva-se ao que lhe parece ser a sua realidade. No oposto dessa mediocridade, Quixote se supera. O sonho o impele, o empurra, e o real baliza sua conduta no jogo político, sem obrigá-lo a respeitar cegamente os limites que lhe são impostos, pois, o tempo todo, procura alargá-los.

O pragmatismo e o oportunismo, o realismo dos medíocres, dos ‘sensatos’, mesmo associados, não são garantia do bom êxito. A vitória não sorriu para o realismo colaboracionista de Pierre Laval, mas para os maquis que se entregaram à resistência insana.

É possível o encontro, no mesmo Príncipe, do sonho e do realismo?

O revolucionário vitorioso é aquele que reúne essas duas categorias. Ele sonha, e para realizar seu sonho, desbasta o que encontra em seu caminho, sejam guerreiros, sejam moinhos de vento, reais ou imaginários. E os vence a todos. Mas, ao mesmo tempo, a realidade, isto é, a exata medida da correlação de forças, é a base de sua atuação política. O bom Príncipe moderno, já nos foi dito,  é aquele que concilia o pessimismo da inteligência com o otimismo da vontade.

Sem a fantasia de que é possível mudar o mundo, a política não merece ser feita. Mas ela, sempre, precisa ser feita, porque o novo não está assegurado. Os avanços sociais não decorrem nem de um determinismo mecanicista, nem de qualquer sorte de fatalismo, ou exercício divino; eles dependem da intervenção do homem (portanto, de sua vontade); cabe ao homem  construir o mundo e construir-se nele, definindo seu futuro.

V

O Marquês de Pombal, cujo despotismo sem limites foi posto – com êxito-- inteiramente a serviço do projeto de modernização de Portugal, a Causa de sua vida,  conheceu como poucos estadistas os meandros do poder que dominou com força e maestria inexcedíveis. Dominou a Corte e a nobreza portuguesas e destronou os poderosos jesuítas.  Poderosíssimo e ferocíssimo  -- poucos como ele tanto exacerbaram a hipertrofia do poder pessoal--,  conhecia a adulação e a falsa lisonja de que foi alvo e não ignorava a queda dos monarcas pelos bajuladores, ele que tanto soubera cativar a estima de D. José. Com tal autoridade aconselhou seu sobrinho Joaquim de Melo e Povoas, que fizera governador do Maranhão,  a não seguir o exemplo do rei Acab, que só ouvia os profetas que lhe prediziam os bons fados e afastava de si os que ousavam vaticinar o que não desejava ouvir. Dizia para o sobrinho  tratar como inimigos os aduladores,  deles se apartando como quem evita o pior inimigo, como quem foge do veneno mortal. Parecia antever seu próprio fim, isolado na Corte, decaído pelas tricas e futricas palacianas, pelo jogo da pequena política que tece e destece, que tanto leva ao poder o político ardiloso quanto o faz conhecer o degredo.

O poder também consome.

Não diz a história se o sobrinho levou em conta  o conselho do tio. 

VII

Todo Príncipe tem inimigos. Esses inimigos ele elege quando escolhe com quem e para quem governar. Quando se faz defensor dos camponeses, atrai a fúria dos fazendeiros; quando opta pelos empresários, conquista a animosidade dos trabalhadores. Outras vezes, ao tentar atender igualmente aos interesses de gregos e de troianos, termina perdendo a estima de ambos. Esse inimigo pode ser uma das várias frações do grande capital ou os grandes proprietários. O inimigo pode estar dentro ou fora dos muros da cidade. Pode ser um adversário externo, o que, em regra, leva à unidade dos súditos em torno do seu líder, esquecendo disputas domésticas. Todo  Príncipe deseja um inimigo assim, pois essa é a melhor arma de que dispõe para conservar o poder. Muitas vezes, esse inimigo precisa ser inventado para poder garantir a coesão interna. Se esse é o bom adversário, o pior é o que está dentro de casa, faz parte do governo, freqüenta os palácios ou integra as fileiras do exército. Sun Tzu, muitos séculos antes de Mazarini, Pombal e Maquiavel ensinou que, sem harmonia no Estado, não adianta ter exército; sem harmonia no exército não pode haver formação de batalha. Harmonia não é apenas a paz interna, mas também a eleição do objetivo comum, aquele que torna secundários todos os demais projetos. As tropas formando um corpo unido impedem que os bravos avancem sozinhos e que os covardes abandonem a luta.

Getúlio Vargas afagou as classes empresariais e com elas também terçou armas; afagou os trabalhadores e por eles foi amado. Mas quando a fortuna se voltou contra si, não lhe foi possível enfrentá-la, pois emergiu a dissensão em sua retaguarda:  traído dentro do Palácio, sem controle sobre as ações criminosas praticadas em seu nome, viu, finalmente, que não contava com seus ministros; estavam muitos deles entre  os que negociavam sua renúncia. Os militares, ao invés de defenderem o mandato constitucional de seu comandante, conspiravam contra o Presidente, e seu Partido não foi capaz de protegê-lo contra os ataques inimigos.  De nada lhe valeu a base trabalhista, que não soube utilizar em defesa de seu mandato. Ao contrário, as massas populares e o moralismo da classe-média, assustada com o ‘mar de lama’, foram mobilizados contra Vargas, no oportunístico encontro de seus adversários ideológicos, de direita, com a  extrema esquerda de então, que também lhe fez oposição.

Outro Príncipe, também em seu tempo amado pelo povo, mas sem despertar o temor dos poderosos,  se esqueceu da importância da escolha de seus conselheiros. Não conhecia o axioma de Mazarin: numa comunidade de interesses, há perigo logo que um membro se torna demasiado poderoso. Também não conhecia a advertência de Pombal e quase tardiamente descobriu que estava cercado de áulicos.  

Não terá sido caso único. Muitos Príncipes se perdem pela má escolha dos conselheiros, pois são daqueles que se inebriam com a lisonja falsa, e se molestam  com as advertências dos que lhes indicam os erros.

O inimigo do Príncipe pode ser interesses de classe contrariados, pode ser um Gabinete desunido, pode ser um ministro todo-poderoso concorrendo com o poder, pode ser um chefe de Guarda Pessoal, e pode ser, também, o próprio Partido do Príncipe. O Partido o trai não apenas quando lhe falta com o apoio no Parlamento, ou lhe nega o voto nas eleições. Também o trai quando  adota práticas, hábitos e costumes ilegais, ilegítimos ou anéticos. Mas o Partido se nega principalmente quando descumpre os compromissos de campanha e adota como seus o Programa e as condutas que combateu para ganhar as eleições. Também o  Partido pode ter seu inimigo interno, quando, por exemplo, sua direção não está à altura de realizar seu programa, quando não tem condições de compreender o desafio histórico (ou, quando,  por vontade própria, ou atendendo a interesse de classe, resolve mover-se noutra direção) e, assim, sucumbe ao pragmatismo rasteiro que abole os sonhos e os compromissos estratégicos.

O Partido trai o Príncipe quando renuncia à grande política e se entrega à pequena política.

VIII

A grandeza do príncipe é medida pela sua capacidade de vencer as dificuldades e superar a oposição que lhe é movida. Grande Príncipe, lembra Maquiavel, é aquele que está à altura do desafio a que se candidata; censurável é aquele que, sem dispor das forças necessárias, enfrenta desafio que não pode alcançar. Não basta ter o desejo de conquista. É preciso ter competência, virtù e fortuna para conquistar seu objeto de desejo.

O reino das circunstâncias não é suficiente, per se,  para determinar o curso dos fatos. Há o acaso e, relevantíssimo, o papel do indivíduo na história. Cabe ao homem intervir, mudar o rumo das circunstâncias, alterar a correlação de forças em benefício de seu projeto de mundo, mundo que se modifica e história que se altera a todo transe. Se o talento de alguns atores pode ser decisivo para a modificação das circunstâncias, há casos, porém, em que o Príncipe não está à altura do desafio. Vezes outras, o desafio da realização da ‘esperança de um bem’ é maior  que a possibilidade de liderança do Príncipe. Se, por acaso,  lhe sobra fortuna, pode falar-lhe virtù. Sem a proteção das circunstâncias, as qualidades pessoais se apagam; mas, sem qualidades pessoais, virtù, a ocasião favorável tornar-se-á inútil. Não consegue fazer-se temido pelos poderosos e perde a simpatia que despertou nos súditos. Nessas ocasiões vence Sancho Pança, porque, visão curta, sua única possibilidade de sobrevivência é como simulacro. Mais simples, mais prático, menos arriscado –- o pragmático ou realista detesta o risco — será aliar-se ao império das circunstâncias. Podendo não ganhar, garante-se de que jamais perderá.

IX

Há casos, porém, em que o Partido se autonomiza  em face do Príncipe e  confunde sua administração doméstica com a administração e os fins do Estado; constrói sua própria ‘classe dominante’, a saber, a burocracia dirigente, a qual se confunde com a burocracia estatal,  porque Partido, Estado e governo estão reduzidos à mesma entidade. Autonomizando-se em face do Príncipe, chega a autonomizar-se em face dos interesses de classe originários, e, contradição em termos, deixa de representar interesses concretos na sociedade, para representar, pura e simplesmente, a possibilidade de conservação da governança, sem condicionantes finalísticas, sem subordinação a objetivos. Sancho Pança quer a sua ínsola, relembremos; pragmático, não alimenta o sonho do reino prometido pelo cavaleiro.

Toda  vez que o político cede ao pragmatismo e  reduz seus projetos ao meramente factível; toda vez que encerra a política nos limites do curto prazo, isto é, toda vez que abandona ‘a esperança de um bem’; toda  vez que o político rejeita o sonho, recusa o desconhecido, teme a aventura, prende-se a certezas, repudia a dúvida e espanca a utopia; toda vez que o governante renuncia a objetivos programáticos, e se entrega ao  aqui e agora; toda vez que, ao invés de ganhar para mudar, prefere mudar para poder ganhar,  toda  vez que isso ocorre, ocorre a vitória de Sancho Pança sobre o Quixote.

É a derrota da política.

Príncipe é quem exerce o poder sobre as coisas e os súditos. Em princípio, é o governante, seja o monarca ou o presidente, derive esse poder da herança, da eleição ou da conquista pela força, não importa. O Príncipe, porém, não é,  tão-só, ou sempre, o governante, pois é possível ao governante ocupar a chefia do governo e no entanto não enfeixar o poder; ou, dele não podendo conservar  o monopólio, ser  obrigado a compartilhá-lo com outras forças. Neste caso temos um poder difuso e a sobrevivência do governante dependerá ou do equilíbrio das forças ou do fato de, dentre todas as frações de poder, representar a força hegemônica, diante da qual, todavia, não conserva autonomia. Quando o equilíbrio se desfaz ou a hegemonia é substituída por outra correlação de forças, o governante é substituído. Assim, se um governante é defenestrado, as circunstâncias já terão gestado o sucessor, pois não há nem vazio de poder, nem concomitância de Príncipes.

O Príncipe não precisa representar, conditio sine qua non, toda a classe dominante; seu poder pode ser o fruto de  uma correlação de forças dominante, ou a força hegemônica dentre todas do mesmo bloco. Pode, da mesma forma, resultar de uma aliança de forças dominantes com segmentos das classes subalternas. Não se trata de uma concordata, posto que não  há a composição de interesses de classes em conflito. Trata-se da assimilação, pela retórica da classe dominante, de reivindicações não essenciais das classes subalternas, as quais, continuando subalternas, passam, todavia,  a ver no Príncipe o pai protetor.

O Príncipe moderno, ocidental, é, cada vez mais,  um coletivo. Trata-se, maiormente, de condomínio de interesses representante das diversas facções da coalizão de classes dominante. Essa coalizão compreende luta dentre as diversas facções em busca da hegemonia interna, donde a sucessão temporal de facções líderes, sem prejuízo do império do interesse de classe que detém a hegemonia dos interesses do condomínio. Assim, sem que se altere a natureza do Estado, e mesmo sem que se mude o governante, pode haver a alternância de predomínio de interesses de facções pertencentes ao mesmo bloco de interesses dominantes; e, ainda assim, alterando-se o conduttore, não se altera nem o governo nem a natureza do mando. Por essa razão não é raro o  governante deixar de governar segundo seus interesses, ou seja, segundo os interesses que representa, para governar governado pelos interesses dominantes, dos quais deriva o mando.

Mais uma vez a vitória da ‘pequena política’.

Eis por que  a luta dos que estão de fora do bloco dominante se opera também dentro do coletivo, ocupando as fímbrias de poder e aprofundando as contradições internas. Esta luta já foi batizada como guerra de posições.

Em regra, os interesses do bloco dominante são representados por um Partido ou um Coalizão de Partidos. O papel de ambos é fazer com que os interesses de uma classe particular se transformem nos interesses de toda a sociedade.  Na primeira hipótese, temos o partido único stricto sensu, e, no segundo caso, temos vários partidos representando o mesmo interesse de classe. Alguns sistemas admitem, de par com os partidos os quais, com variáveis personalísticas, representam o mesmo interesse de classe, a existência de outros partidos os quais podem representar os interesses das classes subalternas, sem, no entanto, serem nem revolucionários, nem muito menos hegemônicos. Por isso há a hipótese, não rara, de aliança pragmática entre partidos com interesses em conflito. O governo do novo Príncipe refletirá essa contradição. 

Por todas essas razões, a alternância de partidos não representa, necessariamente,  a alternância de mando, e as alianças não se fazem em função de um projeto de poder, mas de governo. É o aqui e o agora substituindo projetos de transformação e mudança. Vence o espírito de Sancho Pança.

 

BIBLIOGRAFIA

BERNSTEIN, Eduard. Socialisme theorique et social-démocratie pratique. Editions P.V. Stock. Paris. 1900.

CERVANTES, Miguel de. El Ingenioso Hidalgo Don Quixote. De la Mancha.  Ediciones Castilla, S.A. , Madri. S.d.

DANTAS, San Thiago. Don Quixote, um apólogo da alma ocidental. Tempo Brasileiro. Rio de Janeiro.1964.

GRAMSCI, Antonio. Cadernos do cárcere. Civilização Brasileira. Rio de Janeiro.2004.

MAQUIAVEL, Nicolau. O príncipe. São Paulo. Abril Cultural.1993

MAZARIN, Cardeal. Breviário dos políticos. Editora 34. São Paulo. 1997.

SARTRE, Jean-Paul. Crítica da razão dialética. DP&A editora. Rio de Janeiro. 2002.

SUN TZU. A arte da guerra. Editora Record. Rio de Janeiro. 1993.

BONAVIDES, Paulo & AMARAL. Roberto. Textos políticos da história do Brasil. Senado Federal. Brasília. 2002



·  O autor agradece as contribuições de seus colegas Antônio Carlos Peixoto, Eduardo Diatahy B. de Menezes, F.J. Amaral Vieira, Manuel Domingos (que acompanhou a elaboração deste texto desde suas primeiras linhas), Nilson Lemos Lage, Pedro Amaral e Valton Leitão. Por óbvio, todas as deficiências sobreviventes são de sua exclusiva responsabilidade.

·· Roberto Amaral, ex-ministro da Ciência e Tecnologia, é professor da PUC-Rio, ensaísta e cientista político, autor, entre outros livros, de O papel do intelectual na política e Socialismo: vida, morte e ressurreição (este, com Antônio Houaiss).

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Variações em torno do discurso

(a propósito de um sermão de Vieira)[1]

Roberto Amaral

(Para C. H. Rocha Lima )

 Em seu famoso ‘Sermão da Sexagésima’,[2] pregado na Capela Real, em 1655, o Padre Vieira, chegado das Missões longínquas do Maranhão, verbera os desvarios de linguagem dos pregadores seus contemporâneos. Aqui não cuidamos de forma — castiço, pleno de comparações e alegorias, equilíbrio entre variedade e unidade, este texto foi por ele mesmo escolhido para abrir a publicação de seus sermões —, a forma de uma das mais belas peças da magistral obra oratória que nos deixou; aqui também não cuidamos de conteúdo, fundamentalmente evangélico e apostólico. Cuidaremos, tão-só, de um de seus inumeráveis aspectos — a lição de estilo e eloqüência que nele supomos encontrar, extraordinariamente atual e útil.
             Vieira, ao identificar aqueles vícios de linguagem, termina por oferecer aos pregadores um verdadeiro roteiro de como organizar o discurso. Que é o seu sermão. As regras desse roteiro, o que pretendemos identificar e, talvez, organizar, pensando que assim estaremos contribuindo para a eloqüência de quem dela necessite.

O discurso, para ser claro, não precisa ser raso, como os regatos; a profundidade nem sempre faz turvas as águas

Ensina o Padre que as palavras hão de ser como as estrelas, que são distintas e muito claras, e assim haverá de ser o sermão, diz ele, o discurso, dizemos nós, distinto e muito claro, e nem por isso muito baixo. As estrelas são “muito distintas, e muitos claras e altíssimas”, e como elas deve ser o estilo, “claro e muito alto; tão claro que o entendam os que não sabem, e tão alto que tenham muito que entender nele os que sabem”, pois a altura não diminui a clareza, como a estrela que para ser vista não precisa de ser baixa. Sirva isso para dizer que nenhum tema dispensa a elegância do estilo nem o encanto das palavras, nem o rigor do vernáculo. Nem tema nenhum, por mais obscuro, é tão hermético que não possa ser traduzido em palavras que o comum dos ouvintes possa compreender.

Um discurso, uma só matéria

As palavras, claras, ainda que altas, e altas ainda que compreensíveis por todos, por quem há de ouvi-las (ou lê-las), precisam ter um objeto único, porque o discurso deve ser a cada vez distinto, um discurso a cada tema, pois se “um assunto vai para um vento, outro assunto vai para outro vento, que se há de colher senão vento?”, e a colheita de quem planta vento mais vento é a tempestade. Ao afirmar que o discurso (o sermão) deve ter um só assunto e uma só matéria, Vieira está  criticando fórmula ainda corrente entre nós, a do discurso dilúvio, o discurso correnteza, o discurso que abarca tudo, como as enchentes, e não se fixa em nenhuma mensagem. Ele pergunta que semeadura seria a semeadura do lavrador que primeiro plantasse o trigo, e sobre este o centeio, e sobre o centeio o milho e sobre o milho a cevada. Que havia de nascer, senão “uma mata brava, uma confusão verde”? Por isso, eis a lição, o sermão, isto é, o discurso, deve ser semeadura de uma só semente, e não muitas, “porque o sermão há de ter uma só matéria e não muitas matérias”. A regra é, fundamentalmente, dominar o assunto, conhecê-lo em todas as direções, de todos os aspectos. O orador deve poder dissecar o tema, escarafunchar por todos os meios, saber as altemativas, fazer-se ouvinte critico para poder convencer mesmo o ouvinte incrédulo. Talvez seja conveniente voltar a Vieira, e lê-lo com olhos de hoje: “Há de tomar o pregador (isto é, o orador) uma só matéria, há de defini-la para que se conheça, há de dividi-la para que se distinga, há de prová-la com a Escritura, há de declará-la com a razão, há de confirmá-la com o exemplo, há de amplificá-la com as causas, com os efeitos, com as circunstâncias, com as conveniências que se hão de seguir, com os inconvenientes que se devem evitar, há de responder às dúvidas, há de satisfazer às dificuldades, há de ímpugnar e refutar com toda a força da eloqüência os argumentos oontrários (...)”, mas há de fazê-lo com o máximo de concisão, com o máximo de precisão, com o mínimo de palavras e só com as palavras certas, pois “depois disto há de colher, há de apertar, há de concluir, há de persuadir, há de acabar”. Para tudo isso é preciso, primeiro, conhecer. Por isso...,  bem, podemos ir agora à regra seguinte.

O orador e o texto, ou, o texto e a ciência do orador

O Padre se pergunta: “Quem não enfia nem ata, como há de fazer a rede?” Para que o orador possa colher, apertar, concluir, persuadir -- ־־a finalidade última do discurso — é preciso que tenha ciência sobre o que precisa persuadir. Há de conhecer a língua, há de conhecer a gente para quem fala, e há de conhecer a coisa sobre que fala. Ou, na linguagem de Vieira, não faz fruto quem prega o alheio, e não o seu, mau sucesso terá o semeador que semeia o terreno alheio. “O pregar é entrar em batalha com vícios; e armas alheias, ainda que sejam as de Aquiles, a ninguém deram vitória. Quando David saiu a campo com o gigante, ofereceu-lhe Saul as suas armas, mas ele não as quis aceitar. Com armas alheias ninguém pode vencer, ainda que seja David. As armas de Saul só servem a Saul e as de David a David, e mais aproveita um cajado e uma funda própria, que a espada e a lança alheia.”

O discurso é como uma árvore

De forma simplificada, aprendemos desde cedo que os termos essenciais da oração são o sujeito e o predicado. Assim, no mesmo grau de simplificação, podemos dizer que o discurso deve ter começo, meio e fim. O começo é como a raiz de uma árvore, dela depende o tronco, do tronco os galhos, dos galhos as ramagens e os frutos. O início enuncia a tese, o meio do discurso, o tronco da árvore, os argumentos — dos galhos que saem do tronco brotam os frutos —, o meio do discurso prepara as conclusões. Se os galhos são muitos e variados, o tronco é único como o tema central do discurso, e árvore nenhuma, se muitos frutos pode dar, dá frutos distintos. Os frutos não nascem dos galhos secos, senão daqueles cobertos de folhas, “porque os discursos hão de ser vestidos e ornados de palavras”, palavras que sendo o discurso são também a sua beleza. Segundo seu bom uso. Diz o Padre que na árvore do sermão “há de haver frutos, há de haver flores, há de haver varas, há de haver folhas, há de haver ramos, mas tudo nascido e fundado em um só tronco, que é uma só matéria. Se tudo são troncos, não é sermão, é madeira. Se tudo são ramos, não é sermão, são maravalhas”.

O discurso tem pesos e medidas, variáveis

             Como uma boa árvore fruteira, o bom discurso deve ter de tudo, raízes firmes e sadias, tronco saudável e rijo para suportar o vento e o peso dos galhos, folhas e ramos e frutos saborosos. Cada um em sua medida e peso, diferentes da medida e peso de cada um, ou seja, o discurso tem umas coisas de mais peso e outras mais leves, como tem umas superficiais e outras de mais fundo. O orador precisa saber governar o tamanho e o peso para que os frutos excessivos não façam tombar o tronco magro. Cada coisa tem seu tamanho certo, seu peso certo e cada coisa tem seu momento certo, não podem avançar os galhos antes de o tronco crescer sobre raízes fundas. Isso tudo diz o Padre nessas só palavras: “Na boca de quem não faz a pregação, até o chumbo é cortiça.”

O discurso, para convencer, carece de entendimento (e de alma)

O Padre lembra que pregar (digamos, também, discursar) não é recitar: “as razões próprias nascem do entendimento, as alheias vão pregadas à memória e os homens não se convencem pela memória, senão pelo entendimento”, porque o que há de dizer o pregador (ou o orador) não pode sair só da boca, se há de sair pela boca há de sair antes da cabeça: “O que sai só da boca, pára nos ouvidos; o que nasce do juízo penetra e convence o entendimento.” Mas — e podemos dizê-lo nós? — se apenas fala pela boca o que vem da cabeça, o orador ou recita ou fala da boca pra fora; é preciso, pois, que o juízo revele a convicção do orador, que antes de convencer estará convencido do que diz, porque o bom discurso requer uma boa cabeça para o entendimento, uma alma fervorosa para o convencimento e uma boca competente, porque não basta a razão e a alma, se não há uma boa fala que sabe carregar a oração encantando antes da compreensão. A dicção, a voz que sabe altear e modular-se, o gesto, o jogo das mãos, o jogo das faces, o saber olhar, a presença do orador, a indignação e a mansuetude, ironia e sarcasmo. No discurso, mais que em tudo, conteúdo e forma são irmãos siameses. É preciso, pois, também, saber dizer o que vem da alma e do coração.

Cada um, a sua língua

Se o orador não pode tomar emprestada a ciência, se não serviam a David as armas de Saul, não serve ao orador a língua alheia.  “Uma língua só sobre Pedro, porque a língua de Pedro não serve a André; outra lingua só sobre André, porque a língua de André não serve a Filipe, porque a língua de Filipe não serve a Bartolomeu, e assim dos mais.” Não ouse o orador falar em língua que não domine e nenhuma dominará tão bem quanto a sua, ou, dito de outra forma, sobre todas as ciências o orador depende da ciência de sua língua, sem o que alma nenhuma, nem cabeça nenhuma, nem boca nenhuma conseguirá manter de pé a árvore: palavras não haverá para ornar e vestir o discurso. “Enfim, pregar o alheio é pregar o alheio, e com o alheio nunca se faz cousa boa.” Se a língua de Pedro não é língua de André que não é língua de Filipe, a língua de Pedro pregador há de ser a língua do Pedro ouvinte, do André ouvinte, do Filipe ouvinte, pois todos haverão de falar a mesma língua, mas os falares de cada um da mesma língua não são os mesmos, falará Pedro na língua que entenda o André mais bronco sem o menoscabo de Filipe o mais culto.


Cada discurso no seu tom, que são vários tons

Fala-nos o Padre de Batista afrontando no deserto, fala mesmo nos brados do Cristo que O levaram à cruz, pois “há muita gente neste mundo com quem podem mais os brados que a razão, e tais eram aqueles a quem o Batista pregava”. Se há a gente do deserto que requer o brado e o grito, há aquela outra gente para quem Moisés pedia que sua doutrina caísse “como chuva do céu” e a sua voz e as suas palavras “como orvalho que se destila brandamente e sem ruído”. E se há essa gente cada uma em seu sítio, há essa gente misturada sob o mesmo púlpito e no mesmo auditório, como há as palavras que exigem carinho, frases que reclamam gestos no seu movimento próprio, umas, outras, voz sussurrante. Tudo isso assim ao mesmo tempo e em harmonia. Pois o discurso é um brado no deserto e a delicadeza da gota de orvalho na pétala de rosa pousada. Saber fazer uso comedido desses ingredientes é como dosar o sal na cozinha. Fácil para quem sabe.

O orador e seu exemplo

Aparentemente fugindo da retórica, o Padre nos fala de uma regra que nada tem a ver com o discurso, mas sim com o orador:
“Palavras sem obras, são tiro sem bala; atroam, mas não ferem.” Para Vieira há que se fazer, pois ele faz, distinção entre o semeador e o que semeia; se uma coisa é o semeador e outra o que semeia, uma cousa é o pregador e outra o que prega. “O semeador e o pregador é o nome; o que semeia e o que prega é ação; e as ações são as que dão o ser ao pregador.” Não basta ao pregador, pregar; o bom pregador semeia o que prega, ou, prega semeando, ou, semeando, prega. Tanto, porém, não se queira do orador; fosse essa uma regra da retórica e poucos seriam os nossos. O que sobra da lição é que o orador há de ter um mínimo de identificação com o que diz, sem o que, por mais vistosas que sejam as palavras, o discurso cairá em ouvidos incréus.

Uma última regra

A grande regra, afinal, é que tudo isso, e mais o engenho e a arte, devem estar presentes na oratória, como estavam em Vieira que falava na Capela Real, no Colégio da Bahia e pregava aos índios maranhenses, que sussurrava nas Cortes e bradava nos desertos brasileiros do século XVII; orador, sabia amoldar-se aos gostos e aos costumes e às línguas e aos tempos, sabia escolher os assuntos em função dos tempos e os ornatos em função dos assuntos, uns e outros em função de sua platéia diante da qual era manso como Moisés e renhido como Batista, ora grave, ora sereno, ora altissonante, ora sussurrante, ora severo, ora familiar, ora altaneiro como o condor, ora falando mansinho com seus iguais de cela, ora andando na terra com seus catecúmenos, e seus berberes, jalofos, felupos e mandingas, e seus cariris e seus tapuias, seus tobajaras e seus nhengaíbas, caminhando lépido entre o terreiro, a casa grande e a senzala, e as cortes, na serra da Ibiapaba, em Lisboa e Roma.

  


[1] Este texto foi publicado na Revista Brasileira da Academia Brasleira de Letras, Fase VIII- Outubro-Novembro-Dezembro de 1995- Ano II, nº 5, pp.. 22 e segs.

[2] Seguimos a edição de Lello & Irmãos Editores. Porto, 1959, Tomos 1, II e III, vol. I, p.41 e ss

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Finalmente uma publicação norte-americana toca em um tema crucial: qual a fortuna de Fidel?

A obsessão pelos números é típica dos norte-americanos, que consideram que o que não se quantifica, não existe. “Diga-me a verdade: dê-me números” – costumam dizer executivos, políticos e propagandistas.

Nessa linha, o humorista brasileiro Millor Fernandes conseguiu responder a uma das obsessões dos norte-americanos, ao responder a questão do “preço da liberdade”. Ela calculou o preço para a construção da Estátua da Liberdade, mais o desgaste ao longo do tempo, a valorização do imóvel, as bilheterias do turismo, etc., para chegar a uma cifra de vários milhões de dólares – que seria o preço daquilo que materializa, aos olhos dos norte-americanos e dos admiradores da sua visão, a liberdade.

Ao constatar o valor de Fidel em escala mundial – que provocou as centenas de tentativas de atentados dos EUA contra ele, mas sobretudo o prestígio que ele detêm em Cuba, na América Latina e em todo o mundo -, resolveram buscar quantificá-lo, para chegar à sua “verdade”.

O cálculo da revista milhardária Forbes é simples: tomaram o Produto Interno Bruto de Cuba e calcularam uma porcentagem sobre ele, concentrado nos lucros do Palácio das Convenções, na empresa CIMEX de exportações, na venda de vacinas e de remédios. Esse cálculo daria um montante de 900 milhões de dólares como a fortuna de Fidel, colocado no sétimo lugar no mundo.

A intenção é clara: como a economia cubana é planejada centralmente, o governo máximo se apropriaria das riquezas do país que, como a mentalidade capitalista diz, confundiria totalmente a esfera pública e a privada, conforme o patrimonialismo que costuma existir nos países capitalistas. O presidente do Banco Central de Cuba, Francisco Soberón, baseado nesses critérios – incluído os custos reais da guerra do Iraque, segundo Joseph Stiglitz -, chegando ao que seria a fortuna pessoal do atual presidente dos EUA -, mais as riqueza efetivamente de propriedade sua e o resultado é uma cifra que supera em centenas de vezes a fortuna que é atribuída a Fidel.

Forbes tem razão: Fidel possui uma fortuna incalculável. Não é propriedade dele, mas o verdadeiro proprietário – o povo cubano – associa essa riqueza diretamente a ele, porque foi sob sua direção que ela foi construída.

É a maior riqueza do mundo, porque nenhum outro país a possui. E é incalculável, porque ela não pode ser contada em números, não pode ser fixada em preço, não pode ser vendida, nem comprada.

Trata-se dos direitos econômicos, sociais e culturais conquistados nestas já quase cinco décadas. Trata-se dos valores humanos associados estreitamente a eles.

Uma população que possui, toda ela, não somente a alfabetização, mas pelo menos 9 anos de escolaridade, tudo obtido mediante um sistema único para todos os setores da população, de qualidade, que pode contar com um sistema universitário que gradua a dezenas de milhares de cubanos por todo o país – é uma fortuna incalculável.

Uma população que possui o melhor sistema de saúde pública do mundo, uma população em que ninguém está abandonado – provavelmente a única população que tem essa situação – é uma verdadeira fortuna.

Um país em que nenhuma criança dorme nas ruas. Em que todas estão nas escolas, praticam esporte, realizam atividades culturais - são bens incalculáveis.

A dignidade, a soberania, o orgulho da sociedade que estão construindo – são um patrimônio impossível de ser traduzido em cifras.

Essa a fortuna de Fidel, única, incalculável, que dinheiro nenhum compra, que as sociedades regidas pelo capital e pelo mercado não conhecem.

Fonte: www.cartamaior.com.br

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A violência ocorrida nos meados de maio em São Paulo nos obriga a pensar. Por que ela é tão recorrente? Para vislumbrar alguma luz temos que realisticamente partir desta ambiguidade fundamental: a realidade por um lado vem marcada por conflitos e por outro vem perpassada por ordem e paz. Nenhum destes lados consegue erradicar o outro. Mesclam-se e se mantém num equilíbrio difícil e dinâmico.

A arte consiste em manter a tensão, buscando aquela convergência de energias que permitem o surgimento da paz, fruto de instituições minimamente justas e includentes e ordenações sociais sadias, custodiadas por um Estado que zela pelo equilíbrio das tensões, usando, quando preciso, legitimamente da coerção. Se não houvesse essa busca do equilíbrio possivelmente a socialidade seria impossível e os seres humanos ter-se-iam exterminados uns aos outros.

A paz resulta da administração dos conflitos, usando meios não conflitivos. Assim, na construção da paz devem os interesses coletivos se sobrepor aos individuais, a multiculturalidade prevalecer sobre o etnocentrismo, a perspectiva global orientar a local.

Importa sermos realistas e sinceros. Há violência no mundo porque eu carrego violência dentro de mim na forma de raiva, inveja e ódio que devem ser sempre contidos.

A explicação da agressividade tem desafiado os pensadores mais argutos. Sigmund Freud parte da constatação de que existem duas pulsões básicas: uma que afirma e exalta a vida (Eros)e outra que tensiona para a morte (Thánatos) e seus derivados psicológicos como os ódios e as exclusões.

Para Freud a agressividade surge quando o instinto de morte é ativado por alguma ameaça que vem de fora. Alguém pode ameaçar o outro e querer tirar-lhe a vida. Então o ameaçado se antecipa e passa a agredir e, eventualmente, a eliminar o ameaçador.

Outro pensador contemporâneo, René Girard, afirma que a agressividade provém da permanente rivalidade existente entre os seres humanos (chamada por ele de desejo mimético). Esta rivalidade cria permanentes tensões e elabora sinistras cumplicidades. Ao concentrar em alguém toda a maldade e toda a ameaça, a sociedade torna-o um bode expiatório. Todos se unem contra ele para afastá-lo. Essa união instaura uma paz momentânea entre todos os contendores. Desfeita esta paz, inventa-se um novo bode expiatório (os terroristas, os traficantes etc) e novamente se cria a união de todos contra ele e se refaz a paz perdida.

Os antropólogos nos ajudaram também a entender a agressividade. Asseguram-nos que somos simultaneamente sapiens e demes não por degeneração mas por constituição evolucionária. Somos portadores de inteligência e de energias interiores orientadas para a generosidade, a colaboração e a benevolência. E ao mesmo tempo somos portadores de demência, de excesso, de pulsões de morte. Somos seres trágicos porque surgimos como coexistência dos opostos.

Dada esta contradição como construir a paz? A paz só triunfa na medida em que as pessoas e as coletividades se dispuserem a cultivar, como projeto de vida, a cooperação, a solidariedade e o amor. A cultura da paz depende da predominância destas positividades e da vigilância que as pessoas e as instituições mantiverem sobre a outra dimensão, sempre presente, de rivalidade, de egoísmo e de exclusão.

Fonte: www.cartamaior.com.br

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IIRSA: la integración a la medida de los mercados

 

El proyecto Integración de la Infraestructura Regional Sudamericana (IIRSA), que se viene implementando en silencio, es el más ambicioso y abarcativo plan para integrar a la región al comercio internacional. Si se llevara a cabo completamente, conseguiría conectar las zonas donde se encuentran los recursos naturales (gas, agua, petróleo, biodiversidad) con las grandes ciudades y, a ambos, con los principales mercados del mundo.

 Raúl Zibechi

 

El 31 de agosto y el 1 de setiembre de 2000, durante la reunión de presidentes sudamericanos realizada en Brasilia (Brasil) a instancias del presidente Fernando Henrique Cardoso, el Banco Interamericano de Desarrollo (BID) presentó la propuesta “Plan de Acción para la Integración de la Infraestructura de Sudamérica”. Fue, de hecho, el lanzamiento de la IIRSA, un ambicioso plan para la ejecución de proyectos físicos y cambios en las legislaciones, normas y reglamentos nacionales para facilitar el comercio regional y global.

 

El proyecto IIRSA es un proceso multisectorial que pretende desarrollar e integrar las infraestructuras de transporte, energía y telecomunicaciones en diez años. Se trata de organizar el espacio geográfico en base al desarrollo de una infraestructura física de transporte terrestre, aéreo y fluvial; de oleoductos, gasoductos, hidrovías, puertos marítimos y fluviales y tendidos eléctricos y de fibra óptica, entre los más destacados. Esas obras se materializarán en doce ejes de integración y desarrollo, corredores que concentrarán las inversiones para incrementar el comercio y crear cadenas productivas conectadas con los mercados mundiales.

 

Para poder llevar adelante este megaproyecto es necesario remover las “barreras” físicas, normativas y sociales, lo que supone realizar grandes obras, armonizar las legislaciones nacionales de los doce países implicados en la IIRSA y ocupar los espacios físicos claves que suelen tener baja densidad de población pero guardan las principales reservas de materias primas y biodiversidad.

  

Un proyecto ambicioso

 Un aspecto clave de la IIRSA, como lo señala el estudio del BID “Nuevo impulso a la Integración de la Infraestructura Regional en América del Sur”, presentado en diciembre de 2000, consiste en considerar que el principal problema para posibilitar la integración física, y por lo tanto para mejorar el flujo de mercaderías, son las “formidables barreras naturales tales como la Cordillera de los Andes, la selva Amazónica y la cuenca del Orinoco”[1]. Esa misma concepción es sustentada por el ex presidente del BNDS, Carlos Lessa, quien señalo: “La cordillera de los Andes es ciertamente una belleza, pero es un terrible problema de ingeniería”[2]. Esa lógica de la naturaleza como “barrera” o como “recurso”, está presente en todos los aspectos del plan.

 

En el Seminario Subregional organizado por el Comité de Coordinación Técnica de la IIRSA, en setiembre de 2003 en Lima, se definieron tres objetivos: apoyar la integración de mercados para mejorar el comercio intra-regional; apoyar la consolidación de cadenas productivas para alcanzar competitividad en los grandes mercados mundiales; y reducir el “costo sudamericano” a través de la creación de una plataforma logística vertebrada e inserta en la economía global. Según los principales estudios disponibles, uno de los objetivos de esta integración es poder volcar los recursos naturales de los países sudamericanos para los mercados norteamericanos y europeos.

 

Pero estos objetivos se observan de modo transparente en los mapas en los que aparecen los ejes de integración y desarrollo que siempre abarcan varios países[3]. Los diez ejes definidos (dos están en estudio) son:

 

- Eje Andino (Venezuela-Colombia-Ecuador-Perú-Bolivia)

- Eje del Amazonas (Colombia-Ecuador-Perú-Brasil)

- Eje Interoceánico Central (Perú-Chile-Bolivia-Paraguay-Brasil)

- Eje Interoceánico Capricornio (Antofagasta/Chile-Jujuy/Argentina-Asunción/Paraguay-Porto Alegre/Brasil)

- Eje del Escudo Guayanés (Venezuela-Brasil-Surinam-Guyana)

- Eje Mercosur-Chile (Brasil-Uruguay-Argentina-Chile)

- Eje del Sur (Talcahuano-Concepción/Chile-Neuquén-Bahía Blanca/Argentina)

- Eje Amazónico del Sur ( Perú-Brasil-Bolivia)

- Ejes Marítimos del Atlántico y Pacífico (todos los países)

 

Además están en estudio la Hidrovía Paraná-Paraguay y un megaproyecto para unir las cuencas del Orinoco, el Amazonas y el Plata, a través de la interconexión de 17 ríos, lo que permitiría el transporte fluvial entre el Caribe y el Rio de la Plata.

 

Cada uno de los ejes incluye variadas obras. A modo de ejemplo, veamos lo que sucede con el eje Amazonas que une el Pacífico y el Atlántico e incuye tres grandes ecosistemas (costa, sierra andina y selva): deberá unir el Amazonas y sus afluentes con los puertos de Tumaco (Colombia), Esmeraldas (Ecuador) y Paita (Perú). Ello supone mejorar las carreteras existentes y construir otras. Por otro lado, ya que se trata de un eje que se asienta en una densa red de transporte fluvial, debe asegurarse la navegabilidad de los ríos a través del dragado y linealización de algunos tramos, a la vez que se mejorarán los puertos fluviales. Estas obras y el importante tránsito generarán impactos sobre el ecosistema amozónico.

 

En las zonas que atraviesa el eje hay un gran potencial hidroeléctrico y grandes reservas de petróleo en explotación, además de cultivos de soya y actividades de extracción de madera, pesca y piscicultura. El eje estará interconectado con otros tres (Andino, Interoceánico Central y Escudo Guyanés) y conseguirá abaratar el transporte de los países del Pacífico hacia Europa y de Brasil hacia Japón, estimulando el comercio. En plena Amazonia brasileña está contemplada la construcción de dos gasoductos de Coarí a Manaos y de Urucu a Porto Velho, con un costo de 750 millones de dólares, lo que permitirá poner el gas en condiciones de ser exportado desde puntos clave de los ejes Amazónico y Perú-Brasil-Bolivia. El pirmero incluye el importante puerto de Manaos, y el segundo a Porto Velho (Brasil) que quedaría unido con los puertos peruanos del Pacífico para poder sacar la producción cerealera de la zona -donde más están creciendo los cultivos de soya, maíz y trigo-, además del gas de Camisea (Perú).

 

La mayor parte de los ejes están interconectados. De los diez ejes, cuatro involucran la región amazónica y cinco unen los océanos Pacífico y Atlántico. De esta manera, todas las riquezas naturales del continente quedan a disposición de los mercados.

 

Por otro lado, se definieron siete procesos sectoriales de integración, para identificar los obstáculos de tipo normativo e institucional que encuentra el proyecto. Los siete procesos son: mercados energéticos regionales, sistemas operativos de transporte aéreo, de transporte marítimo y de transporte multimodal, promoción de las tecnologías de información y telecomunicaciones, facilitación de los pasos de frontera y modalidades de financiamiento.

 

Las inversiones totales serían de unos 37 mil millones de dólares. El conjunto del proyecto IIRSA será financiado por el BID, la Corporación Andina de Fomento (CAF) y el Fondo Financiero para el Desarrollo de la Cuenca del Plata (FONPLATA), además de los importantes aportes del brasileño Banco Nacional de Desarrollo Económico y Social (ver recuadros).

 

En realidad, una parte de estos proyectos ya están en marcha aunque no se menciona que forman parte de la IIRSA. Según el Informe Anual de la CAF de 2002, fueron identificados en ese momento cerca de 300 proyectos de integración física en América del Sur, de los cuales 140 podían ser ejecutados inmediatamente y 60 de ellos relacionados a la IIRSA ya estaban en marcha: 40 de transporte, 10 de energía y 10 de telecomunicaciones[4].

  

Territorios y mercados

 Vencer las barreras físicas, legales y sociales para poder implementar la IIRSA, supone cambios profundos en la geografía, la legislación de los estados y las relaciones sociales. Se considera al continente sudamericano como la suma de cinco “islas” que deben ser unidas: la plataforma del Caribe, la cornisa andina, la plataforma atlántica, el enclave amazónico central y el enclave amazónico sur. Los ejes de integración y desarrollo atraviesan esas “islas” y rompen su unidad, lo que en el lenguaje tecnocrático se denomina como “barreras” naturales.

 

Desde el punto de vista geográfico, ello supone grandes obras de infraestructura para “corregir” las trabas que impone la naturaleza para hacer más fluido el transporte y el comercio y, de esa manera, reducir los costos. El eje Perú-Brasil-Bolivia, por ejemplo, busca sacar rápidamente la producción agrícola brasileña –en el enclave amazónico del Sur- por puertos del Pacífico, evitando el desplazamiento hacia el Norte por la cuenca del Amazonas. En este caso, a las obras en ríos se suman carreteras eficientes que atraviesen la cordillera andina. El recorrido natural se modifica –mediante grandes inversiones- para acelerarlo y así llegar velozmente a los mercados mundiales.

 

Como señala Andrés Barreda, “desde los años 80, el tráfico comercial del Pacífico desplaza al del Atlantico; de los 90 para acá, el tráfico portuario del Pacífico supera al del Atlántico; y en el año 2000, en Estados Unidos el tráfico portuario del Pacífico ya doblaba al del Atlántico. Por tanto, hay un problema en el momento en que la economía mundo se reinventa del Atlántico al Pacífico”[5]. Eso ha hecho que el canal de Panamá pierda su importancia y en su lugar aparecen estos corredores para conectar ambos océanos. En Sudamérica el “cuello estratégico”, según Barreda, es Bolivia, por donde pasan cinco de los doce corredores.

 

Por otro lado, y siguiendo al mismo autor, la región sudamericana es una de las pocas del planeta que combina los cuatro recursos naturales estratégicos: hidrocarubros, minerales, biodiversidad y agua. Véase que esta profunda modificación de la geografía (quizá el proyecto más ambicioso sea unir los ríos Orinoco, Amazonas y Paraná) no persigue la integración del continente sino su vinculación con los mercados globales. Puede decirse que se trata de una integración “hacia afuera”, exógena, en vez de propiciar una integración “hacia adentro”. Los ejes o corredores deben tener, además, ciertas características. “Para la conexión en tiempo real el internet es básico. Para la conexión justo a tiempo, la intermodalidad es básica”[6]. Por lo tanto, los corredores deben combinar una moderna plataforma de telecomunicaciones con la infraestructura necesaria para el transporte intermodal.

 

La intermodalidad se asienta en la “revolución de los contenedores”: el sistema es el mismo para el transporte terrestre, aéreo y fluvial y una mercancía debe poder pasar de uno a otro con fluidez, lo que impone carreteras y camiones, aeropuertos y aviones, ríos y barcos capaces de cargar grandes contenedores que ahora sustituyen el viejo concepto de almacén o depósito en el que se guardaban las mercancías. Esto se vincula al nacimiento de las “fábricas globales” que funcionan bajo la premisa just in time: se crea así una suerte de “autómata global” ya que las grandes empresas se han deslocalizado y abarcan todo el planeta en forma de red. Pero este autómata global, “integrado industrial y productivamente, mantiene ahora nuevas relaciones jerárquicas centro-periferia, pero de carácter industrial”, como lo muestra la industria maquiladora[7]. El IIRSA es precisamente el eslabón sudamericano que integra al continente en este proceso, pero de forma subordinada.

 

Desde el punto de vista de superar las barreras normativas de los estados, la IIRSA profundiza la estrategia neoliberal de desregulación y debilitamiento de los estados nacionales. Adecuar las legislaciones nacionales a las necesidades del comercio mundial supone homogeneizar las normas. De esa manera cada región y cada país pierden sus rasgos diferenciadores y los estados pierden autonomía frente a las multinacionales y los estados del primer mundo.

 

Por último, deben ser superadas las llamadas “barreras sociales”. Un solo ejemplo, entre decenas que se podrían traer, es suficiente para ilustrar de qué se trata: el gasoducto Coari-Manaos, con 420 kilómetros, atraviesa el río Amazonas y una de las zonas mejor preservadas de la selva. Las dos empresas más interesadas en el proyecto son la brasileña Petrobras y la estadounidense El Paso (líder mundial en el área del gas y una de las mayores del mundo en el sector energético). En 1998 Petrobras construyó la primera parte del gasoducto, con 280 kilómetros, uniendo las reservas de Urucu con la ciudad de Coari. La obra trajo grandes impactos socio-ambientales a la región: “disminuyó la pesca, afectando a las poblaciones ribereñas que dependen de los peces para sobrevivir; afectó las zonas de extracción de castaña de Pará, fundamental para la sobrevivencia de las comunidades; la población de Coari creció considerablemente, pues la ciudad alberga a los trabajadores que llegan de diferentes lugares, hubo un crecimiento fuerte de la prostitución, de la violencia y de los casos de malaria”[8]. Sólo el gasoducto Urucu-Porto Velho afectará a 13 pueblos indígenas y a cinco municipios donde el 90% de la población son indios.

 

En suma, el beneficio que obtienen un puñado de multinacionales supone perjuicios sociales y ambientales irreversibles, y el debilitamiento de estados de la perfieria que se verán impotentes para contener estos problemas.

  

Dos casos: Brasil y Bolivia

 Este proyecto de integración afecta de modo diferente a cada país y a cada región del continente pero, a grandes rasgos, pueden definirse “ganadores” y “perdedores” en función de los beneficios o daños resultantes de la implementación de la IIRSA. Uno de los problemas del proyecto es, precisamente, que ahondará las diferencias entre países, regiones y sectores sociales ricos y pobres, ya que todos se integrarán en el mercado mundial de forma desigual, en función de las “ventajas comparativas” que hoy presentan. Para ejemplificar estas diferencias tomaremos en cuenta dos países: el más pobre del continente, Bolivia, y uno de los países más industrializados del mundo, Brasil.

 

En Bolivia sólo es pobre la mayoría indígena. Cuenta con importantes reservas de hidrocarburos, las segundas del continente luego de las de Venezuela. Tiene además una posición geográfica clave, ya que por su territorio rico en biodiversidad –que va del altiplano andino a la selva anazónica- deben pasar cinco ejes de integración y desarrollo que unen el Pacífico y el Atlántico. Por eso la banca internacional definió en el plan El Cambio para Todos que Bolivia debía convertirse en “país tránsito del subcontinente y centro distribuidor de gas y otros energéticos”[9]. Como país de tránsito, los corredores de exportación de bienes y servicios formarán parte de importantes proyectos binacionales de generación y distribución de energía hidroeléctrica y termoeléctrica.

 

Según los planes definidos en la IIRSA, el país se verá abocado a la construcción de una nueva Red Fundamental de Carreteras, que dejan zonas enteras del país aisladas pero conectan las reservas de hidrocarburos con los mercados mundiales. El Eje Interoceánico Central –que une el puerto brasileño de Santos con los chilenos de Arica e Iquique- atraviesa Bolivia por el la zona central y es imprescindible para países como Brasil y Chile, que son los más interesados en impulsar el comercio bi-oceánico. El Eje Perú-Brasil-Bolivia permite unir el estado brasileño de Rondonia con el Pacífico, para sacar la gigantesca producción de soya de ese estado “aprovechando una de las pocas regiones del continente en el que el cruce de los Andes presenta menores dificultades”[10]. De este modo Bolivia es objeto de grandes inversiones que fraccionan su territorio con cinco corredores.

 

Brasil está en la situación opuesta. Este tipo de integración exógena le permitiría “avanzar en su anhelo de lograr una posición dominante en América Latina, resultado de la estrategia desarrollada desde los 80’ de alcanzar el liderazgo regional a través de la incorporación a su zona de influencia de los países de su entorno geográfico más próximo: Argentina, Uruguay, Paraguay, luego Bolivia y Chile, posteriormente los demás países de la Comunidad Andina y luego toda Sudamérica, con el fin de fortalecer su economía frente al ALCA”[11].

 

Brasil está en condiciones muy similares a los países del primer mundo a la hora de sacar provecho de la IIRSA. En los hechos, Brasil tiene una relación con los demás países sudamericanos –con la parcial excepción de Argentina- similar a la que tienen los países del centro con los de la periferia. En primer lugar, Brasil es el más interesado en la región en poder sacar su producción industrial y del agrobusiness por el Pacífico. En segundo lugar, son brasileñas algunas de las empresas que construyen parte de la infraestructura, como la Constructora Norberto Odebrecht, que tiene inversiones en casi todos los países de la región, o como la petrolera Petrobras[12]. En tercer lugar, el Banco Nacional de Desarrollo Eaconómico y Social (BNDES) es uno de los principales financiadores de la IIRSA.

 

El Complejo Rio Madera, que es uno de los núcleos del Eje Perú-Brasil-Bolivia, es quizá el mejor ejemplo. Carlos Lessa, ex presidente del BNDES, sostuvo que con ese proyecto “Brasil promueve su propia versión de la conquista del oeste en una zona selvática vecina a Perú y Bolivia, con su megaproyecto que ilustra los sueños de integración de América Latina, en cuyas fronteras está todo por hacer”[13]. El proyecto Complejo Rio Madera incluye dos hidroeléctricas en Brasil; esclusas para hacer navegable el río, lo que supone la eliminación de una zona de cachelas que “interrumpen” la navegación; una hidroeléctrica en el río Beni (Bolivia) y puertos para la hidrovía de los ríos Madera-Guaporé-Beni-Madre de Dios (Brasil-Bolivia-Perú). El proyecto permite “la generación de energía en cantidades significativas y a bajo costo y para la consolidación del Polo de Desarrollo del agrobusiness en la región oeste de Brasil y la Amazonía boliviana”, lo que permite la reducción de los costos de transporte de granos y otros commodities[14].

 

El proyecto tendrá un enorme impacto ambiental, y beneficiará sólo a Brasil. “Las empresas brasileñas se constituirán en el único comprador de la toda la energía producida, imponiendo condiciones de compra, contratos y precios”. El proyecto demanda una inversión de 6 mil millones de dólares, beneficiará a las brasileñas Odebrecht, Furnas Centrais Elétricas y al grupo Tedesco Maggi (el mayor exportador de soya de Brasil), que ha invertido cien millones de dólares en la navegabilidad del río Madera, “donde posee la flota más importante de barcazas y remolcadores, con una capacidad de transporte fluvial de 210 mil toneladas por mes” [15].

 

Observado en perspectiva, proyectos como el Complejo Rio Madera forman parte de la geopolítica brasileña de expansión hacia el oeste y de ocupación de territorios “vacíos”, de control de recursos estratégicos como los hidrocarburos bolivianos, y confirma la impresión de que “los gobernantes brasileños parecen haber llegado a la conclusión de que el aumento de la competitividad brasileña en el mercado internacional depende, en gran medida, de la integración de Sudamérica”[16]. Sólo habría que agregar que se trata de una integración doblemente subordinada: a Brasil, por parte de los países sudamericanos, y del conjunto de la región al mercado y el empresariado mundiales.

 

 

La IIRSA en el mundo

 La IIRSA aparece estrechamente vinculada al ALCA, al punto que puede decirse que son dos caras de una misma moneda. “El ALCA determina lo jurídico administrativo en forma más concreta y la IIRSA la infraestructura”[17]. Y ambos aparecen ligados a un proyecto más vasto del que forma parte también el Plan Puebla-Panamá.

 

Sin embargo, la IIRSA tiene una particularidad: es un tipo de integración nacida en el Sur, gestionada en gran medida por las elites del Sur, pero que beneficia a los sectores mejor insertos en el mercado internacional. El énfasis en las obras de infraestructura aparece vinculado a la necesidad de los mercados mundiales de consguir un flujo sostenido y en aumento constante de las exportaciones de materias primas y recursos naturales. Y hacerlo de modo “competitivo”, o sea reduciendo los costos. Es evidente que este tipo de desarrollo generará más pobreza y mayores desigualdades, aumentará la concentración de la riqueza a escala local y global y tendrá profundos impactos ambientales. Entre otras consecuencias negativas, la deuda externa de los países de la región seguirá creciendo y la sobreexplotación de los recursos puede llevar a que en algunas décadas los países que cuentan con petróleo o gas como su principal riqueza, acaben por agotarla sin haber obtenido ninguna ventaja.

 

Por último, y este es uno de los aspectos más preocupantes de la IIRSA, la forma como se está implementando es muy grave, ya que los proyectos se están llevando adelante en silencio. Así como en todo el continente hay un amplio debate sobre el ALCA y los TLC, los proyectos vinculados a la IIRSA se vienen realizando sin participación de las sociedades civiles ni de los movimientos sociales, sin información por parte de los gobiernos. Este estilo induce a pensar que se busca evitar el debate. En paralelo, se están construyendo los proyectos en partes para más tarde enlazarlos, lo que impide la vigilancia y control de las poblaciones afectadas y facilita que se burlen las leyes ambientales. Formalmente, la IIRSA nació en el año 2000, pero buena parte de los proyectos vienen de los años 90. El aspecto más perturbador es si la creación de esta enorme red de infraestructdura no conseguirá, finalmente, imponer los mismos objetivos del ALCA pero sin ese nombre, sin debate, de modo vertical por parte de los mercados y las elites. Si esto fuera así, tal vez en unas décadas se haya consumado, de forma invisible, un gigantesco proyecto que remodela todo el continente y afecta a todos sus habitantes. Porque las elites saben, como lo muestra la experiencia reciente, que un debate abierto de sus planes, los condena al fracaso.

 

Recuadros

 

Banco Interamericano de Desarrollo (BID)

 Institución financiera regional creada en 1959 par impulsar el desarrollo económico y social de América Latina y el Caribe. Tiene 46 miembros: 26 de América Latina y el Caribe, Estados Unidos, Canadá y 18 países extra regionales. La autoridad máxima es la Asamblea de Gobernadores integrada por los ministros de Hacienda de cada país.

El poder de voto está determinado por las acciones de cada uno: América Latina y el Caribe 50%; Estados Unidos 30%; Japón 5%; Canadá 4% y resto 11%.Brasil, Argentina y México tienen la misma cantidad de acciones que Estados Unidos.

Entre 1961 y 2002 el BID aprobó préstamos de 18.823 millones de dólares: 51% a proyectos de energía; 46% a transporte terreste y 3% a telecomunicaciones, transporte marítimo, fluvial y aéreo. Brasil obtuvo el 33% de los recursos.

  

Corporación Andina de Fomento (CAF)

 Institución financiera multilateral creada en 1970. Hasta 1981 aprobó operaciones por 618 millones de dólares pero entre 1995 y 1999 tuvo una gran expansión aprobando operaciones por 12.325 millones.

Es el mayor agente de financiamiento de proyectos de infraestructura en América Latina. Tiene 16 países miembos y es el primer financiador de los países de la Comunidad Andina de Naciones. Es un gran financiador de la IIRSA y del Plan Puebla Panamá (PPP) y puede llegar a financiar el canal Atrato-Truandó o Atrato-Cacarica-SanMiguel, que permitirá la conexión entre IIRSA y PPP.

  

Fondo Financiero para el Desarrollo de la Cuenca del Plata (FONPLATA)

 Crado en 1971 para financiar proyectdos de integración de esta cuenca. Brasily Argentina tienen el 33,3% cada uno, Bolivia, Paraguay y Uruguay el 11,1% cada uno. Financia proyectos unos mil millones de dólares en transporte, agropecuaria, industria, exporetaciones y salud.

  

Banco Nacional de Desarrollo Económico y Social (BNDS)

 Banco público brasileño creado en 1952. Con el gobierno Lula está dirigido a financiar grandes proyectos de infraestructura en América del Sur. Cuenta con grandes recursos, mayores a los de los otros organismos financieros de la región, y está implementando proyectos de energía e hidroeléctricos muy importantes en Venezuela y Ecuador, entre otros. Con Venezuela y Argentina tiene proyecto superiores a los mil millones de dólares con cada uno.

  

Recursos

 Achkar, Marcel y Dominguez, Ana “IIRSA: Otro paso hacia la des-soberanía de los pueblos sudamericanos”, Programa Uruguay Sustentable-Redes Amigos de la Tierra, Montevideo, 2005.

 

Barreda, Andrés “Geopolítica, recursos estratégicos y multinacionales”, 20 de diciembre de 2005, en www.alainet.org

 

Carvalho, Guilherme “La integración sudamericana y Brasil”, Action Aid, Rio de Janeiro, 2006.

 

Fobomade “Las venas del ALCA. IIRSA. Bolivia, un país de tránsito y de extracción de recursos”, La Paz, julio de 2003, en www.fobomade.org.bo

 

Fobomade “El rol de Bolivia en la integración sudamericana” en www.fobomade.org.bo

 

Herbas Camacho, Gabriel y Molina, Silvia “IIRSA y la integración regional”, en revista OSAL No. 17, Buenos Aires, Clacso, mayo-agosto de 2005.

 

Molina, Patricia “Bolivia-Brasil: Relaciones energéticas, integración y medio ambiente”, en www.fobomade.org.bo

 

Soldatelli, Elisangela “IIRSA. E esta a integraçao que nós queremos?”, Amigos da Terra, Porto Alegre, diciembre de 2003.

  

Siglas

 Banco Nacional de Desarrollo Económicoy Social (BNDES): www.bndes.gov.br

 Comunidad Andina de Naciones: www.comunidadandina.org

 Corporación Andina de Fomento (CAF): www.caf.com

 Fobomade (Foro Boliviano sobre Medio Ambiente y Desarrollo): www.fobomade.org.bo

 FONPLATA: www.fonplata.org

 IIRSA: www.iirsa.org

 

[1] Documento del BID citado en Elisangela Soldati, ob. cit. p. 4.

[2] Citado en Guilherme Carvalho, ob. cit. p. 36.

[3] Todos los mapas pueden encontrarse en www.fobomade.org.bo Hacer click en el botón verde “Geopolítica e Integración” y  luego en “IIRSA-ALCA”. Al aparecer la página hacer click en “Galería de Mapas”.

[4] Elisangela Soldati, ob. cit. p. 16.

[5] Andrés Barreda, ob. cit.

[6] Idem.

[7] Idem.

[8] Elisangela Soldatelli, ob. cit.

[9] Fobomade, “El rol de Bolivia en la integración sudamericana”, p. 3.

[10] Idem, p. 7.

[11] Idem, p. 6.

[12] Ver el informe “Brasil y el difícil camino hacia el multilateralismo” en www.americaspolicy.org

[13] Patricia Molina, ob. cit.

[14] Idem.

[15] Idem.

[16] Guilherme Carvalho, ob. cit. p. 64.

[17] Marcel Achkar y Ana Domínguez, ob. cit. p. 18.

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